31.12.13

Prelada no Inverno

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Todos os portuenses sabem que os descampados da Prelada são particularmente frios. Por estes dias registaram-se records que serão dignos da Sibéria.




30.12.13

Ainda o Cimbalino

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O Porfírio do Cimbalino e a Balança Falante


No ano 2000 editei um pequeno li­vro que recolhia textos de humor e sá­tira (ilustrado com desenhos publica­dos no Jornal de Notícias) a que dei o nome Cimbalino Curto, e o jornalista Via­le Moutinho atribuiu-lhe três estrelas (nu­ma escala de cinco) na recensão crítica que fez no jornal Diário de Notícias. Um dia o telefone tocou no meu ateliê. Do outro lado, alguém me dizia que fa­lava de Lisboa... e eu a registar a força do seu sotaque tripeiro! - Olhe, eu mo­ro em Lisboa e estou farto de procurar o seu livro Cimbalino Curto, mas não o encontro nas livrarias. Fui ao Diário de Notícias para me darem o seu contac­to, mas também não sabiam quem vo­cê era. Tiveram que telefonar para a de­legação do Porto, e só assim pude che­gar à fala consigo. Sabe? É que eu sou o inventor do cimbalino!... E disse-o com tanta convicção e entusiasmo que, de imediato, lhe propus um encontro pa­ra que me contasse essa sua invenção. Combinamos dia e local, meti-me no comboio, encontramo-nos junto ao ele­vador da Bica e fomos almoçar bacalhau com grão. Bom conversador, o meu leitor even­tual chamava-se Porfírio. Rumou a Lis­boa em 1959 para chefiar a FAEMA, re­sidia em Oeiras, e nasceu no Porto (Fre­guesia de Santo Ildefonso) em 1928, ten­do vivido a meninice e juventude numa "ilha" da rua de S. Victor. Em miúdo este­ve, por um triz, para participar, como fi­gurante, no filme de Manoel Oliveira, Ani­ki Bobó. Só não o fez porque adoeceu e quando se iniciaram as filmagens esta­va internado nas Goelas de Pau (Hospi­tal Joaquim Urbano). A sua mãe, viúva, não queria vê-lo para­do. Por isso, aos sete anos, ajudava-a a carregar canastras de pão para a Calça­da de Monchique e, no Verão, ía para a praia da Foz vender copos de água com limão, de um regador forrado com he­ras. Carregou carvão e farinha, foi marçano, vendeu fruta aos trabalhadores que construíam o Coliseu do Porto, e aos do­mingos recebia gorjetas de viúvas por limpar jarras e floreiras no cemitério do Prado do Repouso. 

Aos 14 anos era aprendiz de serralhei­ro na Metalúrgica Henrique F. dos San­tos, no Largo do Corpo da Guarda. Entre os vários artigos fabricados nessa ofici­na contavam-se máquinas de café de sa­co, açucareiros, cafeteiras e leiteiras. Mas também se procedia a consertos e, nes­se sentido, às segundas-feiras, o Porfírio dava uma volta pelos cafés da baixa por­tuense recolhendo as peças com neces­sidade de arranjo. 

Dessas rondas profissionais recordava os cafés Java, Majestic, Águia D'Ouro, Palladium, Brasileira, Tivoli, Atneia, Arcá­dia, Sport, Central, Victoria, Astória e Bra­sil, e ainda a Confeitaria Palace, estabele­cimento de gabarito, que existia ao fun­do da rua 31 de Janeiro, na curva para Sá da Bandeira. No primeiro andar fun­cionava a redacção do jornal O Século. O Porfírio também arranjava fechadu­ras, e muitas vezes foi chamado a casas de prostituição onde, inexplicavelmente, as fechaduras avariavam muito!... Nes­sas andanças acabou por fazer amizade com muitas "mulheres da vida". Na dé­cada de 1950 Salazar proibiu a prostitui­ção complicando a vida a muitas profis­sionais do sexo, e o Porfírio recorreu às amizades que fez com os proprietários dos cafés da baixa, conseguindo empre­go para muitas delas. Uma das obras metalúrgicas que as suas mãos ajudaram a construir, e que recor­da pela sua imponência, é um candeei­ro de tecto que pode ser visto no hall do Teatro Rivoli. Um dia o Porfírio mudou de casa e de patrão. Instalou-se na rua de Santa Catarina, no número 630, e arran­jou emprego no número 610, na oficina metalúrgica de Manuel Ferraz, pegada à Casa NunÁlvares. Em 1948 veio a "co­queluche" das lâmpadas fluorescentes e o Porfírio especializou-se na nova técni­ca de iluminação. Também fez holofotes para a Tobis, máquinas de cortar fiambre e de medir azeite, cadeiras de barbeiro e balanças. Entretanto o serviço militar interrompeu-lhe a profissão numa altu­ra em que a guerra da Coreia obrigou o Estado Português a defender os territó­rios de Timor e Macau. O Porfírio só não foi mobilizado porque era considerado o amparo de família, por ser órfão de pai. Em 1950 a oficina mudou-se de Santa Catarina para a rua de Noeda (Campa­nhã), e uma nova especialização estava reservada ao Porfírio.

La Cimbali e o cimbalino 

Em 1956 a boa fama profissional da ofi­cina de Manuel Ferraz levou a que fos­se escolhida para agente da marca La Cimbali, moderna máquina italiana de ti­rar cafés. Porfírio foi a Itália fazer uma es­pecialização para poder reparar as no­vas máquinas, cuja primeira foi montada no Café Central, em Anadia. Seguiu-se a montagem de máquinas nos cafés Águia d'Ouro, Palladium, Âncora dOuro, Tropi­cal, Brasileira e Confeitaria Lobito (Largo do Padrão) no Porto, e nos cafés Sport e Pátria, em Matosinhos. O Porfírio era co­nhecido em todos os cafés, e o seu passa­do profissional merecia confiança. Hones­to, simpático, alegre e bom conversador, facilmente convenceu todos os indus­triais do ramo a deixarem montar uma das modernas máquinas nos seus esta­belecimentos, à experiência. Um engenheiro italiano, de nome Cam­po Nuovo, acompanhava o Porfírio e in­formava os donos dos cafés que só se procederia à venda da máquina se se comprovasse a eficácia do novo mo­do de servir café à italiana, se o interes­se dos clientes justificasse e se houves­se vontade de aquisição por parte do proprietário do estabelecimento. E foi a que começou o problema. Ninguém pe­dia café de máquina!... Passavam-se os dias e o café à italiana não tinha clien­tes. Aquilo parecia um fiasco e o italia­no Campo Nuovo começou a desani­mar e pensou regressar a Itália com as máquinas. Entendendo es­se desânimo, e cheio de boa vontade em ajudar, o Porfírio percebeu a fal­ta de informação que fa­zia o desconhecimento do produto pelos poten­ciais consumidores, e sugeriu ao italiano: 
- Ó senhor engenheiro, porque é que o senhor não faz um cartaz a dizer assim: "Não peça café. Pe­ça um cimbalino e veja a diferen­ça". Campo Nuovo arregalou os olhosl De imediato viu que acaba­ra de nascer um nome para o no­vo produto que era o café da má­quina La Cimbali! 

Aceitou a ideia, mandou tipografar car­tazes com a frase sugerida pelo Porfírio, distribuiu-os pelos cafés... e algum tem­po depois já pôde facturar as máquinas instaladas! 

Os bons apreciadores de café aderiram ao "cimbalino" que se tornou num êxito e numa marca do Porto, e o Porfírio re­cebeu um prémio de 5.000 escudos pe­la ideia! 

A balança falante 

A Farmácia Estácio, pegada ao Teatro Sá da Bandeira, no Porto, era famosa por ter uma balança que falava! Recor­do o momento mágico em que a minha mãe me levou a pesar-me nela. Subi pa­ra o prato, o ponteiro movimentou-se no mostrador apontando para o meu peso e, ao mesmo tempo, uma voz metálica saiu da balança, informando: "Vossa Ex­celência pesa vinte e quatro quilos e du­zentos gramas"!... Estávamos na década de 1950 e a técnica de gravação sono­ra não tinha a sofisticação necessária pa­ra explicar o fenómeno! O Porfírio fazia a manutenção da balança falante, e explicou-me o seu funcionamento. A balança, colocada na entrada da farmácia, nunca mudava de lu­gar. Nem podia!... Estava presa ao chão por parafusos. E na ca­ve, precisamente sob a balança, havia uma mesa sobre a qual se encontrava outro mostrador ligado por um veio ao tecto... ao prato da balança que esta­va na lojal Essa mesa era o pos­to de trabalho de uma funcio­nária que endereçava sobrescri­tos, empacotava comprimidos e rotulava xaropes, enquanto espe­rava que um cliente se fosse pesar. Quando tal sucedia, o mostra­dor da cave apontava o mesmo peso que o clien­te comprovava visual­mente, enquanto que acendia uma lâmpada vermelha, chamando a atenção da funcioná­ria. Esta, tinha um mi­crofone e um botão para o ligar, e dizia o peso que via no mos­trador que tinha à sua frente, e que o cliente ou­via na saída do som por de­trás do painel do ponteiro! Às vezes, momentanea­mente, a balança "avaria­va"... mostrava o peso, mas não falava. Isso acontecia quando a funcionária da cave... ia fazer um xi-xi... 

Onofre Varela
GRANDE PORTO MAGAZINE Dezembro 2004  | histórias da cidade


Explicação sobre o como e o porquê deste texto e desta foto

Há algumas semanas atrás, após ter visto uma das minhas fotos sobre o antigo Quartel da rua D. Manuel II, o Onofre Varela cedeu para publicação aqui no blogue um dos seus textos ainda inédito sobre «A casa da rata do CICA».

Desta vez foi um texto publicado na Cidade Surpreendente, que eu desconhecia, do autor de «Um Cimbalino Curto» que me levou a solicitar-lhe a publicação aqui.

Por vezes há cada coincidência, penso eu. 
Conheço há alguns anos o Onofre. Conheço o artista plástico e o escritor, mas também o cidadão. 
Por outro lado, também há muitos anos conheci o senhor Manuel Ferraz, quando eu era ainda menino e amigo de infância do Zé Manel. Além disso, tinha estado – minutos antes – numa conversa internética sobre os cafés do Porto, dos cafés já desaparecidos mas que estavam bem vivos na minha juventude. 
O Estrela deve ter sido o café onde eu passei mais tempo durante alguns anos. Penso ter pertencido aquele grupo que, em ares de brincadeira, para quebrar a morosidade da época afirmava que “já nos tínhamos sentado em todas as cadeiras”.  

Neste final de ano de 2013 dedico o texto aos antigos frequentadores do Estrela, ao Zé Manel Ferraz e agradeço ao Onofre que me autorizou a publicação.


29.12.13

Junta de Freguesia da Foz do Douro

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A Junta de Freguesia foi extinta nas últimas eleições autárquicas.

Há dois ou três dias procurei a sua página na internet e encontrava-se completamente vazia.

Sabia que as povoações da Foz do Douro, de Campanhã e de Lordelo do Ouro tinham sido anexadas à cidade em 1836? 


27.12.13

Igreja da Senhora da Conceição

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O Porto visto de cima.


Efeméride

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Faz hoje exactamente um ano que as "Ruas da minha terra" também existem no Facebook.

De uma maneira regular vão aparecendo os artigos e as fotos já publicadas aqui há alguns anos, quase sempre acompanhadas de comentários diferentes e mais íntimos dos que aqui existentes.

Aqui fica o convite para uma visita às Ruas do meu Porto.

Aproveito a ocasião para agradecer as 439 pessoas que, ao longo deste período, seguem esta nova página.




24.12.13

Rua Morgado de Mateus

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Esta artéria já teve os nomes de Rua do Mede Vinagre e Rua da Murta.

Mas o que nos interessa aqui é o Morgado. Segundo a Wikipédia temos um certo número deles. O difícil é escolher o bom.

Estando esta rua mesmo ao lado da Biblioteca Municipal vem logo à ideia que a referência toponómica deve ter algo a ver com "aquela" edição de "Os Lusíadas".

Pois bem, o "nosso" Morgado não é mais nem menos do que 

José Maria de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos 

Só que eu estava longe de me relembrar que também tinha sido ele que editou, ou mandou editar "Les Lettres d'une Religieuse Portugaise" de D. Mariana Alcoforado. 

E passo a transcrever o que nos diz o Dicionário Histórico de Portugal :


« Mais conhecido pelo Morgado Mateus. Moço fidalgo da Casa Real, senhor e administrador dos morgados de Mateus, Sabrosa e outros vínculos; comendador da ordem de Cristo, conselheiro de fazenda, diplomata, etc. 

N. no Porto a 9 de Março de 1758, fal. em Paris em 1 de Junho de 1825. 

Seguindo a carreira diplomática, foi encarregado de negociar a paz em 1801 entre Portugal e a França, paz de que a Espanha tinha de ser medianeira. A paz não pôde celebrar-se, e pelo contrário acendeu-se a guerra 
também com a Espanha. Daí resultou a triste campanha em 1801, finda a qual se celebrou a paz com os dois países, sendo ainda o morgado Mateus o negociador, e que foi em seguida nomeado ministro de Portugal junto do primeiro cônsul Bonaparte. Desempenhou com habilidade essa missão difícil, e procedeu com energia na questão do general Lannes, que Bonaparte nomeou cônsul em Portugal, e que procedeu aqui com a maior insolência praticando toda a casta de despropósitos que o governo do regente lhe tolerou pela sua minímia fraqueza. Ao despótico primeiro cônsul não convinha um ministro como D. José Maria de Sousa, e por isso exigiu a sua transferência para outra corte, e efectivamente foi mudado para S. Petersburgo, sendo substituído em Paris por D. Lourenço de Lima. O morgado Mateus passou ainda para Estocolmo e Copenhaga; quando Bonaparte nos impôs também a obrigação de rompermos com a Rússia. 

Havia casado com D. Teresa de Noronha, filha de D. José de Noronha, e tendo enviuvado, casou segunda vez, em Paris, em 1802, com Madame Adelaide Maria Fileul de la Bellarderie, viúva do conde de Flahaut, autora de vários romances muito apreciados no seu tempo, e conhecida na república das letras por Madame de Sousa. Depois da Restauração, voltou para Paris, em 1817. Apaixonavam-no sobretudo as suas predilecções literárias. Madame Sousa era uma grande escritora e o morgado Mateus um homem de fina e cultivada inteligência. Enquanto sua mulher escrevia os seus romances, o morgado Mateus preparava a sua edição monumental dos Lusíadas, de Camões, mandando imprimir em Paris, nesse ano de 1817, o volume do célebre poema que apresentou depois à Academia Real das Ciências. Esta nomeou uma comissão composta de António Caetano do Amaral, Mateus Valente do Couto e Francisco Mendes Trigoso, que deu a respeito dessa edição um parecer muito lisonjeiro, observando apenas que o editor deveria ter seguido a edição de 1572. A este reparo respondeu D. José Maria de Sousa numa carta que foi impressa nas Memorias da Academia. Os Lusíadas eram precedidos por um artigo do morgado Mateus, sobre a Vida de Camões, trabalho muito notável. A despesa feita pelo morgado Mateus com esta edição, foi de 51.152 francos e 40 cêntimos (9.207$132 réis) os desenhadores foram Gerard, Fragonard, Visconti e Desenne; foram 12 os gravadores, e o revisor da obra foi um tal Menia. Durou 17 meses a impressão que era em magnífico papel velino, sendo os tipos fundidos de propósito. Tiraram-se 210 exemplares, de que D. José Maria de Sousa distribuiu em presentes 179, sendo 11 para o Brasil, 66 para Portugal, 22 para França, 28 para Inglaterra, 5 para Espanha, 13 para Itália, 30 para o Norte, 2 para a América, e 2 para a Ásia. Entre os presenteados, além das testas coroadas e príncipes, contavam-se o conde de Palmela, António Ribeiro dos Santos, Sismonde de Sismondi, Lord Castlereagh, Reynouard, David Hume, a condessa de Albany, o conde de Nevelrode, Metternich, e dois membros da família Bonaparte, o príncipe Eugénio, a rainha Hortênsia, etc. Esta edição foi exclusivamente destinada para presentes, mas o morgado Mateus consentiu que na imprensa Didot, onde se fizera aquele primoroso trabalho, se fizesse uma edição para o público, reimprimindo-se ainda em 1836. 

D. José Maria de Sousa também publicou: Lettres portugaises, traduzidas em portuguez com o texto francez em frente, e precedidas d'uma noticia bibliographica por D. J. M. S; Paris, 1821. São as célebres cartas atribuídas a D. Mariana Alcoforado; isto é, as últimas cinco das doze que Filinto Elísio também traduziu, visto que as outras sete são com certos fundamentos julgadas apócrifas. Fez‑se uma nova edição, em 1853, também em Paris, reproduzindo somente o texto francês, com o título: Lettres portugaises; nouvelle edition conforme à la première, avec une notice bibliographique sur ces lettres. »


22.12.13

Casa e jardim de Serralves

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Algumas linhas sobre a casa de Serralves publicadas no blogue "Mais cidade que sexo":

« O segundo Conde Vizela, Carlos Alberto Cabral (1895-1968), para além de ter sido um grande industrial, foi um homem culto e viajado que procurou aos mais renomados artistas do seu tempo para construir, mobilar e decorar a Casa de Serralves. 

Entre eles, destaca-se o francês Émile Jacques Ruhlmann, um famoso decorador ao qual recorreu após visitar a Exposição Internacional de Artes Decorativas que teve lugar em Paris, em 1925. 

A casa começou a ser construída nesse ano e os trabalhos terminaram só em 1944. Foi "um projecto ambicioso", que o conde conseguiu concretizar ao mesmo tempo que geria a Fábrica de Fiação e Tecidos do Vizela, uma das maiores do seu tempo. 

A construção encontra-se amplamente documentada através da correspondência que o Conde Vizela e Ruhlmann mantiveram entre 1926 e 1939, "por vezes quase diária", segundo referiu o director do Museu de Serralves, João Fernandes.

"Tudo vinha de Paris", salientou João Fernandes, observando, no entanto, que "o Conde Vizela é o grande autor da Casa de Serralves", mas com Ruhlmann por trás. 

Eurico Cabral ainda se lembra bem do tio, da casa que ele teve em Biarritz, França, e de como Serralves foi o seu "primeiro choque cultural", quando pela primeira vez lá entrou, em 1947. 

"O meu tio reuniu praticamente toda a família aqui, quando inaugurou a casa", recorda ainda. Segundo conta, o segundo Conde de Vizela era homem de poucas falas, "sempre muito sério e que vivia muito isolado, sobretudo aqui em Portugal". »

Pode continuar a ler o artigo intitulado Um conde visionário ou a história de Serralves.


19.12.13

A Junta de Freguesia de Santo Ildefonso e o Jornal de Notícias

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Sobre o Jornal de Notícias:

« O matutino Jornal de Notícias foi fundado a 2 de junho de 1888, no Porto, e tornou-se num dos jornais de maior expansão em Portugal, especialmente a seguir à Revolução do 25 de abril de 1974. As primeiras instalações deste jornal diário ficavam situadas na Rua de D. Pedro e aglomeravam a redação, a administração, a composição e a impressão.

Quando saiu para a rua, o Jornal de Notícias, dirigido por José Diogo Arroio, tinha quatro páginas de grande formato, custava dez réis e era vendido no Porto e arredores, Lisboa e Braga. A nível de conteúdo apostava em noticiário nacional e internacional e dedicava a última página a anúncios.

A tiragem inicial do matutino portuense rondava os 7500 exemplares por edição, mas começou a subir a partir de 1890, quando fez campanha política em favor dos regenerados. Pouco depois, foi introduzida uma inovação nas páginas do jornal já que em 1891 surgiram as primeiras gravuras com retratos dos principais implicados na revolta do 31 de janeiro. Neste mesmo ano, o jornal deixou de se publicar à segunda-feira. Sete anos mais tarde, estreou a reprodução de mapas com as Antilhas e o Atlântico, a propósito da guerra hispano-americana.

O jornal, que ficou conhecido também por JN, assumiu claramente a defesa do Norte e do Porto em 1911, na época em que mudou de novo de instalações, desta vez para a Rua Elias Garcia.

O início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, levou a que durante alguns meses voltasse a haver edições à segunda-feira, mas essa medida só viria a ser adotada em definitivo já em 1936.

Entretanto, a Avenida dos Aliados passou a ser a morada do JN a partir de 1926, situação que se manteve até 1970, altura em que houve uma mudança para um edifício novo na Rua Gonçalo Cristóvão. Durante este espaço de tempo o jornal continuou a implantar-se junto do público, com o contributo de iniciativas como o concurso Quadras de São João, lançado em 1929. Numa tradição mantida ao longo de décadas, os leitores são convidados por altura das festas de São João a enviar quadras da sua autoria para o JN. Aí, são avaliadas por um júri e as melhores ganham prémios e são publicadas nas páginas do jornal.

Nos tempos da ditadura, o JN passou tempos difíceis com a censura e, em 1951, chegou a ser considerado como órgão da oposição ao regime.

Após a Revolução do 25 de abril de 1974 as vendas do jornal subiram bastante e em 1978 o JN passou a ser o jornal nacional com maior adesão.

Ao longo da sua existência a empresa do Jornal de Notícias lançou vários outros jornais, mas não os manteve por muito tempo. Assim, durante seis meses de 1945, foi publicado o vespertino A Tarde e, entre 1981 e 1984, existiu o Notícias da Tarde. O jornal desportivo O Jogo foi lançado pelo JN em 1985, mas depois tornou-se autónomo.

Junto com o JN de domingo é oferecida desde 1973 uma revista. Começou por ser a "Revista JN" mas mais tarde passou a chamar-se "Notícias Magazine" sendo feita em parceria com o Diário de Notícias. A partir de 2003, o JN e o DN começaram a publicar semanalmente aos sábados a revista Grande Reportagem.

Em finais da década de 90, o JN passou a oferecer diversos brindes como forma de manter e atrair novos leitores. Junto com o jornal tanto passaram a vir fascículos para completar livros, como talheres para formar um faqueiro.

O Jornal de Notícias manteve sempre uma forte ligação ao ciclismo, tendo organizado, entre 1982 e 2000, a Volta a Portugal em bicicleta. »

Publicado na Infopédia.


Sobre a Freguesia de Santo Ildefonso (extinta):


350 ANOS DE HISTÓRIA

É sobremaneira difícil falar-se, com um mínimo de profundidade, de uma freguesia urbana como a de Santo Ildefonso.
Essa dificuldade resulta de muitos e díspares motivos.

É a freguesia de Santo Ildefonso caracterizada por aspectos típicos de uma grande cidade, situada que está no coração dela. Uma grande área, uma área onde acontece a maior parte da fenomenologia urbana, onde os habitantes são de fluxo dinâmico, onde os moradores residentes não ocupam um leque percentual idêntico (por defeito) ao de outras freguesias do Porto, mas ainda assim, eivada de circunstancialismos de fundamental importância para a vivência de uma cidade de trabalho e de cultura: é na freguesia de Santo Ildefonso que residem as maiores actividades comerciais, um número soberbo de serviços, os centros culturais predominantes, a tradição da difusão informativa, nomeadamente através dos jornais diários do Porto, prestigiados e prestigiosos, com raro paralelo no restante território nacional.

Espantosamente, é a Junta de Freguesia de Santo Ildefonso, uma das que menos se conhecem em termos de origem histórica.

Para um estudo prévio, elaborado pela actual Junta de Freguesia, no sentido de ser conseguida a publicação deste trabalho, detectaram-se três linhas num exemplar da revista «O Tripeiro» n.19 (1º Ano), de 1 de Janeiro de 1909. A págs. 14, sob o título «VÁRIA» imprimiram-se algumas bases de informação. A terceira referia: «FREGUEZIA DE SANTO ILDEFONSO - A FREGUEZIA DE SANTO ILDEFONSO NO PORTO FORMOU-SE A 24 DE JUNHO DE 1634».
Apenas assim, sem mais qualquer outra fundamentação.

Prosseguindo a leitura de exemplares sucessivos de «O TRIPEIRO», cuja redacção, nessa época, se localizava curiosamente em espaço geográfico pertencente a esta freguesia (Rua Formosa, 199), encontrou-se ainda algumas notas e referências, no entanto por demais insuficientes, numa perspectiva de análise histórica. Assim: um mês depois («O Tripeiro» n.22, de 1 de Fevereiro de 1909) era publicado:
«AINDA NAQUELA DATA (11/9/1759), A FREGUESIA DE SANTO ILDEFONSO DESCIA ATE AO DOURO E COMPREENDIA TUDO O QUE E HOJE D'ESTA FREGUESIA DE SÃO NICOLAU, DESDE OS MUROS DOS GUINDAES ATE AOS LIMITES DE CAMPANHÁ».
E no final do mesmo ano, em 1 de Dezembro de 1909, em «O Tripeiro» n.52, um texto assinado por Ricardo Jorge estabelecia:
«... ATE 1836 CONSTA O PORTO PROPRIAMENTE DE SETE FREGUESIAS, SE, VICTÓRIA, 5. NICOLAU, SANTO ILDEFONSO, MIRAGAlA, MASSARELOS E CEDOFEITA.. PELO DECRETO DE 26/11/1836 FORAM-LHE ANEXADAS LORDELO DO OURO, CAMPANHÃ e S. JOÃO DA FOZ; E POR CARTA DE LEI DE 27/8/1837, NOVA ANEXAÇÃO,A DE PARANHOS.
A DESIGUAL DISTRIBUIÇÃO DESTAS FREGUESIAS PEDIA REFORMA DAS SUAS CIRCUNSCRIÇÕES; DESTE PLANO TOMOU A INICIATIVA O BISPO ELEITO, E APROVADO SUPERIORMENTE O SEU PROJECTO DE PORTARIA DE 13/2/1838, PROCEDEU-SE A NOVA DEMARCAÇÃO, FIXADA POR UMA COMISSÃO ONDE ENTRAVA O BISPO, A CÂMARA E DELEGADOS DAS JUNTAS DE PARÓQUIA. SANTO ILDEFONSO, DE UMA ÁREA ENORME, FOI DESMEMBRADA, CREANDO-SE À SUA CUSTA UMA NOVA FREGUESIA, A DO SENHOR DO BONFIM. O ARREDONDAMENTO PAROQUIAL DE 1838 SÓ FOI SANCIONADO PELO DECRETO DE 11/12/1841, SOB O REFERENDO DE COSTA CABRAL.. . »
Todavia, parece-nos importante salientar aqui a data de 1623 há uma referência - D. Rodrigo da Cunha avançava dessa data um quantitativo da que chamou «Santo Ildefonso»: 1150 habitantes, sendo 1000 de maioridade e 150 menores».
Um estudo de Domingos A. Moreira, sobre as «Freguesias da Diocese do Porto» confere à freguesia de Santo Ildefonso um nascimento que foi operado entre esse ano de 1623 e o ano de 1687.
Passemos, entretanto, a uma Pública Forma datada de 6 de Maio de 1828, certidão atestada pela Câmara no sentido de:
«À VISTA DOS RESPECTIVOS TÍTULOS OU DOCUMENTOS HAIJA DE ATTESTAR-LHES OU CERTIFICAR-LHES DE NARRATIVA SE CONSTA OU EXISTE MEMÓRIA QUE DESIGNE O TEMPO EM QUE HAVIA HUMA SÓ FREGUESIA NESTA CIDADE».
Trata-se de uma certidão da Câmara a pedido do Juiz e Mesários da Confraria do Santíssimo Sacramento e Senhor Jesus da freguesia de Santo Ildefonso, solicitando a precisão, que a certidão da Câmara apontava para o ano de 1551.
Transcrevemos o texto. A data de 1584 é citada, no entanto, como desdobramento de freguesias na cidade.
CERTIDÃO
RODRIGO FREIRE DE ANDRADE PINTO DE SOUSA, ESCRIVÃO DA ILLUSTRISSIMA CÂMARA DESTA CIDADE DO PORTO E SEU TERMO POR SUA MAGESTADE FIDELISSIMA QUE DEOS GUARDE, FAÇO CERTO QUE DO LIVRO DAS VEREAÇOENS DO ANNO DE MIL E QUINHENTOS E SINCOENTA E HUM, A FOLHAS SETE VERSO, CONSTA SER A PARROCHIA DA SÉ A UNICA EM TODA A CIDADE DANDO MOTIVO A ESTA DECLARAÇÃO TOMADA EM CAMARA EM CONGRESSO DE POVO SE SIM OU NÃO DEVERIÃO HAVER CONFRARIAS DO Santíssimo SACRAMENTO NOS CONVENTOS DE SAM FRANCISCO E SAM DOMINGOS PARA O POVO PODER ASSISTIR AS PROCISSOENS DOS DOMINGOS TERCEIROS, VISTO QUE NÃO CABIA NA SÉ NESSES DIAS E NÃO HAVIA OUTRA PARROCHIA OU CONFRARIA NO ANNO DE MIL E QUINHENTOS E SECENTA E HUM EM HUMA SENTENÇA NO LIVRO SEGUNDO DELLAS A FOLHAS CENTO E QUARENTA CONSTA HAVER FREGUEZIA EM SANTO ILDEFONÇO ARRABALDE DA CIDADE ASSIM COMO O HAVEREM JÁ AS NOVAS IGREJAS NA CIDADE NO ANNO DE MIL E QUINHENTOS E OITENTA E QUATRO E NELLAS ESTABELLECIDAS AS CONFRARIAS DO SANTISSIMO SACRAMENTO PARA AS QUAES PERTENDIA O SENHOR BISPO CONCORRESSE A CONFRARIA DO SANTISSIMO SACRAMENTO DA SÉ COM QUATRO TOCHAS PARA CADA HUMA AO QUE SE OPOZERÃO EM CAMARA NEGANDO-SE AQUELLA REQUEZIÇÃO».
Estes dados dispersos não podem, com rigor, dizer-nos muito sobre a formação e os circunstancialismos que a determinaram, da freguesia de Santo Ildefonso. Um ou outro aspecto são, no entanto, irrefutáveis. Por exemplo, a sua vasta extensão, que a tem vindo a caracterizar desde sempre. E a fundamental importância de que alguns dados apontam:
  • Em 12 de Setembro de 1983, o Presidente da Junta de Freguesia de Santo Ildefonso, Albino Alves Teixeira, endereçou um ofício ao Chefe de Divisão do Arquivo Histórico da Câmara Municipal do Porto. Nesse ofício foi salientado: «Sabemos que nos fins do século passado, um prédio onde estavam instaladas as Escolas Paroquiais de Santo Ildefonso e a respectiva secretaria da Junta, prédio esse que pertencia ao Conselheiro Miguel Dantas Gonçalves Pereira, ardeu numa noite de Santo António, não existindo portanto livros de actas ou outros documentos que nos certifiquem da formação legal da Junta de Freguesia». Assim, e a partir das informações disponíveis, inquiria-se da possibilidade de confirmar-se aquela data de 24 de Junho de 1634 através dessa via.
A resposta pouco avançou: ao ofício da Junta seguiu-se o ofício do Chefe da Divisão do Arquivo Histórico que referia:
«1. Não parece existir neste Arquivo Histórico qualquer documento alusivo à criação da paróquia de Santo Ildefonso;
2. Foi percorrida vária bibliografia, mas as informações encontradas continuam a ser muito vagas. Por exemplo, do estudo de Domingos A. Moreira, sobre as «Freguesias da Diocese do Porto» (pág. 126) apenas se pode confirmar que o seu nascimento se deu entre 1623 e 1687;
3. Todavia, num livro editado em 1869, da autoria de J. M. Pinto, e sob o título «Apontamentos para a História da Cidade do Porto» (pág. 104) volta-se a indicar que «no anno de 1634, a confraria do Senhor Jesus juntou-se à do Santíssimo Sacramento. Foi elevada a freguesia em 1634, contando então 1790 almas». Num outro estudo encontramos a indicação que isso se deu por desmembramento da freguesia da Sé»;
4. É provável que esteja correcta a informação de «O Tripeiro». Na página 104 de «Apontamentos para a Cidade do Porto» pode. pois, ler-se:
  • Data de grande antiguidade a fundação da sua primeira Igreja. Consta que já em 1519 existia uma Igreja com a invocação de Santo Ildefonso, a qual era extramuros, próximo da Porta do Cimo da VilIa e aonde era também venerada a imagem do Senhor Jesus, que tinha a sua respectiva Confraria. Já em tempos imemoráveis se sepultavam no Adro desta Igreja as entravadas e em 1592 a confraria concedeu sepultura aos pobres da Freguesia. No anno de 1634 a Confraria do Senhor Jesus juntou-se à do SS. Sacramento. Foi elevada a Freguesia em 1634, contando então 1790 almas».
Estes são, grosso modo, os únicos pontos em que podemos assentar. O arrabalde de Santo Ildefonso, extramuros, é portanto antiquíssimo. Como paróquia suburbana era a mais extensa. Ladeando sempre a muralha Fernandina, principiava no Senhor do Bonfim e ia terminar nos assentos das Virtudes, limitando com Campanhã, Paranhos, Cedofeita e Miragaia. Incluía já no seu âmbito as Ruas de Santo Ildefonso e de Santa Catarina, a Neta, o Bonjardim, as Hortas, a Natividade e a Rua do Almada, até à Igreja de Nossa Senhora da Lapa. Voltando pelo lado poente do Largo de Santo Ovídio dividia com Cedofeita e Miragaia pela Rua da Sovela, Ferradores, Cordoaria e Virtudes. A Igreja de Santo Ildefonso encontra-se lá mencionada em documento do século 13. Ainda em 1560 se erguia no meio de um campo junto de um souto de Carvalheiras, «fora da Porta de Cima da Vila».

Era templo pequeno e estava, nos princípios de setecentos, muito arruinado; foi mandado reedificar em 1730. Próximo ficava um casal, que antes de 1443 se chamava de João Ramalde e depois, lugar do Pinheiro. Logo adiante, na actual Praça da Batalha, junto da Porta de Cima de Vila, o devoto Baltasar Guedes mandou edificar, em 1590, a elegante capela de N.Sª da Batalha, demolida em 1924. Mais abaixo, ficava o lugar dos Carvalhos do Monte; quase encostada ao Postigo do Penedo (que João de Almada transforma, em 1768, na Porta do Sol) erguia-se a ermida de Santo António do Penedo, com seu adro de galilé, e ao lado, a casa solarenga dos Brandões. Era um dos mais pitorescos recantos do velho Porto, infeliz e inutilmente destruído em 1887. Ficava em frente do palácio do visconde de Azevedo (onde está instalado o Governo Civil).

A Rua das Fontainhas chamou-se em algum tempo Rua do Regato. Ali estiveram o Recolhimento das Entrevadas (já existente em 1498), o Hospital dos Lázaros e Lázaras (1558), e o Recolhimento de N. Srª das Dores (Velhas do Camarão) fundada em 1819 no Largo do Camarão e viela de N.Sr.8 das Dores, por detrás do Recolhimento das Órfãs, em S. Lázaro. A alameda deve-se a Francisco de Almada (1790).

Entre as Ruas das Fontainhas e do Sol, onde funcionaram os matadouros, chamava-se outrora Vale de Donas, e existia uma quinta, depois denominada das Fontainhas, que pertenceu sucessivamente às famílias Pereira de Melo (capitães-mores de Penafiel), Fontana, Vanzeller e Alpenduradas.

A Rua de Alexandre Herculano, que liga as Fontainhas à Batalha, foi aberta em 1877: chamou-se primeiro Rua Nova da Batalha. Junto da capela de Sant'llafom e de uma velhíssima Albergaria dos Peregrinos de Cima de Vila», havia, em 1590, o Campo do Pombal, que entestava com «a estrada que vai entre as paredes», para S. Lázaro. Deve ser remota referência à Rua de Entreparedes, à qual se seguia a do Reimão, hoje Avenida Rodrigues de Freitas.

O Campo de S. Lázaro estava antigamente plantado de frondosos carvalhos e castanheiros; ali esteve, desde o séc. XIV e vindo da Ribeira, o Hospital dos Gafos «de Cima de Vila de Mijavelhas», aos quais el rei D. João 1 confirmou os antigos privilégios por c. de 28-IX-1423 (A. D. 1385). Ainda existem aqui dois edifícios que merecem especial menção: A igreja e Recolhimento das Órfãs, fundado em 1724 pelo padre Manuel de Passos e Castro, e o convento de Santo António da Cidade (1783), hoje Biblioteca Municipal.

Próximo de S. Lázaro, no moderno Largo dos Poveiros, existiu também a capela de Santo André e de Santo Estêvão, demolida em 1863, quando a Câmara continuou a Rua da Alegria até àquele largo. Outro pitoresco recanto do velho Porto, que desapareceu.

À Rua de Santo André encontramos referências em 1692. Adiante ficava o Padrão das Almas, ainda agora recordado no Largo do Padrão. Mijavelhas era todo o espaço que hoje compreende a Rua do Morgado de Mateus, (que se chamou primeiro Rua do Mede Vinagre e da Murta) e o Poço das Patas (hoje Campo 24 de Agosto). Esteve aqui a forca até 1714, ano em que o Senado deliberou mudá-la para a Ribeira. O regato de Mijavelhas, que desaguava no Douro, fazia mover no seu percurso numerosas azenhas que neste lugar existiram.

Mais longe, em direcção a Campanhã, a igreja do Senhor do Bonfim, edificada em 1760 e depois erecta em paroquial, independente de Santo Ildefonso. Em redor, a Alameda do Bonfim, obra, como a das Fontainhas e a das Virtudes, do grande corregedor Almada, era um dos aprazíveis lugares da cidade.
Mas voltemos à igreja de Santo Ildefonso, ponto de partida de duas das principais artérias da cidade moderna: as Ruas de Santa Catarina e de Santo António.

A Rua Nova de Santa Catarina é uma das grandes obras que o Porto deve aos dois Almadas. Em 1711 tratava-se do alinhamento dela; Rua Bela da Princesa se chamou o seu prolongamento até à Alameda da Aguardente (praça Marquês de Pombal). Sofreu sucessivas reedificaçóes e alterações até 1780. As artérias que lhe são paralelas ou transversais, datam quase todas de época posterior:
A Rua da Duquesa de Bragança, (hoje de D. João IV) rasgou-se por 1855.
Em 1858 projectava-se uma outra rua que substituísse a Viela das Doze Casas: foi a Rua do Príncipe Real (agora de Latino Coelho), que se abriu primeiro até à Rua da Alegria e depois de 1866 se prolongou até ao Largo da Póvoa e Rua de S. Jerónimo (hoje de Santos Pousada). Este Largo da Póvoa recorda antigos casais rústicos, que constituíam pequenas aldeias (Póvoa de Baixo e de Cima).

Em 1838, um edital determinava que a Travessa da Alegria e a Rua de S. Jerónimo formassem uma só, com o nome de Rua Firmeza. Na Aguardente, por onde passava em continuação de Bomjardim, a estrada de Guimarães, edificou-se em 1875 a capela de Santo António. Em volta da alameda, ainda em 1858 existiam estreitas e tortuosas vielas.

Uma planta de 1843 mostra-nos o projecto de prolongamento da Rua 27 de Janeiro (a actual Rua da Constituição), para poente da Rua da Rainha hoje Antero de Ouental), até ao Carvalhido, passando em tangente à bateria da Glória, no Monte Pedral.

Outra planta, de 1822, prevê o melhoramento do tortuoso Caminho de Malmerendas (Rua Dr. Alves da Veiga), por duas maneiras: em linha recta, da actual Rua de Fernandes Tomás até próximo do encontro da Rua Formosa com a Rua Direita, ou, por linha quebrada, em direcção à mesma Rua Direita, na saída da travessa para S. Lázaro.

A grande Quinta de Lamelas está hoje representada por alguns quintais de casas das Ruas Formosa e de Santo Ildefonso e parte do leito da Rua Passos Manuel.

Há poucos séculos todo este bairro de Santa Catarina, Santo António, Fernandes Tomás e Sá da Bandeira constituíam vasto terreno bravio, matagais, almoinhas, alguns quintalejos irrigados por cursos de água que desciam para o rio da Vila ou para o Douro.

A urbanização deste trato citadino, por esforço dos Almadas, designadamente a abertura da Rua de Santo António, em fins do séc. XVIII, foi obra notabilíssima, como tal já na própria época reconhecida e proclamada. Escrevia em 1879 o inglês Thomas Modessan: «o rompimento da Rua de Santo Ildefonso, a unir com o largo da Porta de Carros e Calçada dos Clérigos é outra das majestosas obras que em outro tempo apenas se poderia conceber e efectuar no decurso de um século». Refere-se, como se vê, à Rua de Santo António; descendo a movimentada artéria, estamos na Praça (da Liberdade), centro actual de toda a vida citadina.

Fora da Porta de Carros, e junto da muralha fernandina, estendia-se pelos anos de 1430, um casal chamado de Paio de Nabais; note-se a circunstância curiosa de em Lisboa existir, por esse tempo, topónimo semelhante. Próximo, o Casal da Torre, vinculado à capela de João Anes Gordo, coutador de el rei. Estes e outros casais ficavam onde então se chamava As Hortas.

Em 1711 «O Rev.do Cabido tomou a si para fundar a Praça Nova, fora da Porta de Carros», terrenos que eram seus e outros que obteve por troca. Assim começou a urbanizar-se o local, principalmente depois que, dez anos mais tarde, em 1721, o mesmo Cabido e a Câmara se entenderam para esse objectivo.

Em 1682, o antigo Campo das Hortas foi guarnecido com a Fonte da Arca, e o oratório de N. Srª da Natividade, demolidos ambos nesse ano de 1721 para alargamento e terraplanagem desta praça Nova das Hortas. Desde tempos muito mais recuados existia ali uma outra fonte: a da Cividade. Assim, um documento de 1446 menciona a Rua que vai para a albergaria dos clérigos, contra a fonte da Cividade. Parece mesmo que se chamava já no séc. XV Fonte da Arca, pelo menos existia um casal com este nome e, em 1532, encontramos referência ao Casal de Paio Nabais, no Cimo da Fonte da Arca.

Descreve a praça o padre Agostinho Rebelo da Costa, em 1788: «é... quadrada, tendo ao nascente o extenso dormitório do convento dos padres Néris, todo aberto em janelas altas e largas de três andares, que formam um agradável prospecto; ao poente as casas que faceiam com a Rua Nova das Hortas e que se elevam à altura de quatro andares; ao norte o palácio em que se ajunta o Senado da Relação e o de D. António de Amorim, ao sul o muro da cidade». Acrescentaremos alguns esclarecimentos.

Em 1657 os irmãos da confraria de Santo António de Lisboa, sita em Santo António do Penedo, quiseram ter capela própria e compraram um chão nas Hortas, defronte da Porta de Carros; mas nesse mesmo ano cederam à Câmara a projectada capela e o terreno, para que esta aí a edificasse. Arrastaram-se as obras, que ainda não estavam concluídas em 1680, quando o Município, a instância de D. Pedro II, cedeu templo e campo em redor aos padres Néris. Assim se fundou o convento de Santo António dos Congregados. A rua que ia da Porta de Carros para os Lavadouros, próximo desta casa conventual, chamava-se em 1761 Rua de Santo António. Ao norte da praça tinham suas casas nobres os Amorins Pereiras e os Meireles Moreiras, edifícios que desapareceram em 1916, quando se abriu a Avenida dos Aliados.

Na casa dos Meireles Moreiras esteve a Relação e depois, durante um século, a Câmara. Ao sul, ficava o muro da cerca fernandina, muro de que por sinal, caiu um grande troço, no ano de 1529. Da porta de dentro dele, no chão chamado da Cividade, ergueu-se nos últimos anos do séc. XV o convento de Santo Elói, como ficou dito. Todo o vasto terreno por detrás da casa dos Congregados e dos palacetes dos Amorins e Meireles, chamava-se, desde remotas épocas, Liceiras.

O lugar de Bonjardim, em Liceiras foi emprazado no ano de 1457 ao arcebispo do Porto. Diogo Anes, mas é muito mais antigo pois vem já mencionado no testamento do bispo D. Vicente Mendes, em 1296. Constituía uma vasta propriedade vinculada da família Pereira Pintos e depois, por herança, dos Teixeiras Coelhos de Melo Pinto da Mesquita, senhores de Teixeira e Sagude. Pela Rua do Bonjardim era a velha estrada de Guimarães. Para poente desta, estendiam-se campos, hortas, olivais e os laranjais que vieram a dar nome ao bairro que criou João de Almada e Melo no terceiro quartel do séc. XVIII.

No lugar das Regadas, em Liceiras, que existia em 1540, e depois se chamou Quinta do Laranjal mandou aquele grande reformador do velho Porto, abrir, em 1761, a Rua do Almada. O troço desta, entre a Ruas dos Clérigos e a Rua Eliseo de Melo já então existia, e chamava-se Rua Nova das Hortas, comunicando com a Rua da Fábrica (do Tabaco), onde o rico negociante Souto e Freitas mandou edificar a sua formosa casa, há pouco infelizmente desaparecida.

Em 1818, vemos numa planta da cidade as praças de Santa Teresa e do Pão (Carmo) esta última crismada mais tarde em dos Voluntários da Rainha. Daqui saía a Rua do Moinho de Vento, para o largo do mesmo nome. Existiam também a Rua do Bispo que, depois de 1822 alargada e prolongada, veio a ser a Rua de D. Pedro; a de Santo Ovídio ou da Sovela, agora dos Mártires da Liberdade, por onde corria a velha estrada de Braga a da Misericórdia ou do Pinheiro no topo da qual se ergueu ainda a casa e capela que fundou João António Monteiro de Azevedo, conhecido autor de uma descrição de Vila Nova de Gaia. Este Casal do Pinheiro ou do Boticário, em Liceiras, pertencia ao bispo de Coimbra, D. Martinho, que em testamento o deixou ao cabido portuense.

Uma outra planta, também da 1ª metade do séc. XIX, regista o Monte da Douda (elevação que ainda existe entre as Ruas do Almada, Liceiras e lateral da Trindade) e as então novas Ruas do Laranjal, da Picaria e da Conceição e a Quinta do Paraíso, de Hutes Bacelares. Com a abertura da Avenida dos Aliados desapareceram algumas destas ruas, ou palácios dos Meireles e dos Amorins, a capela dos Reis Magos e, mais recentemente uma outra dessas artérias: a da Cancela Velha. Subsiste a Rua do Estêvão, que deve o seu nome a um antigo proprietário local: Estêvão Ribeiro de Almeida.

Junto da cerca dos Congregados subia a afamada Viela da Neta, de que há restos; foi cortada quando se abriu a Rua de Sã da Bandeira, depois de 1834, nos terrenos dos padres Néris. Em 1874 ainda se tratava de rasgar parte desta artéria que recentemente foi prolongada até Fradelos.

O projecto da Praça do Laranjal data de 1798; nela existiu uma fonte com pitoresco nome, e em 1804 construiu-se, encostada à Travessa da Douda (Rua de Cima do Muro), a igreja da Trindade, que deu ao largo a sua actual designação.

Em 1801 projectava-se também prolongar a actual Rua de Fernandes Tomás até ao Bonjardim, para substituir a Rua Nova de S. Marçal ou de Santo António do Bolhão, que era muito irregular.

Em 1810 estava desabitado quase todo o terreno entre as Ruas de Santa Catarina e Bonjardim, ao norte desta Rua do Bolhão, até Fradelos, que comunicavam pela estreitíssima Viela do Ribeiro.

Uma planta de 1837 representa a Praça do Bolhão, dividida em quarteirões armados, com sua escada e a fonte chamada igualmente do Bolhão. Antes o local era apenas um lameiro. O mercado data de 1850.
Em 1846 existia ainda a mencionada Viela do Ribeiro, que comunicava com a Rua de Santa Catarina pela Viela das Laranjeira. A Rua de Passos Manuel estava em construção pelos anos de 1874-77; cortou parte da Viela da Neta e da Quinta de Lamelas, como já dissemos. Fradelos é topónimo muito antigo. Pero Soeiro Castelo e Mem Mouro deixaram ao cabido as terras de que eram senhores neste lugar, das quais se fizeram dois casais antes de 1283, data em que o mesmo Cabido comprou certa leira, para juntar a essas propriedades. Um destes casais pertencem à família do grande Brás Cubas, fundador da Vila de Santos, no Brasil. Havia ali, no séc. XV, o Campo do Sineiro e a Calçada.

A Rua de Gonçalo Cristóvão é moderna; foi aberta em terrenos do vínculo do Bonjardim, e tomou o nome de um dos administradores do morgado, o fidalgo Gonçalo Cristóvão Teixeira Coelho de Meio Pinto Mesquita. Vê-se o seu projecto, desde o Campo de Santo Ovídio até à Rua do Bonjardim, em planta de 1838; neste documento se regista também a Rua do Duque do Porto, hoje de João das Regras. Havia aqui uma pedreira, na junção com a Travessa das Musas e Bonjardim. A Rua de Camões estava igualmente em projecto naquele ano.

Em 1865 já a Rua de Gonçalo Cristóvão chegava até ao Bonjardim, e pensava-se na sua continuação até Santa Catarina. Pouco antes desta data estava já resolvido também o prolongamento da Rua Duque do Porto até à Rua Bela da Princesa (Santa Catarina), através da denominada Pedreira do Bairro Alto.

O Campo de Santo Ovídio (depois, em 1835, da Regeneração e agora Praça da República), chamava-se, em recuados tempos, os Carvalhos do Monte, designação que ainda subsistia em 1670. Tomou o nome de Santo Ovídio de uma capela desta invocação que ali existia, no mesmo local onde mais tarde esteve o Hospício dos Agostinhos, encravado na Quinta dos Pamplonas (viscondes de Beire).

Por iniciativa do corregedor Francisco de Almada começou em 1790 a construção do quartel de Infantaria 18, no extremo norte do campo, que ficou livre para os exercícios militares.

No Monte de Germalde e sítio do Padrão Velho de Santo Ovídio, por detrás deste quartel, tinha em 1754 o missionário padre Angelo de Sequeira promovido a construção da igreja de N. Sr.ª da Lapa. Ficava esta à beira da velha estrada de Braga e próximo do lugar chamado do Sério. A Rua do Paraíso, que vai deste templo até à Rua do Bonjardim, já existia em 1867, data em que se previa o seu alargamento e regularização, e cremos que era então antiga, talvez de mais de um século.

As actuais Rua do Antero de Quental, Praça da República, Ruas dos Mártires da Liberdade, Largo das Oliveiras e Praça de Carlos Alberto serviam de limites entre as freguesias de Santo Ildefonso e Cedofeita, como noutro lugar ficou dito.

A Praça de Carlos Alberto chamou-se também do Peixe e antes dos Ferradores, designação anterior a 1559.

Um Tombo do mosteiro de S. Domingos menciona, em 1669, «a Rua pública dos Ferradores, junto do chafariz da Porta do Olival». Por aqui passava o carro da água de Paranhos. A determinado local da praça chamava-se o Outeiro dos Ferradores. Neste largo tiveram sua casa os viscondes de Balsemão; no edifício, que ainda existe, esteve a famosa hospedaria do Peixe, onde pousou o rei Carlos Alberto. Passou a casa depois à posse dos condes da Trindade, cujo brasão ostenta na frontaria. Para sul, até entestar no muro da cidade, e confrontar com Miragaia, espraiava-se o vasto Campo do Olival, mais extenso que a Cordoaria que lhe sucedeu, com o nome de Campo dos Mártires da Pátria em 1835. Este Campo do Olival, incluído na doação da rainha D. Teresa ao bispo D. Hugo, em 1120, foi mais tarde, na concórdia celebrada entre o concelho e o seu prelado no ano de 1331, por este cedido «para rocio e prol do comum da dita cidade»; já então ali existia uma cordoaria.

Pelo campo do Olival começou, como noutro lugar já acentuámos, a expansão da cidade extra-muros, nos últimos anos do séc. XVI, com a sucessiva construção de notáveis templos e edifícios públicos e particulares. Dos mais antigos deviam de ser, provavelmente, uma capela da invocação de S. Miguel, que se diz ter sido fundada pela rainha D. Mafalda, em cumprimento de piedoso acto, e outra dedicada a S. Sebastião; ambas existiam em 1514.

No próprio lugar onde se erguia a primeira destas ermidas, edificou-se em 1651, graças aos esforços do benemérito padre Baltasar Guedes a igreja e colégio dos Meninos Órfãos de N. Sr.ª da Graça, em 1804 substituídos pelo edifício onde hoje se acha instalada a Faculdade de Ciências. No Olival esteve, não sabemos onde, o Recolhimento das Velhas da Cordoaria, já existente em 1488.

Em 1611, a Câmara mandou delinear e plantar a Alameda do Olival. Oito anos depois, em 1619, à custa também do Senado e do Povo, construíram-se a igreja e o convento do Carmo; o templo dos Terceiros, que lhe fica anexo, data de 1756. O Recolhimento do Anjo, para meninas órfãs e nobres, foi instituído em 1672 por D. Helena Pereira da Maia, no lugar onde esteve, mais tarde e por muitos anos, o mercado, e agora a Praça de Lisboa.

Cerca de 1666, no cimo da Rua do Calvário, fundou a família dos Pachecos a capela de S. José das Taipas. Pegado com ela, edificaram os Sandeman seu palácio em 1839. Em 1730, no local hoje adaptado a mercado, construíram os franciscanos de Santo António do Vale da Piedade um hospício. Nesta casa, sobranceira às Virtudes, instalou-se posteriormente a Roda dos expostos. O mercado do peixe, paredes meias com a Roda, data de 1874, edificado sobre os antigos Celeiros da cidade.

No ano de 1770, no chão onde existiam dois meios casais chamados do Robalo, começou a Misericórdia a construção do seu Hospital de Santo António. Ainda nos limites do Olival, no campo chamado da Via Sacra ou Calvário Velho, fez-se o convento de S. José e Santa Teresa de carmelitas descalças. Deu esta casa, hoje desaparecida, o nome à Rua das Carmelitas; ocupava o terreno que vai desde esta rua até à Praça de Santa Teresa (Praça Guilherme Gomes Fernandes) e Rua Cândido dos Reis.

No lugar desta moderna artéria da cidade, era o Largo do Ermitão onde, no séc. XVII, se erguia uma pequena ermida, e depois, quase até nossos dias, se realizava a Feira dos Ferros Velhos. Logo adiante, o Correio (1834).

Defronte, e no alto da Calcada da Arca ou da Natividade, que conduzia, como dissemos, às Hortas, no lugar denominado da Cruz da Cassoa, construiu-se, sob o risco de Nasoni, a belíssima torre e igreja dos Clérigos, talvez o mais notável edifício da cidade.

Junto ficava o Campo das Malvas que até 1796 serviu de adro dos enforcados. Além destes monumentos, que todos merecem especial referência, é o Campo do Olival ou da Cordoaria digno de memória por outras circunstâncias. A designação de Cordoaria deve-se ao facto de nele terem estado, por muito tempo, os cordoeiros. Já em 1331, quando o bispo cedeu este campo à cidade, ali existiam; mais tarde estabeleceram-se em Miragaia. Mas crescendo em número, estenderam-se até às Virtudes em 1661 estavam de novo na Porta do Olival, onde D. José mandou edificar a fábrica, que continuou até 1862. Nesse ano ainda viviam cordoeiros junto da Viela do Assis.

Na Porta do Olival viu o Porto os seus dois únicos autos de fé, em tempo do bispo D. Frei Baltasar Limpo (1543-1544). Aqui esteve a forca, transferida da Ribeira em 1822. Foi teatro de alguns acontecimentos históricos. Neste campo começou, em 1757, o famoso motim contra a Companhia dos Vinhos, e ali mesmo terminou com a morte na forca dos supostos cabecilhas. Aqui também, em 1809, o povo trucidou o brigadeiro Luís de Oliveira da Costa, sob a acusação de jacobino. A par destas tragédias, viu o luzido cortejo da rainha D. Filipa quando ao Porto veio casar com D. João 1; assistiu à passagem do senhor D. Gaspar, a caminho do seu arcebispado de Braga. Nele se realizava a animada feira de S. Miguel, criada em 1682. Foi, nos meados do século passado, o jardim «do bom tom» no Porto. E para terminar esta digressão pela freguesia de Santo Ildefonso, diremos ainda que em 1623 ela contava 1.150 almas; em 1706, 589 fogos com 2.134 habitantes; em 1732, D. Luís Caetano de Lima conta 4.747 almas; e em 1788, o padre Rebelo da Costa, 4.390 fogos, com 18.814 habitantes. Repare-se neste extraordinário incremento de população, devido aos esforços urbanizadores dos Almadas.

Sempre se vem podendo, pois, e apesar de tudo, referir muito da longa História da freguesia. No roteiro «Descrição da Cidade do Porto», considera-se o bairro de Santo Ildefonso, a Norte da cidade», principiando no Senhor do Bom Fim e finalizando nos Assentos das Virtudes, incluindo toda a Rua Nova de Santa Catarina até à Neta e Bom Jardim, todo o Largo e Rua das Hortas, Almada até à Senhora da Lapa e voltando por Santo Ovídio passa aos Ferradores, Cordoaria, Assentos das Virtudes onde se termina».

Aí podemos tomar contacto com um mapa bastante significativo revelador da importância da Freguesia de Santo Ildefonso no Ano de 1786: é um mapa demográfico que aqui reproduzimos:
               Nascimentos 
Falecimentos
Freguesias
Casam.
Meninos
Meninas
Total
Hom.
Mulh.
Total

102
712
676
1388
458
382
840
S. NICOLAU
35
75
87
162
68
31
99
VITÓRIA
38
79
70
149
69
42
111
STO. ILDEFONSO
128
258
228
486
188
235
423
CAMPANHÃ
18
39
47
86
24
29
53
MIRAGAIA
24
33
35
68
16
26
42
MASSARELOS
14
22
25
47
12
17
29
CEDOFEITA
35
55
63
118
53
31
84
S. MARINHA
50
84
90
174
86
99
185
S.CRISTÓVÃO
10
32
26
58
15
23
38
TOTAL
454
1389
1347
2736
989
915
1904

Eram, pois em 1787, dez as freguesias do Porto. Delas, a envergadura maior era já a de Santo Ildefonso.

Depois disso foi alterado o espectro das freguesias portuenses, sempre de uma forma algo confusa. E de tal forma que os limites delas foram de uma maneira ou doutra sempre postas em causa, com toda a série de inconvenientes daí decorrentes, tendo em vista a necessidade de fazer avançar a cidade no campo do progresso o qual acabava por se estrangular nesta ou naquela circunstância nomeadamente no respeitante ao desenvolvimento urbanístico da cidade. Daí ter surgido, com data de 8 de Fevereiro de 1956 um Decreto proveniente do então Ministério do Interior, da Direcção-Geral de Administração Política e Civil. Assinado por Francisco Higino Craveiro Lopes (Presidente da República), António de Oliveira Salazar (Presidente do Conselho de Ministros) e por Joaquim Trigo de Negreiros (Ministro do Interior) e com o número 40 526 o Decreto foi publicado nesse dia no então «Diário do Governo» (1 Série - Número 30) e estabelecia a nova delimitação das freguesias do concelho do Porto. Em preâmbulo. acentuava-se:
  • Desde há muito se suscitam dúvidas quanto aos limites de algumas das freguesias do concelho do Porto, as quais se foram agravando à medida que se verificou o desenvolvimento urbanístico da cidade.
  • Considerando que é urgente por termo às mencionadas dúvidas e que a delimitação rigorosa das freguesias se torna também necessária para poder vir a encarar-se o problema do reconhecimento legal da existência de novos núcleos diferenciados, pela criação de freguesias correspondentes;
  • Tendo em vista os estudos a que procederam os serviços da Câmara Municipal do Porto e os pareceres emitidos pela Junta de Província do Douro Litoral e pelo governador civil do Porto;
O Decreto tinha artigo único e citava as seguintes freguesias:
Aldoar, Bonfim, Campanhâ, Cedofeita, Foz do Douro, Lordelo do Ouro, Massarelos, Miragaia, Nevogilde, Paranhos, Ramalde, São Nicolau, Santo Ildefonso, Sé, e Vitória.
No que a Santo Ildefonso diz respeito, o texto da sua delimitação era o seguinte:
Santo Ildefonso - Com início na Avenida de Rodrigues de Freitas, no cruzamento com a Rua de S. Vitor (vértice comum às três freguesias: Santo Ildefonso, Bonfim e Sé), segue pela Rua de D. João IV até à Rua da Firmeza, Rua da Firmeza, para poente, até à Rua da Alegria, Rua da Alegria, para norte, até à Rua da Escola Normal. Rua da Escola Normal, Rua de Santa Catarina para norte, arruamento nascente da Praça do Marquês de Pombal. Rua da Constituição, para poente, até à Rua de S. Brás e por esta rua, para sul, até à Rua do Paraíso, Rua da Regeneração, arruamento nascente da Praça da República. Rua do Almada até à Rua de Ricardo Jorge, onde fica o vértice comum às três freguesias: Cedofeita, Santo Ildefonso e Vitória. Rua do Almada, para sul, até à Rua dos Clérigos, onde fica o vértice comum às três freguesias: Vitória, Santo Ildefonso e Sé, seguindo, para nascente, pelo arruamento sul da Praça da Liberdade. Praça de Almeida Garrett, Rua da Madeira até à Praça da Batalha e deste ponto até à parede divisória dos prédios n.os 19 e 20 da Praça da Batalha e daqui, contornando a propriedade do Teatro Águia de Ouro, até junto ao cunha sudoeste do prédio n.1 da Rua de Entreparedes. Rua de Entreparedes, para nordeste, e Avenida de Rodrigues de Freitas até à Rua de S. Vitor.
Grosso modo, essa limitação vigora nos nossos dias, com algumas excepções pontuais relativas a pequenas alterações na estrutura da rede citadina, motivada pelo aparecimento de novos prédios e novas artérias, desaparecimento de outras, substituição de traçados.
De qualquer forma, aqui ficam as artérias da área a que este Decreto se refere:
Avenidas: Aliados e Rodrigues de Freitas (n.250 ao 370, pares).

Becos: Pedregulho e S. Marçal. 
Largos: Fontinha, Padrão (n.8 ao 20 e do n.313 ao 321),Ramadinha e Dr. Tito Fontes.
Passeios: São Lázaro. Pátios: Bolhão e Bonjardim. 
Praças: Batalha (n.1 ao 19 e do n.117, até ao fim), D. João 1, General Humberto Delgado, Liberdade (n.0 40 ao 142, pares e ímpares), Marquês do Pombal (n.1 ao 205, ímpares), Poveiros, República (n.138 a 210, pares e ímpares) e Trindade.
Ruas: Alegria (n.2 ao 296 e do n.1 a 417 até à Escola Normal), Alexandre,Braga, Alferes Malheiro, Almada (n.0 2 ao 614, pares e até ao Palacete dos Pestanas), Dr. Alfredo Magalhâes, Alto da Fontinha, Dr. Alves da Veiga,   António Pedro, António Sardinha, Dr. Artur de Magalhâes Bastos, Ateneu Comercial do Porto, Bela da Fontinha, Bolhão, Bonjardim, Camões, Campinho, Carvalheiras, Clube dos Fenianos,Constituição (n.545 ao 913, ímpares), D. João IV (n.1 ao 493, ímpares), Elísio de Meio, Entreparedes (n.1 ao 63, ímpares), Escola Normal (n.1 ao 61, ímpares), Estêvão, Fábrica Social, Faria Guimarães (n.2 ao 550 e do n.1 ao 551), Fernandes Tomás (n.288 e 335, até ao fim), Firmeza (n.93 e 358, até ao fim), Fonseca Cardoso, Fontinha, Formosa (todos os números, excepto os n.0s 2 ao 6, pares),Gonçalo Cristóvão, Guedes de Azevedo, Guilherme da Costa Carvalho, Ramalho Ortigão, Heróis e dos Mártires de Angola, João de Oliveira Ramos, João Pedro Ribeiro, João das Regras, Madeira (n.2 a 246, pares), Dr. Magalhães Lemos, Moreira de Assunção, Musas, Olivença, Paraíso, Passos Manuel, Raul Dória, Regeneração (n.0 1 ao 146, pares e ímpares), Régulo Magauanha, Dr. Ricardo Jorge (n.2 a 36 e n.3 a 23), Rodrigues Sampaio, São Brás (n.2 ao 606, pares), Sá da Bandeira, Sampaio Bruno, Santa Catarina (n.1 ao 1787 e do n.2 ao 966), Santa Helena, Santo André, Santo António, Santo Ildefonso (n.1 ao 311 e do n.2 ao 320) e Trindade. 
Travessas: Alferes Malheiro, Almas, Antero de Quental (n.2 ao 218 e do n.1 ao 259), Bonjardim, Campos, Congregados, Fontinha, da Rua Formosa, Liceiras, Regeneração, São Brás (do n.1 ao 47 e do n.2 ao 46), São Marcos, Sá da Bandeira e Senhora da Conceição.

Esta relação, mais ou menos exaustiva, serve para demonstrar a extensão desta freguesia do Porto, de que é sede de numerosas instituições:
  • Corpos Consulares (da Austria, Brasil, Bolívia, Coreia do Sul, Costa Rica, Equador, Espanha, França, Finlândia, Perú, Paraguai e Egipto).
  • Institutos: (Instituto Espanhol de Cultura),
  • Região Militar Norte, e vários organismos oficiais, impossível de aqui referenciar na totalidade,
  • Orgãos de Comunicação Social («O Comércio do Porto», «Jornal de Noticias», «O Primeiro de Janeiro», Noticias da Tarde», Noticias de Portugal» (delegação), RadioTelevisão Portuguesa (Conselho de Gerência - Norte), Rádio Renascença e ainda as seguintes Delegações de Jornais de Lisboa: «O Dia», «Diário de Notícias», «Diário de Lisboa», «A Capital», «O Jornal», e « Expresso».