19.11.07

Largo da LAPA

lapa

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Portão do Cemitério da Lapa


Sobre o Largo da Lapa:

Parece que, por medos do século XVIII, no Monte de Germalde, ou de Santo Ovídio, então arrabalde da cidade, havia uma fonte, sob a invocação de nossa Senhora da Lapa, a que alguns vizinhos prestavam culto. Em Dezembro de 1754 chegou ao Porto o Pde. Ângelo de Siqueira, missionário brasileiro cónego da Sé de S. Paulo, grande devoto e propagador da veneração da Mãe de Deus sob aquela invocação. E segundo refere a tradição entrou na cidade sob violentíssimo temporal, que teria amainado graças aos seus sermões de apostolado. E assim se afervorou o culto de Nossa Senhora da Lapa, promovendo o Padre Ângelo, com o auxilio de clero, nobreza e povo a construção de um seminário e de uma capela no local onde existia a fonte - para o que obteve licença da Mitra e em 29 de Dezembro desse mesmo ano de 1754 a cedência pela Câmara de um terreno no lugar do Padrão Velho de Santo Ovídio... (Toponímia Portuense de Andrea da Cunha e Freitas)

Sobre o Cemitério da Lapa:

Em 1833, o Cerco do Porto gerou uma situação extremamente difícil de salubridade na cidade e favoreceu o surgimento duma epidemia muito mortífera: o cholera morbus. Esta rapidamente lotou os locais de enterramento, facto agravado pelos soldados que iam morrendo nas investidas dos Miguelistas. Perante este cenário, foi necessário recorrer ao chão de algumas igrejas que nem sequer estavam totalmente construídas (como a da Trindade) e aos terrenos anexos de outras, para sepultar tantos cadáveres.

Nesse ano, a Mesa da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa pediu a D. Pedro IV que autorizasse a construção de um cemitério privativo. A Mesa poderia ter em mente um mero terreno anexo temporário para sepulturas. Mas todo o processo de construção do posterior Cemitério da Lapa parece mostrar que, já em 1833, a Irmandade da Lapa pretendia um cemitério "ao moderno". Ou seja, convenientemente murado, enobrecido com portal, com locais próprios para a construção de monumentos, tal como se fazia já há algumas décadas em Paris, cidade modelo para quase tudo na época. Por isso, o Cemitério da Lapa é considerado o cemitério "moderno" mais antigo do Porto, mesmo não sendo público, até porque foi criado antes do decreto de 1835. Contudo, como situação de transição, foi necessário estabelecer um cemitério interino, por detrás da capela-mor da respectiva igreja. O Cemitério da Lapa propriamente dito só foi oficialmente benzido no Verão de 1838, tendo os primeiros monumentos surgido em 1839.
Neste cemitério foram sepultados, entre outras figuras portuenses de vulto, Camilo Castelo Branco e António Augusto Soares dos Passos.


16.11.07

Rua do CAMPO ALEGRE


Esta rua já teve o nome de Rua de Santo Amaro. É assim que se denominava no Roteiro de 1933. Tem o nome actual desde 1949.



Da origem do nome:

A Quinta do Campo Alegre que por fins do século XVIII parece se chamava Quinta Grande, nos primeiros anos da Centúria seguinte pertencia ao francês João Pedro Salambert tendo-lhe sido confiscada pelo Fisco Real e Juízo da Inconfidência em consequência das Invasões francesas...(Toponímia Portuense de Eugénio Andrea da Cunha e Freitas)



Junta de Freguesia de Massarelos



O edifício do nº 390 desta rua, na esquina da rua Gonçalo Sampaio, actualmente ocupado pela companhia de seguros Axa foi projectado pelos arquitectos José Pulido Valente, Nicolau Brandão e Ricardo Figueiredo em 1970, a obra ficou concluída em 1982.

A Residência Universitária no número 1395 desta artéria foi projectada em 1988 pelo arquitecto Noé Diniz e concluída em 2000!   



12.11.07

Rua MIGUEL TORGA

torga

Uma rua sem saída, quase um beco, num sítio longínquo e perdido da cidade, talvez pelo seu "bucolismo" lhe tenha sido dado o nome do poeta que nasceu em S. Martinho de Anta - saloíces de tecnocratas urbanos!

Sobre a obra de Miguel Torga:

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, nasceu em 1907 em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes, e faleceu em 17 de Janeiro de 1995 em Coimbra. Emigrou para o Brasil ainda jovem e, quando regressou em 1925, matriculou-se na Universidade de Coimbra onde se formou em Medicina. Esteve de início literariamente próximo do grupo da Presença, sediado em Coimbra. Por volta de 1930, estava já afastado do grupo, fundando a revista Sinal. Funda pouco depois a revista Manisfesto. Começou a ser conhecido como poeta, tendo mais tarde ganho notoriedade com os seus contos ruralistas e os seus dezasseis volumes de Diário, estes publicados entre 1941-1995. Várias vezes nomeado para o Prémio Nobel da Literatura, tornou-se um dos mais conhecidos autores portugueses do século XX.
Obras:
POESIA: Ansiedade (1928), Rampa (1930), Tributo (1931), Abismo (1932), O outro Livro de Job (1936), Lamentações (1943), Libertação (1944), Odes (1946), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Alguns Poemas Ibéricos (1952), Penas do Purgatório (1954), Orfeu Rebelde (1958), Câmara Ardente (1962), Poemas Ibéricos (1965).
FICÇÃO: Pão Ázimo (1931), A Terceira Voz (1934), A Criação do Mundo (5 volumes, 1937-1938-1939- 1974-1980), Os Bichos (contos, 1940), Contos da Montanha (1941), Rua (1942), O Senhor Ventura (1943), Novos Contos da Montanha (1944), Vindima (romance, 1945), Pedras Lavradas (contos, 1951).
LITERATURA AUTOBIOGRÁFICA: Diário (16 volumes, 1941-1995), Portugal (1950).

Outras páginas sobre o autor:

  • Torga e as vicissitudes de uma experiência de leitura
  • Algumas considerações sobre Portugal de Miguel Torga
  • A metamorfose em Vitorino Nemésio e Miguel Torga
  • Trás-os-Montes: um paraíso perdido e reencontrado por Torga
  • Este Marão que eu sou: uma procura, através da escrita de Miguel Torga, da imagem e da identidade de Portugal

  • Publicado aqui: Projecto Vercial

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    QUANDO TUDO ACONTECEU

    1907: Nasce Adolfo Correia da Rocha em S. Martinho de Anta (distrito de Vila Real). - 1920: Emigra para o Brasil. - 1925: Regressa do Brasil. - 1927: Fundação da "Presença" em que colabora desde o começo. - 1928: Ingressa na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; Ansiedade, primeiro livro, poesia. - 1930: Deixa a "Presença". - 1931: Pão Ázimo, primeiro livro em prosa. - 1933: Formatura em Medicina. - 1934: A Terceira Voz, prosa; passa a usar o pseudónimo Miguel Torga. - 1936: O outro livro de Job, poesia. - 1937: A Criação do Mundo - Os dois primeiros dias. - 1939: Abertura do consultório médico, em Coimbra. - 1940: Os Bichos. - 1941: Primeiro volume do Diário; Contos da Montanha, que será reeditado no Rio de Janeiro; Terra firme, Mar, primeira obra de teatro. - 1944: Novos Contos da Montanha; Libertação (poesia). - 1945: Vindima, o primeiro romance. - 1947: Sinfonia (teatro). - 1950: Cântico do Homem (poesia); Portugal. - 1954: Penas do Purgatório (poesia) - 1958: Orfeu Rebelde, poesia. - 1965: Poemas Ibéricos. - 1981: Último volume de A Criação do Mundo. - 1993: Último volume do Diário (XVI). - 1995: Morre Adolfo Correia da Rocha.

    O HOMEM E AS ORIGENS







    Adolfo Correia da Rocha, que será conhecido por Miguel Torga, nasce em 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho da Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes. Filho de gente do campo, não mais se desliga das origens, da família, do meio rural e da natureza que o circunda. Mesmo quando não referidos, estão sempre presentes o Pai, a Mãe, o professor primário Sr. Botelho, as fragas, as serranias, a magreza da terra, o suor para dela arrancar o pão, os próprios monumentos megalíticos em que a região é pródiga.
    Entra no Seminário, donde sai pouco depois.
    Emigra para o Brasil em 1920. Trabalha na fazenda do tio, é a dureza da "capinagem" do café. O tio apercebe-se das suas qualidades. Paga-lhe ingresso e estudos no liceu de Leopoldina, onde os professores notam as suas capacidades.
    Regressa a Portugal em 1925. Entra da Faculdade de Medicina de Coimbra. Participa moderadamente na boémia coimbrã. Ainda estudante publica os seus primeiros livros. Com ajuda financeira do tio brasileiro conclui a formatura em 1933.
    A família é um dos pontos fulcrais da sua vida. O pai, com quem a comunicação se faz quase sem necessidade de palavras, é um dos fortes esteios da sua ternura, amor e respeito. Cortei o cabelo ao meu pai e fiz-lhe a barba.(...) Foi sempre bonito, o velhote... Recorda os braços do pai pegando pela primeira vez na neta, recém nascida. O mesmo amor em poemas dedicados à mãe. Por sua mulher e filha um afecto profundo, também.
    Uma parcela de arrogância, um certo distanciamento dos homens, timidez comum aos homens vindos dos meios humildes:
    Nem sempre escrevi que sou intransigente, duro, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. (...) Nem sempre admiti que estava irritado com este camarada e aquele amigo. (...) A desgraça é que não me deixam estar só, pensar só, sentir só.
    O desejo de perfeição absoluta e de verdade:
    Que cada frase em vez de um habilidoso disfarce, fosse uma sedução (...) e um acto sem subterfúgios. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades.
    Não dá nada a ninguém, diz-se. Imensas consultas gratuitas como médico, desmentem a atoarda. Não dispõe de recursos folgados, confidencia a alguns amigos. Compreende-se: por motivos políticos, a sua mulher, Profª. Andrée Crabbé Rocha, é proibida de leccionar e, ao longo dos anos iniciais, altos são os custos editoriais do que publica...
    A ideia da morte e da solidão acompanham-no permanentemente. Desde criança mantêm-se presentes no corpo e no espírito. Dos vinte e cinco poemas insertos no último volume do Diário, cerca de metade evocam-nas. Não porque atinja já uma idade relativamente avançada ou sofra de doença incurável. Na casa dos quarenta e até antes, já o envolvem. Não se traduzem em medo, mas no sentido do limite. Criança ainda, uma noite, sozinho, (...) desamparado e perplexo, assiste à morte do avô. O que não será estranho à obsessão.
    No enterro de Afonso Duarte, ao fazer o elogio fúnebre afirma que a morte purifica os sentimentos.
    O homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós.
    Viajante incansável por todo o país e estrangeiro. Visita a China e a Índia já próximo dos oitenta anos. Pareço um doido a correr esta pátria e nem chego a saber por quê tanta peregrinação.
    Os monumentos entusiasmam-no. Os Jerónimos, a Batalha e Alcobaça têm sentido na Alma da nação. Mafra é uma estupidez que justifica uma punição aos reis doiros que fizeram construir o convento. Os monumentos paleolíticos fascinam-no.
    Sou uma encruzilhadas de duas naturezas. De variadíssimas, dirá quem bem o conhece...
    Morre em 17 de Janeiro de 1995. Enterrado em S. Martinho da Anta, junto dos pais e irmã."
    Pode continuar a ler este artigo aqui: "Vidas Lusófonas"

    Praça GONÇALVES ZARCO

    cavaleiro azul

    O Cavaleiro Azul

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    Quem foi João Gonçalves Zarco?

    "Seguiu desde muito novo a carreira marítima, e por mais de uma vez exerceu o comando das caravelas, que guardavam as costas do Algarve. Quando o infante D. Henrique se lançou no caminho das explorações marítimas, João Gonçalves Zarco foi o primeiro que se lhe ofereceu para o coadjuvar nesses empreendimentos. Aproveitando o oferecimento, o infante D. Henrique, em 1418, mandou preparar um barco, e entregando-o a João Gonçalves Zarco e a Tristão Vaz Teixeira, mandou-os ou demandar terras desconhecidas, ou procurar umas ilhas que já apareciam nos mapas, e a que teriam aportado 50 ou 60 anos antes outros navegadores portugueses. João Gonçalves Zarco chegou depois dalguns dias de viagem, à ilha que chamou de Porto Santo, voltando logo a Portugal a dar conta do resultado da sua expedição. O infante ficou satisfeitíssimo, e tratou logo de colonizar a ilha. Ordenou pois a João Gonçalves Zarco e a Trintão Vaz Teixeira que voltassem a Porto Santo, dando-lhes por companheiro outro criado da sua casa, chamado Bartolomeu Perestrelo. Foi nessa segunda viagem que descobriram ou demandaram a ilha da Madeira, saindo Tristão Vaz e Gonçalves Zarco do Porto Santo no dia 1 de Julho de 1419, e indo aportar à Madeira no ponto a que chamaram de S. Lourenço, por ser de S. Lourenço, também o nome do navio que os conduzia. Fizeram depois em torno da ilha uma viagem de circum-navegação, e foram pondo nomes aos diferentes acidentes da costa. Nessa viagem recebeu a principal baía da ilha o nome de Baía do Funchal, e uma grande lapa onde se escondiam muitos lobos que os viajantes caçaram, o nome de Câmara de Lobos, tomando desse sitio o próprio João Gonçalves Zarco e os seus descendentes o apelido de Câmara.
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    Voltando a Portugal, receberam os dois navegadores do infante o devido premio. Confirmou a João Gonçalves Zarco o apelido de Câmara, e deu-lhe por armas escudo em campo verde, e nele uma torre de menagem com cruz de ouro, e dois lobos-marinhos encostados à torre com paquife e folhagens vermelhas e verdes. e por timbre outro lobo-marinho sentado em cima do paquife. Além disso, dividindo a ilha em duas capitanias, fez mercê duma delas, a do Funchal, a João Gonçalves Zarco. Partiu este para a sua ilha, depois de ter casado com uma senhora por nome Constança Rodrigues de Almeida, e todo se entregou à colonização da sua maravilhosa propriedade. Não se esqueceu contudo dos seus deveres de cavaleiro, nem sobretudo da multa gratidão que devia ao infante D. Henrique, e, quando este quis tentar a expedição de Tanger, veio pôr-se à sua disposição. No cerco de Tanger foi armado cavaleiro pelo infante, e tendo escapado com vida a essa desastrosa expedição, tornou para a Madeira, onde, aproveitando as ricas maltas que existiam ali, fez construir alguns navios com que de vez em quando auxiliou o infante nas suas expedições de descobrimento para além do cabo Bojador. Diz-se que foi ele, mas não se sabe com que fundamento, o primeiro que pôs a artilharia a bordo. Esses instrumentos guerreiros eram então bem imperfeitos e de bem pouco serviam, mas, assim como eram, se alguém se lembrou de a pôr a bordo, foram de certo portugueses que precisavam bem de todos os meios de defesa que o génio humano lhes pudesse sugerir para se defenderem nas aventurosas expedições que tentavam contra desconhecidos perigos. Os navios de Gonçalo Zarco figuraram, como se disse, nos descobrimentos para além do cabo Bojador, e um sobrinho de Gonçalves Zarco, Álvaro Fernandes, foi um dos nossos descobridores mais felizes e audaciosos. João Gonçalves Zarco morreu na segunda metade do século XV, cheio de anos e de felicidades, deixando filhos que foram tronco de algumas das mais nobres famílias portuguesas. O ramo principal da sua casa é hoje representado pelos descendentes dos condes e marqueses da Ribeira Grande."

    Anteriormente este Largo teve o nome de Rotunda do Castelo do Queijo.

    10.11.07

    Rua da BOA NOVA



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    Capela do Senhor da Boa Nova na Rua D. Manuel II



    ...A rua da Boa Nova, já figura com esta designação na planta redonda de Black, de 1813. Deu nome à artéria a pequenina capela do Senhor Jesus da Boa Nova, felizmente ainda existente, na rua de D. Manuel II. Esta capela, erigiu-a a antiga confraria de S. José e S. Brás, de carpinteiros, escultores, enxambladores, violeiros e torneiros, no ano de 1782, no mesmo lugar onde, em 1628,o piloto-mor da carreira da Índia, Pantaleão Gomes, de Miragaia, mandara levantar um padrão em honra do Senhor Jesus de Bouças - padrão de que existem ainda vestígios....(Toponímia Portuense de Andrea da Cunha e Freitas)

    Observações
    Martinho Caldeira historiou tudo isto pormenorizadamente num curioso artigo publicado no boletim dos Amigos do Porto (1954).

    Ver igualmente o texto de Germano Silva que eu publiquei aqui:
    ruas da minha terra - Porto: Para onde foi o cruzeiro do Senhor da Boa Nova?


    7.11.07

    Para onde foi o cruzeiro do Senhor da Boa Nova?


    Palácio dos Monfalins antes da abertura da "Júlio Dinis"

    Chegou mais um recheado lote de cartas (fora as mensagens de correio electrónico) e com elas veio mais uma mão- cheia de perguntas, todas muito curiosas e pertinentes. Mas, por limitação de espaço, só a uma posso responder. E a escolha caiu na de um leitor que, conta ele, visitou há tempos a capela do Senhor da Boa Nova (defronte do Palácio de Cristal) à procura de um cruzeiro que, segundo julgava saber, por ali esteve erguido em tempos idos mas que não encontrou. Gostaria que o informassem acerca do sumiço que levou aquele "rústico padrão de fé" e desde quando é que o bispo do Porto deixou de residir no palacete dos condes de Terena.

    Vamos por partes. Primeiro, o cruzeiro não levou sumiço. Está guardado, e bem, no Museu de Arte Sacra e Arqueologia, instalado no edifício do Seminário Maior, à Sé, onde pode ser visitado dentro do horário normal de funcionamento do museu.

    À entrada da capela, ao nível do degrau superior da pequena escada exterior que dá acesso à porta principal, do lado da Rua da Boa Nova, ainda existe uma pedra com restos de uma inscrição já quase imperceptível que se julga ter pertencido ao referido padrão.

    O cruzeiro, da invocação do Senhor Bom Jesus de Bouças (Senhor de Matosinhos) foi mandado colocar no antigo Campo da Torre da Marca, em 1628, pelo piloto mor da Índia, Pantaleão Gomes, morador em Miragaia, como acto de agradecimento "por a imagem da cruz ter sido esperança e guia [daquele marinheiro] nas longas e perigosas viagens que fizera pelos temerosos mares do Oriente…"

    O amplo Campo da Torre da Marca compreendia uma área de mais de 17 mil metros quadrados compreendida entre as quintas do Sacramento e do Passadiço, a Poente; e a dos Sete Campos, a Nascente. Chamou-se sucessivamente Campo e Largo da Torre da Marca devido à existência, ao fundo da actual Avenida das Tílias do Palácio de Cristal, de uma marca ou baliza que servia de orientação aos navios que demandavam o rio Douro. Inicialmente, o que lá esteve a servir de guia aos marinheiros foi um enorme pinheiro, que um dia ardeu. No seu lugar e por iniciativa de um tal Jerónimo Brandão, almoxarife do rei, foi construída uma torre em pedra, "por ser muito necessária para bem da cidade e navios que pela barra dela entrassem…"

    Em 1835, a Vereação Municipal deliberou que ao Campo da Torre da Marca se desse o nome de Largo do Duque de Bragança, em homenagem a D. Pedro IV, que acabava de sair triunfante do terrível Cerco do Porto. A ideia, porém, não vingou porque o sítio continuou a ser para o geral da população o Campo da Torre da Marca. Em 1861, construiu-se nesse espaço o desaparecido Palácio de Cristal.

    Voltando aos cruzeiros, mais duas curiosidades com outros dois cruzeiros retirados da via pública mas, estes sim, para o interior de templos.

    Um era conhecido pelo "Senhor dos Peixeiros" e estava na Cordoaria, junto ao antigo Mercado do Peixe. Era muito venerado pelos vendedores de peixe, que todos os anos lhe faziam uma grande festa. A rústica imagem talhada no granito da região, nessas ocasiões festivas, era envolta em damascos e sedas, adornada com muitas flores e verduras e, durante a noite, ficava iluminada com velas e lamparinas. Ao seu redor havia arraial com música e outros divertimentos. Este cruzeiro foi um dia retirado do sítio onde estava e guardaram-no na capela das Almas de S. José das Taipas, que fica ali perto.

    Dizem que este cruzeiro, patrono dos peixeiros quando eles tinham banca na Cordoaria, um dos mais belos de quantos havia aí pela cidade, e eram muitos, quando acontece abrirem-se de par em par as portas da igreja das Taipas, ele espreita o largo defronte com saudade do tempo em que tinha ali uma ruidosa festa…

    O outro cruzeiro é o do Senhor do Padrão, da capela da invocação do mesmo nome, na Rua do Heroísmo. Em tempos muito distantes, no sítio onde agora está a capela, existiu um marco que servia para assinalar onde terminava a freguesia de Santo Ildefonso e começava a de Campanhã. Isto, claro, antes da existência da freguesia do Bonfim. No sítio da antiga marca foi depois erigido um cruzeiro da invocação do Senhor do Padrão que deu origem à capela da mesma invocação. Estes templos eram construídos, em regra, com esmolas dos fiéis para nelas se celebrarem missas e outros ofícios a que assistiam as populações que viviam longe das igrejas paroquiais. O cruzeiro está agora dentro da capela.

    Para onde foi o cruzeiro do Senhor da Boa Nova?

    O chamado Palácio da Torre da Marca pertenceu, em tempos idos, a três poderosas e influentes famílias portuenses os Brandões, a que andaram ligados Diogo e Fernão Brandão, poetas do Cancioneiro; os condes e marqueses de Terena; e os primeiros e únicos marqueses de Monfalim, que morreram sem descendência. No brasão ainda existente na fachada do nobre edifício estão representadas, exactamente, as armas dessas três famílias. Foram os herdeiros dos Monfalins que venderam o imóvel à Diocese do Porto. No edifício funcionou um colégio, esteve instalado o Asilo Profissional do Terço, antes de se transferir para as suas actuais instalações na Praça do Marquês de Pombal e, a partir de 1910, com o surgimento da Lei da Separação e a ocupação, pelo Estado, do antigo Paço Episcopal, junto à Sé, o antigo Palácio da Torre da Marca serviu de residência aos bispos do Porto. Foi nos terrenos da quinta anexa a este palácio, já na posse da Mitra, que em 1934 se começou a rasgar a Rua de Júlio Dinis para estabelecimento, rápido e cómodo, da Rotunda da Boavista com o desaparecido Palácio de Cristal onde por essa altura se instalou a Exposição Colonial Portuguesa.

    Texto de Germano Silva publicado no Jornal de Notícias


    6.11.07

    Rua de MIRAGAIA

    Tomás Gonzaga

    Foto publicada e localizada aqui

    Tomás Antônio Gonzaga, nasceu na cidade do Porto (Portugal) em 1744 e faleceu em Moçambique, em 1819. Fez os estudos primários no Colégio dos Jesuítas, em Salvador (BA), e formou-se em Direito na Universidade de Coimbra (Portugal) em 1768. Na universidade, conviveu com o poeta com Alvarenga Peixoto.

    Exerceu a Magistratura em Beja (Portugal) de 1779 a 1781. De volta ao Brasil, passou a viver em Vila Rica [Ouro Preto] MG, onde conviveu com intelectuais e poetas, entre os quais Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa e Cônego Luís Vieira. Envolveu-se em várias desavenças com as autoridades locais, incluindo Francisco Gregório Pires Monteiro Bandeira, intendente do ouro na junta da Real Fazenda de Minas Gerais. É o provável autor de Cartas Chilenas, poemas epistolares satíricos, de oposição ao governador Luís da Cunha Meneses, que circularam em manuscritos anônimos na cidade, em 1786.

    Em 1792 foi publicada a primeira parte de sua obra poética Marília de Dirceu, em Lisboa (Portugal). Participou na Inconfidência Mineira, em 1789, o que lhe custou a prisão e, posteriormente, o degredo em Moçambique. Tomás Antonio Gonzaga é um dos principais poetas árcades do Brasil. Para o crítico Antonio Candido, "com Tomás Antônio Gonzaga (...) o Arcadismo encontrou no Brasil a mais alta expressão. Na sua obra há um aspecto de erotismo frívolo, expresso principalmente nas poesias de metro curto, anacreônticas em grande parte, celebrando a namorada, depois noiva, sob o nome pastoral de Marília. Mas ela vale sobretudo pelas de metro longo, voltadas para a expressão lírica da sua própria personalidade. Nelas, com admirável simplicidade e nobreza, traça um roteiro das suas preocupações, da sua visão do mundo e, depois de preso, do seu otimismo estóico. ".

    Artigo publicado aqui.

    Também já foram publicados textos sobre a Rua Tomáz Gonzaga e sobre a Freguesia de Miragaia neste Blogue.