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9.10.17

Jardim Dr. Francisco Sá Carneiro

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Escultura de Gustavo Bastos. 

A praça onde se situa este jardim também é conhecida por Praça Velasques.




25.6.15

Rua António Cândido

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Quem era este António Cândido?

A (antiga) Página da Toponímia da autarquia dizia:

"António Cândido Ribeiro da Costa. Orador e político. Considerado o maior parlamentar do seu tempo nasceu em Candemil, no concelho de Amarante, a 30 de Março de 1852, e aí morreu, a 24 de Outubro de 1922 . ( Arquivo da Toponímia )"

Mas também aqui mostro o que está publicado em Portugal – Dicionário Histórico

"Ribeiro da Costa (António Cândido).
n.    30 de Março de 1852. 
f.     

Doutor em Direito pela Universidade de Coimbra e lente catedrático da mesma faculdade, deputado, par do reino, conselheiro de Estado, ministro de Estado, procurador geral da coroa, sócio efectivo da Academia Real das Ciências, etc. 

N. em Candomil, concelho de Amarante, a 30 de Março de 1852. 

Matriculou-se no 1.° ano de Direito em 1871, fazendo um curso brilhante, alcançando as primeiras distinções, doutorando-se em 21 de Julho de 1878. Seguiu também o curso de Teologia com distinção. Consagrando-se ao magistério, foi nomeado lente catedrático em 29 de Dezembro de 1881. Leccionou com rara proficiência científica, tornando-se notáveis as suas prelecções. Vindo para Lisboa, entrou na política, filiando-se no partido progressista, que tinha por chefe Anselmo José Braamcamp, de quem era amigo íntimo. 

Foi eleito deputado em sucessivas legislaturas, representando círculos importantes, entre os quais se contava o de Aveiro. A primeira vez que a sua palavra se fez ouvir na câmara, causou o maior assombro e deslumbramento. Celebraram-lhe o admirável discurso, não somente os grandes jornalistas do seu partido, como os mais temidos adversários políticos.

Diz um dos seus biógrafos, nos Perfis contemporâneos, pág. 74: 
«Entrado no parlamento, sob o peso de enormes responsabilidades, postos nele os olhos do país, rodeado das esperanças dos seus amigos e assediado já pelas invejas, quis uma série complicada de incidentes que a sua estreia parlamentar, anunciada dia a dia, não pudesse efectuar-se senão depois de esperada por longo prazo, cheias as galerias da sala pela enorme multidão que afluíra pela noticia do seu discurso, a regurgitar o recinto dos jornalistas, o qual era então quase uma lioneira de feras contra o governo, e a tribuna diplomática a desbordar. Falava Dias Ferreira. António Cândido pediu a palavra. Inesperadamente, por um preito de admiração, que só honra o espírito do ilustre jurisconsulto e estadista, mas que foi então, por muitos, interpretado como um processo insidioso para embaraçar o novo parlamentar, depois de engrandecer em palavras quentes e fervorosas os talentos de António Cândido, e descrever a ansiedade com que era esperado o seu discurso naquela sala onde deixara de ressoar a voz de José Estêvão, Dias Ferreira interrompeu a sua oração. António Cândido pareceu, durante essas palavras, que sucumbia numa síncope, tal era a palidez do seu rosto, o descorado dos seus lábios, a tremura das suas mãos. Pois mal se ergueu, transfigurou-se. Como que uma augusta e calma serenidade lhe transluzia do olhar, da gentilíssima cabeça, e as primeiras palavras, na sua cadência dominadora e doce, empolgaram logo, venceram, todo o auditório. As pouquíssimas frases, a sermo corporis, na frase dum grande escritor, a linguagem do corpo que não é toda a eloquência, mas sem a qual não há eloquência, exercia o seu influxo poderoso. Que assombro e colossal triunfo! Velhos parlamentares, duros e afeitos aos violentos combates da câmara, enterneceram-se até às lágrimas ao apertá-lo nos braços. Nos corredores, nas escadas, muitos que o não conheciam, saudavam-no com entusiasmo A oposição, pela voz do Sr. Hintze Ribeiro, declarou, como um preito de homenagem, cerrar sobre este discurso o debate, em que estavam ainda inscritos alguns dos mais notáveis oradores.» 
Desde então a sua vida parlamentar foi uma série de vitórias. Era um dos lutadores mais fervorosos e mais apaixonados do partido progressista, mas abandonou-o em 1888, pouco mais ou menos, por discordar da marcha que a sua política havia levado, e recusando a sua cadeira no parlamento. Entregou-se então ao serviço do seu emprego de ajudante do Procurador-geral da coroa, para que havia sido anteriormente nomeado, conservando-se então afastado da política. Datam desse período alguns dos seus mais importantes discursos literários. Foi então que na Academia Real das Ciências, a que depois presidiu, proferiu o Elogio Histórico do rei D. Luís, falecido em Outubro de 1889, esculpindo com amor o perfil do monarca, dedicando à sua memória uma das suas mais belas e eloquentes homenagens. Publicou por esta época, o seu primeiro livro, Discursos e Conferencias, onde reuniu o que andava disperso no Diário das Câmaras e em outras publicações literárias. 

Em 1890 reconciliou-se com o seu partido, e quando nesse ano caiu o ministério regenerador, que já havia sucedido a outros de pouca estabilidade, por causa do conflito com a Inglaterra, consequências do ultimato de 11 de Janeiro, organizou-se em Outubro um gabinete presidido pelo velho parlamentar, o general João Crisóstomo de Abreu e Sousa e o Sr. António Cândido foi nomeado ministro do reino, encarregando-se também, interinamente, da pasta da Instrução Pública e Belas Artes. Este ministério durou apenas 10 meses, podendo dizer-se, que naquela conjuntura em que seria difícil sustentar-se qualquer gabinete, como acontecera aos anteriores, foi o Sr. António Cândido, politicamente, a alma desse ministério. A sua obra de pacificação, interpondo-se às ambições e aos rancores partidários, mantendo-se entre os dois grandes grupos monárquicos, regeneradores e progressistas, permitindo que se olhasse serenamente às crises a que urgia acudir, essa obra, devida à ponderação do seu espírito e à autoridade moral do seu carácter, à confiança que a todos merecia, não teve, pela sua natureza de trabalho lento e íntimo, os fulgores que deslumbram, mas representa enorme serviço ao país e à monarquia. Quando rebentou a revolta republicana do Porto, em 31 de Janeiro de 1891, o Sr. António Cândido, então ministro, foi quem fez a liquidação dessa revolta, preparada desde muito tempo. Com energia e firmeza, sem sobressaltos, não ouvindo vozes que lhe falavam a linguagem do ódio nem se atemorizando com os gritos aterradores, procedeu serenamente ao apuramento de responsabilidades. Ao deixar de ser ministro estava extinto o pânico que passara nas regiões da política, e a ordem inteiramente restabelecida. O Sr. António Cândido Ribeiro da Costa foi nomeado par do reino em 1 de Junho de 1891, e em Março de 1902, conselheiro de Estado. Em Coimbra, no seu tempo de estudante, também se distinguiu como orador sagrado, e nas suas conferências, escutadas sempre com entusiasmo. "


Notas:

1. A sua data de nascimento não corresponde entre as 
diversas publicações que encontrámos na Internet.

2. No Dicionário Histórico a data do seu falecimento não aparece pois a edição em papel deste terminou no ano de 1915.

3. Não percebo porque foi dado o nome dele a uma artéria na cidade onde nasceu o 31 de Janeiro 1891 visto o papel repressivo que ele assumiu. Revanchismo? Provocação?



11.12.14

Jardim Paulo Vallada

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Nota biográfica publicada originalmente em:

Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto



"António Guilherme Paulo Vallada nasceu no Porto em 1924, no seio de uma família burguesa. No ano lectivo de 1946-1947 matriculou-se no Curso de Engenharia Civil, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Terminou a licenciatura em 1949, com a classificação de 13 valores. Em 1950 partiu para Itália, onde frequentou um curso de pós-graduação no Instituto Politécnico de Milão.

Nos anos cinquenta iniciou a sua actividade profissional em África. Entre 1950 e 1958 trabalhou como engenheiro e construtor, em Moçambique. Criou e administrou empresas de construção civil e obras públicas (Caminho-de-ferro de Limpopo, o Liceu de António Enes, etc.) e metalomecânicas.

Nos anos 60 alargou a sua actividade a Angola e ao Brasil, essencialmente na área da construção civil.

Dos anos 70 e até ao fim da sua vida, administrou a sua empresa na Areosa, localizada junto à Estrada da Circunvalação, no Porto. Essa empresa havia sido comprada à família de Manuel Pinto de Azevedo, figura que muito admirava, e que veio a ser o primeiro "ninho de empresas" de Portugal, forma de incentivo à actividade empresarial moderna. Naquele período, assumiu também o cargo de administrador do Complexo do Cachão, no decurso do II Governo Provisório (1974).


A par da sua actividade profissional, exerceu uma reconhecida acção social e cultural em prol do Porto. Foi presidente da Direcção do Círculo de Cultura Teatral (T. E. P.), secretário regional da SEDES (Associação para o Desenvolvimento Económico e Social), entre 1972 e 1974, fundador da CNAE (Conselho Nacional das Associações Empresariais) e da APGE (Associação Portuguesa de Gestão de Empresas) e presidente da Associação Comercial do Porto (1979-1983).

Eleito presidente da Câmara Municipal do Porto em 1982, numa lista da Aliança Democrática, foi capaz de gerar consensos na Vereação e de realizar uma obra importante para a cidade. Durante os três anos da sua presidência, destacam-se as seguintes iniciativas: as recuperações do Mercado Ferreira Borges, com o apoio do jornal O Comércio do Porto, e do Monumento ao Esforço Colonizador, projectado por Sousa Caldas e por Alferes Alberto Ponce de Castro, em 1934, e colocado na Praça do Império; a transferência das captações de águas de Zebreiros para Lever; o primeiro empréstimo obrigacionista de natureza autárquica, que fez escola; a resolução da questão da revisão do Plano Director da Cidade do Porto, transformado em Plano Director Municipal, sob a direcção do arquitecto Duarte Castel-Branco; a criação do Centro Regional de Artes Tradicionais; a colocação do conhecido Cubo da Ribeira, do mestre José Rodrigues, no centro histórico do Porto; a realização da Conferência Internacional Os Portugueses e o Mundo (Junho de 1985). Após o cumprimento do mandato, aceitou um lugar na lista do PSD concorrente à Assembleia Municipal do Porto para o mandato de 1989-93.


A sua intervenção pública no Porto não se limitou à actividade política na edilidade. Ajudou a revitalizar velhas instituições como a Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos, no âmbito da qual trouxe ao Douro, em 1993, a Regata do Infante, no contexto das comemorações do 5º Centenário das Descoberta da América. Impulsionou o início da conversão da Quinta de Serralves no Museu de Arte Contemporânea. Integrou a comitiva da Cooperativa Árvore presente nas derradeiras comemorações do 10 de Junho em Macau. Fundou e presidiu a Fundação da Juventude, na qual se instituiu uma Comunidade de Inserção com o seu nome. E participou nas Comemorações do 6º Centenário do Nascimento do Infante D. Henrique.

Esta figura carismática do Porto, reconhecida pela forte intervenção cívica e vasta cultura, morreu em Junho de 2006. Foi a enterrar a 5 desse mês, no cemitério de Agramonte, em Paranhos (*). Na missa de corpo presente realizada na Igreja do Corpo Santo juntaram-se inúmeros portuenses, anónimos e ilustres, que lhe quiseram prestar uma última homenagem. A urna funerária estava coberta pela bandeira da Associação Comercial do Porto." 
(Universidade Digital / Gestão de Informação, 2008)

(*) - Nota do editor do blogue: Como os portuenses sabem bem o Cemitério de Agramonte não se situa na freguesia de Paranhos.



3.12.14

Rua Sampaio Bruno

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Breve biografia de Sampaio Bruno

"Jornalista, escritor e político, José Pereira de Sampaio Bruno nasceu em 1857, no Porto, e aí morreu em 1915. Foi um autor extremamente versátil, produzindo uma vastíssima obra de cariz político, religioso e filosófico, e versando temas como o problema da evolução das sociedades humanas, a teoria da ciência e do conhecimento e a ideia de Deus.

Oriundo de uma família da pequena burguesia, filho de pai mação, iniciou a sua atividade jornalística aos 14 anos, adotando nessa altura o pseudónimo Bruno (em homenagem ao renascentista Giordano Bruno), ao qual permaneceria fiel durante toda a vida. Aos 17 anos publicou o seu primeiro livro, intitulado Análise da Crença Cristã, que suscitou uma onda de revolta e polémica no seio da conservadora sociedade portuguesa de então, devido às ideias polémicas nele expressas, colhidas em Voltaire, Amorim Viana, Feuerbach e Büchner. 

Fez os estudos preparatórios para Medicina no Instituto Politécnico do Porto, mas não prosseguiu os estudos oficiais, sendo, todavia, um notabilíssimo autodidata e erudito.

Foi um acérrimo propagandista da República e toda a sua obra teve na cultura portuguesa uma forte influência. Com José de Alpoim, Júlio de Matos, Basílio Teles, Manuel Teixeira Gomes, compartilha os problemas da conjuntura política do seu tempo. Em conjunto constituem e frequentam tertúlias onde os seus espíritos de republicanos ficam cada vez mais enaltecidos.

Em 1886, coligiu uma série de ensaios sobre os modernos novelistas portugueses no volume A Geração Nova. Após o malogro do movimento revolucionário do 31 de janeiro de 1891, em que esteve implicado, foi obrigado a exilar-se no estrangeiro, viajando pela Espanha, França e Holanda. Esta experiência do exílio (escrita em Notas do Exílio, 1893) viria a acentuar as suas inquietações, conduzindo-o a uma crise pessoal e religiosa, no decurso da qual se lhe revelaria Deus (A Ideia de Deus, 1902). 

A obra bruniana apresenta-se como uma ilustração do lema "liberdade, igualdade e fraternidade", desde sempre professado pelo autor, que este fazia corresponder, no plano político, à ideia da República, mas que extrapola esse nível, revestindo-se, sobretudo a partir da crise do exílio, como bem salientou Joel Serrão, de "um significado recôndito, místico, esotérico" ("Introdução" in Os Cavaleiros do Amor), que encontra no messianismo e no sebastianismo uma possibilidade de revelação (O Encoberto, 1904). Bruno aspirou a fundar uma teoria do conhecimento total, que operasse a síntese entre a filosofia racional e o conhecimento místico e fosse subjacente a todas as correntes místicas, filosóficas e científicas, num processo dialético e contínuo: "Não mutilar, mercê do erro simétrico, a nossa alma, não a truncar - a título de a depurar. Avançar lentamente nessa estrada humana e clara, provisoriamente, em conflito de afirmação contra negação, até que acordos, provisórios igualmente, se sucedem. Quer dizer, desta arte firmar a filosofia ao mesmo tempo na natureza e na razão." (in O Brasil Mental, 1898)."










6.10.14

Rua José da Silva Passos

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José da Silva Passos era irmão de Passos Manuel, até parece evidente pois também era conhecido por Passos José.

Nasceu em Guifões no dia 18 de Novembro de 1800 e faleceu no Porto na Viela da Neta, no Porto, a 12 de Novembro de 1863.


Breve biografia que pode ser encontrada aqui:

« Bacharel formado em Leis e em Cânones pela Universidade de Coimbra, sub-secretário de estado dos negócios da fazenda, deputado em diversas legislaturas, sub-inspector do tesouro publico, vice-presidente da Junta do Porto, sócio honorário da Academia de Belas Artes, etc. N. na freguesia de S. Martinho de Guifões, concelho de Bouças, distrito do Porto, a 18 de Novembro de 1800, fal. no Porto a 12 de Novembro de 1863. Era filho de Manuel da Silva Passos, lavrador, e de sua mulher, D. Antónia Maria da Silva Passos.

Com seu irmão Manuel da Silva Passos foi para Coimbra, matriculando-se na Universidade em 1817, recebendo o grau de bacharel nas faculdades acima citadas. Estavam os dois irmãos em Coimbra quando rebentou a revolução de 1820, que ambos acolheram com entusiasmo. Nesta cidade fundaram então em 1823 um jornal intitulado O Amigo do Povo, que poucos números publicou, por causa da reacção desse mesmo ano de 1823. 
Partiram ambos os irmãos para o Porto, e sendo ali perseguidos pelo partido absolutista, viram-se obrigados a emigrar a Espanha, com mais outros perseguidos, formando eles a que então se denominou oposição constitucional, ou a esquerda dos emigrados. 
De Espanha passaram a Inglaterra; e dali para França. No exílio a vida dos dois irmãos, sempre tão unidos, completamente se confunde. Seguiram a mesma politica, em França colaboraram ambos em diversas publicações, combatendo não só os actos do governo de D. Miguel, como alguns excessos e doutrinas doutra facção, ou a direita dos emigrados. 

Voltando a Portugal, e conseguindo entrar no Porto, que estava sofrendo um rigoroso cerco, cingiu logo, e à pressa, a espada de oficial do batalhão nacional provisório de Santo Ovídio. 
Foi então que se acentuou a sua vida revolucionária, mostrando toda a bravura e intrepidez. Levantou-se o cerco, e estabelecendo-se o regime constitucional, elegeu-se a primeira câmara municipal do Porto, e para seu presidente foi eleito José da Silva Passos. 
Nessa qualidade resistiu energicamente à lei de indemnizações de 15 de Agosto de 1833, que seu irmão depois combateu na câmara. Um e outro defendiam assim generosamente a causa dos vencidos, e levantavam bem alto a bandeira da verdadeira liberdade. 
Corria o ano de 1834; a efervescência dos partidos proclamava os seus eleitos para as cortes que iam inaugurar, à luz dos novos princípios, a representação nacional. José de Passos não podia deixar de ser dos primeiros entre os escolhidos, e a província do Douro o elegeu. Tomando assento na câmara ao lado de seu irmão, falaram ambos pela mesma voz contra a regência de D. Pedro, e protestaram com a mesma palavra generosa contra as indemnizações que humilhavam a causa vencida. Reeleito na legislatura seguinte, aderiu à revolução de Setembro; profundamente conhecedor dos negócios de administração, deu um contingente valioso para a redacção do código administrativo de 31 de Dezembro de 1834, de que foi o principal autor. 

Voltando à câmara fazendo parte das cortes constituintes, e nomeado membro da comissão da lei eleitoral, cooperou eficazmente para a constituição de 20 de Março e para a lei das eleições directas de 9 de Abril do ano de 1838. Decididamente empenhado em contribuir com toda a sua esclarecida actividade para o engrandecimento da causa publica, exerceu os cargos de sub secretario de estado dos negócios da fazenda, quando seu irmão era ministro, e de sub-inspector do tesouro, sem que por esse ou outro cargo aceitasse retribuição, como jamais a aceitou em troca dos relevantes serviços que prestou ao país. 

Depois de seu irmão ter saído do poder, foi José Passos muitas vezes convidado para fazer parte de novos ministérios que se organizaram, o que ele recusou sempre, apesar das instâncias da própria rainha D. Maria II. Sublevadas em 1837 as províncias do norte pelos dois marechais, Saldanha e Terceira, o governo nomeou José Passos e o visconde de Sá da Bandeira, para a difícil missão de irem restabelecera ordem. José Passos encarregou-se da parte financeira da missão, com que o serviço público muito lucrou. Depois da queda da constituição de 1838, e da restauração da Carta em 27 de Janeiro de 1842, José Passos, que era verdadeiramente odiado pelos cartistas por causa da sua infatigável actividade e dos serviços que prestara à revolução de Setembro, foi espancado e arrastado pelas ruas. Suspensas as garantias em 1844, José Passos foi preso duas vezes sem haver motivos para isso, porque não só não entrara em conspirações, mas até reprovava publicamente as revoltas, enquanto fosse possível recorrer aos meios constitucionais. 

Quando rebentou a revolução de 6 de Maio de 1846, José Passos tornou a ser eleito presidente da câmara municipal do Porto, e exercia esse cargo, quando se deu em Lisboa o golpe de Estado, conhecido pela Emboscada de 6 de Outubro, para a restauração da Carta Constitucional. O administrador de Vila Franca comunicou a notícia para o Porto; a cidade ficou inquieta, mas ainda duvidosa, e só no dia 9 do citado mes de Outubro, foi que teve a absoluta certeza do que se passara. Então José Passos, com uma energia assombrosa, dirigiu-se ao segundo comandante da guarda municipal Montenegro, chamou-o aos interesses da causa liberal, fez com que a guarda se pronunciasse, mandou tocar os sinos a rebate, disse a todos quantos encontrava no caminho que se resistia ao golpe de Estado, e que se não consentia que o duque da Terceira exercesse as funções de lugar-tenente da rainha nas províncias do norte, e depois de ter obtido a adesão do regimento de artilharia n.º 3 e do de infantaria n.º 6, dirigiu-se ao palácio do governo civil onde estava o duque da Terceira, e pediu-lhe urbanamente que se considerasse preso. O duque, sabendo que toda a guarnição do Porto estava pronunciada no sentido revolucionário, e que não tinha por conseguinte meio algum de resistência, aceitou tranquilamente a sua situação, que não deixava de ser perigosa, porque o povo exaltado ameaçara tirar vingança no duque do procedimento do governo de Lisboa. José Passos colocou-se então ao lado do duque, declarando que respondia com a sua vida pela vida dele. O povo exigia que o duque fosse preso para o castelo da Foz, José Passos desejava que ele reembarcasse para Lisboa, mas não aparecia barco nem escaler, e o duque foi o primeiro a reconhecer que se não podia seguir outro caminho senão o que o povo exigia, e nesse mesmo dia 9 de Outubro se recolheu ao castelo da Foz. No dia seguinte o governador civil interino, António Xavier de Barros Corte Real, propôs à câmara a nomeação duma junta provisória do governo, junta que ficou assim organizada: presidente, conde das Antas; vice-presidente, José da Silva Passos; vogais: António Dias de Oliveira, Sebastião de Almeida e Brito, Justino Ferreira Pinto Basto, conde de Resende, barão de Lordelo, António Luís de Seabra, Francisco de Paula Lobo de Ávila. Organizaram-se logo outras juntas filiais em Guimarães, Barcelos, Viana do Castelo, Vila Real, Viseu, Castelo Branco, Guarda, Évora, Portalegre, Beja, Faro, Leiria, Santarém, Cascais, Palmela, Aveiro, Coimbra, Oliveira de Azeméis, Funchal, S. Miguel e Terceira. 
Organizado o governo da junta, José Passos encarregou-se das pastas da fazenda e da dos negócios estrangeiros, mas era ele verdadeiramente a alma da junta, e a ele se devem quase todos os prodígios que a junta operou. 
Os portuenses faziam todos os sacrifícios que se lhes pediam, quando José Passos lhes chamava patriotas, e lhes falava no bem da nação. Verdadeiro presidente da junta, porque o conde das Antas dirigia as operações militares, José da Silva Passos não hesitou diante das mais graves responsabilidades. Foi preciso levantar alguns empréstimos forçados, era sempre José Passos quem ia aos bancos, ás companhias ou só ou acompanhado por Justino Pinto Basto exigir o que era indispensável. 
Foram pequeníssimos os recursos levantados por esse meio, e contudo a junta levantou e teve em armas um exército numeroso, equipou uma pequena esquadra quase sem ter recursos tributários. Demais, muito infeliz militarmente, a junta precisava a cada instante estar reparando os seus desastres. O visconde de Sá da Bandeira, vencido em Valpaços, via passar ao inimigo dois dos seus melhores regimentos, e perdia um grande número de prisioneiros. Depois caiu em Torres Vedras prisioneira uma divisão toda de 4.000 homens, comandada pelo conde de Bonfim. As províncias do Minho e Trás-os-Montes, donde a junta do Porto podia tirar mais recursos, estavam também no poder do inimigo. Pois apesar disso, José Passos soube sempre apresentar a Francisco de Paula Lobo de Ávila, ministro da guerra, os recursos necessários para ele pôr em campo forças consideráveis. Como ministro dos negócios estrangeiros prestou também muitos serviços, protestando energicamente contra o procedimento do comandante do cruzeiro inglês, que aprisionou em 31 de Maio a esquadra, que saíra do Porto deixando o conde das Antas com uma nova expedição; votou pela rejeição dos quatro artigos do Protocolo, na sessão de 5 de Junho do mesmo ano. 
Este golpe foi mortal e decisivo. Desde o momento que a Espanha e a Inglaterra se tinham resolvido a intervir, em cumprimento do tratado da quádrupla aliança a causa estava imediatamente perdida. Apesar disso, José Passos infundia confiança em toda a gente, e ainda levava os patriotas do Porto a empreender qualquer acção heróica. Quase à vista do exército espanhol, comandado por Concha, repeliram as tropas da junta as avançadas de Saldanha, mas tudo isso era inútil, a junta estava condenada a entrar em negociações, e o convénio de Gramido assinado da parte da junta pelo marquês de Loulé e César de Vasconcelos a 29 de Junho de 1847, e pela parte dos ingleses e espanhóis pelo general D. Manuel de la Concha, W. Wylde e Buenage, pôs termo a essa revolução, que durante 9 meses dominou em todo o norte do país e assoberbou, apesar de sucessivos desastres militares, o poder e a guarnição do governo do reino. 
Pois fora José Passos quem fizera a revolução, tudo se devia à sua energia e à sua actividade. Terminada a luta, José Passos voluntariamente, como seu irmão, retirou-se entregando-se tranquilamente aos seus trabalhos e aos seus negócios, rodeado sempre da estima dos seus concidadãos e da maior popularidade. 

Em Abril de 1851, quando o duque de Saldanha fez o seu pronunciamento, e desanimado por não encontrar no exercito a adesão que esperava, já se refugiara na Galiza, José Passos pôs-se em movimento, escreveu-lhe para que viesse ao Porto, dispôs os espíritos para se lhe preparar uma recepção condigna, e para o acompanharem no movimento que empreendia. 
Foi José Passos um dos que mais contribuíram para o êxito da Regeneração. Eleito deputado pela primeira vez, conservou-se, como seu irmão, muito afastado das lutas parlamentares. 
A sua saúde estava profundamente abalada, e por efeito de paralisia agravou-se-lhe de ano para ano, apagando-lhe a razão. Faleceu obscuramente. Foi casado com D. Ana Margarida Soares da Silva Passos.  »



24.4.14

Poema


esta noite ouvi este poema


Uma vez não é costume!

Hoje transcrevo um poema de um homem que viveu numa rua bem perto do sítio onde eu habitei. 
Antifascista, resolveu exilar-se em 1967 para o Brasil. Esteve preso nos locais da PIDE do Porto (ver foto). Tem vários poemas publicados sobre a sua triste experiência nos cárceres.

MANHÃ

-Bom dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço… apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.

Vómito insuportável de ironia
Bom dia, porquê bom dia?

Olhe senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite, ninguém mora,
deite esse bom dia lá fora
porque lá fora é que é dia.


Luís Veiga Leitão


(Na imagem podemos ainda ler PVDE - antiga denominação da polícia política do Estado Novo)

23.4.14

Personagens da República no Porto


Alguns deram nome a ruas, jardins ou outros locais da cidade.

Nascidos ou não no Porto aqui viveram ou lutaram pelo ideal da República, durante a Monarquia e durante o Estado Novo.

(Listagem, sem dúvida, incompleta)


António Amaral Leitão (capitão Leitão) - 7/3/1845 - 14/1/1903

António Luiz Gomes - 23/9/1863 - 28/8/1961

Augusto de Castro Sampaio de Corte-Real (Augusto de Castro) - 11/1/1883 - 24/7/1971

Augusto Manuel Alves da Veiga - 28/9/1849 - 2/12/1924

Augusto Rodolfo da Costa Malheiro (alferes Malheiro) - 19/1/1869 - 9/12/1924

Aurélio da Paz dos Reis - 28/7/1862 - 18/9/1931

Aníbal Augusto Cardoso Fernandes Leite da Cunha - 1868 - 16/3/1931

Abel Salazar - 19/7/1889 - 29/12/1946

Basílio Teles - 14/2/1856 - 10/3/1923

Duarte Leite Pereira da Silva - 11/8/1864 - 29/9/1950

Eduardo Ferreira dos Santos Silva - 18/3/1879 - 14/9/1960

Ezequiel Pereira de Campos - 12/12/1874 - 26/8/1965

Francisco Xavier Esteves - 8/10/1864 - 2/9/1944

Hélder Ribeiro - 19/7/1883 - 10/11/1973

Jaime Zuzarte Cortesão - 29/4/1884 - 14/8/1960

José Domingues dos Santos - 8/5/1887 - 16/8/1958

José Joaquim Rodrigues de Freitas - 24/1/1840 - 27/7/1896

José Pereira de Sampaio (Bruno) - 30/11/1857 - 6/11/1915

Joaquim de Azevedo Sousa Vieira da Silva Albuquerque - 16/8/1839 - 21/1/1912

Leonardo José Coimbra - 30/11/1883 - 2/1/1936

Manuel Maria Coelho - 6/3/1857 - 9/1/1943

Manuel Pinto de Azevedo - 27/4/1874 - 17/2/1959

Raul Germano Brandão - 12/3/1867 - 5/12/1930



21.4.14

Rua do Heroísmo (1974-2014)


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Naquele sinistro casarão, que faz esquina da Rua do Heroísmo com o Largo de Soares dos Reis (agora Largo de Catarina Eufêmia), e onde muitas pessoas mudavam de passeio para se afastarem da sua proximidade, funcionou, durante longos anos, a Delegação no Porto da PIDE, a que Marcelo Caetano, numa mera mudança de designação, passou a chamar DGS. A PfDE-DGS do Porto tinha duas entradas : uma pelo Largo de Soares dos Reis, com escadas de passadeira e contínuos fardados, era a entrada para «inglês ver», a entrada «oficial», onde eram atendidos os que ali eram chamados ou iam tratar de qualquer problema de passaportes, nomeadamente os estrangeiros; a outra era a face real da PIDE, na Rua do Heroísmo (e nunca o nome de uma rua foi tanto o símbolo dos que lá entravam e conseguiam resistir às torturas), um portão de ferro, com uma pequena porta de entrada, a dois palmos do chão, que só se abria para deixar entrar os presos ou os seus familiares, que os iam visitar, e que estabelecia contacto com o átrio de acesso às prisões (celas, quartos e salas) e ao curto lanço de escadas de acesso, pelo lado real, do edifício onde funcionavam todos os departamentos da PIDE-DGS, desde as salas de escuta telefónica e gravações, até aos gabinetes dos chefes, inspectores e director, e àqueles, no último andar, onde os presos eram interrogados e torturados. Quem entrava pela escada de passadeira do Largo de Soares dos Reis, e assim não passava desta parte do edifício, nunca podia fazer ideia de tudo aquilo que constituía a verdadeira PIDE, e que estava para lá daquela fachada. Esta série de fotografias da Delegação no Porto da PIDE-DGS, obtidas logo após o 25 de Abril, desde a complicada aparelhagem de escuta telefónica e gravação, os montes de livros apreendidos, as pastas de processos individuais, que vão até ao número 53067, o enorme ficheiro de 80 gavetas, o parlatório das visitas, o arsenal de armas amontoadas, o luxo do gabinete do director contrastando com a pobreza rudimentar das saias dos presos, até aos relatórios, meio calcinados, de gravações telefónicas, o envelope apreendido duma carta, agentes da PIDE-DGS ocultando as caras, já conduzidos sob prisão, a alegria da saída dos presos e a essa extraordinária imagem de um soldado erguendo um ramo de cravos no meio da alegria de milhares de populares, que, até à hora da rendição da PIDE, apoiaram as Forças Armadas, estando sempre a seu lado, constituem imagens que se não podem esquecer. Sem serem tudo o que era a sede da PIDE no Porto — basta lembrar a falta de fotografias das celas subterrâneas onde os presos, às escuras ou com a escassa luz dos estreitos postigos gradeados à altura das pernas de quem passava na Rua do Heroísmo, cumpriam longos períodos da chamada incomunicabilidade, com um balde a substituir as funções de retrete, constituem, porém, um primeiro documentário sobre as instalações da PIDE-DGS que ilustra os brutais e maquiavélicos métodos de actuação desta polícia do fascismo português, que foi um dos seus órgãos fundamentais para a implantação e a sobrevivência do regime de domínio violento das mais reaccionárias camadas do grande capital monopolista sobre o povo português, durante quarenta e oito anos.

Forçada a organizar-se, em moldes de legalização, em 1945, com a vitória das Nações Unidas sobre o fascismo, a PIDE apresentava, em relação aos processos crimes de direito comum, a insólita peculiaridade de os seus processos políticos, após as declarações dos arguidos, apresentarem em seguida a afirmação, subscrita por dois agentes, de que aquelas declarações tinham sido prestadas «sem qualquer espécie de coação ou violência», como se coação não fosse só por si a própria entrada do preso na PIDE, dado o pavor que a sua actuação despertava na generalidade das pessoas, e como se violência não fosse também a prisão por meros delitos de opinião e todo o regime penal dos presos políticos, sujeitos, além do mais, a um regime «legal» de seis meses de prisão preventiva! Durante perto de vinte anos, todos os processos organizados pela PIDE aos presos políticos não deixavam de acrescentar às declarações dos arguidos esta afirmação abonatória, subscrita por dois agentes, de que as declarações, afinal obtidas através dos mais sórdidos meios de tortura, «tinham sido prestadas sem qualquer espécie de coacção ou violência». E só depois de, nos julgamentos dos Tribunais Plenários, os advogados que defendiam os presos políticos começarem a denunciar tal fórmula como prova indirecta da coacção e da violência nos interrogatórios e respectivas declarações, pois se elas não existissem não seria preciso admitir a sua probabilidade e negá-la sistematicamente, a PIDE acabou por abandonar a fórmula, que mais a comprometia do que a defendia, ao contrário das suas intenções.

Era, de resto, tal o estado de coacção dos presos que, em 1931, após o assassínio pela PSP dó estudante João Martins Branco, ao oficial da PSP que comandara o assalto à reunião dos estudantes do Porto, estudantes de Medicina, mandaram, pelo correio, a cabeça dum cadáver; a PIDE prendeu diversos estudantes, entre eles António Ramos de Almeida, que viria a ser um conhecido escritor e lutador antifascista, infelizmente já há anos falecido, e que tinha então apenas 17 anos. Conduzido à presença de um chefe da PIDE para ser interrogado, em cuja secretária estava a cabeça do cadáver enviada ao oficial da PSP, e à pergunta se sabia de quem era aquela cabeça, Ramos de Almeida, tal era já em 1931 a reputação da PIDE, e tão alheio estava à acusação, que respondeu ser aquela a «cabeça dum preso».

A quem, desde 1949, pôde prestar, a mais de setenta presos políticos, a solidariedade de tomar a sua defesa, em trinta e dois processos, estas imagens são inseparáveis dos nomes de tantos dos melhores filhos do nosso Povo que passaram peta Delegação no Porto da PIDE-DGS e ali foram torturados, com as mais requintadas torturas, desde o isolamento de semanas e meses, em celas subterrâneas, até às selváticas agressões a soco, a pontapé e a cavalo-marinho, aos insultos mais soezes e à «estátua» e privação do sono, durante dias e noites consecutivas. Rever as instalações da PIDE é, necessariamente, recordar, além de tantos outros, os 16 mineiros de São Pedro da Cova, ali presos em 1959, os 15 trabalhadores de Fafe, ali presos em 1951, os 5 trabalhadores de Custóias, igualmente ali presos em 1950, os 4 padeiros do Porto, também ali presos em 1959, e até praticamente uma aldeia inteira de Montalegre, com homens e mulheres, velhos e novos, que encheu as prisões da PIDE, sob a acusação de ter ajudado dois guerrilheiros espanhóis que se haviam refugiado em Portugal, após o termo da guerra civil espanhola.

E recordar igualmente tantos antifascistas que por ali passaram, a maior parte várias vezes, e ali sofreram corajosamente longas prisões, com todo o seu cortejo de arbitrariedades e prepotências, como Ruy Luis Gomes, Óscar Lopes, Virgínia Moura, Lobão Vital, António Macedo, Mário e Carlos Cal Brandão, do Porto; Vítor de Sá e Humberto Soeiro, de Braga; Lino Lima, de Vila Nova de Famalicão; António Ribeiro da Silva, de Viana do Castelo; e tantos outros cuja enumeração seria praticamente infindável.

E evocar ainda os militantes do Partido Comunista Português, o grande Partido da resistência contra o fascismo em Portugal, sobre os quais a PIDE desencadeou sempre a mais feroz repressão, submetendo-os às mais violentas formas de tortura, sem conseguir vergar a sua permanente atitude de luta contra o fascismo até com desprezo da própria vida, para o que bastará lembrar os nomes de alguns desses heróis da luta antifascista que continuam hoje um combate que iniciaram há já longos anos, em plena juventude, e que na Delegação no Porto da PIDE começaram a sofrer as brutais torturas, como Carlos Costa, de Fafe, em 1948, com pouco mais de vinte anos, mantido isolado durante cinco meses, e cujo pai foi preso como refém, durante 20 dias, como odiosa tentativa de obrigar Carlos Costa a ceder, e cuja absoluta negativa lhe haveria de valer a absolvição no Plenário mas a condenação em medida de segurança de internamento de 6 meses a 3 anos, por ser considerado «perigoso», o que constituiu o único caso de aplicação somente de medida de segurança no Plenário do Porto; Jorge Araújo, do Porto, preso a primeira vez em 1958, com 22 anos, e que ali viria a ser agredido a soco, a pontapé, e à régua, nas partes mais sensíveis do corpo, e que esteve 11 dias e 11 noites sem dormir; Mário Sena Lopes, do Porto, preso em 1961, agredido a soco e a pontapé, e batendo-lhe com a cabeça nas paredes, 7 dias e 6 noites sem dormir, um ano e quatro meses em regime de isolamento; Maria José Ribeiro, de Matosinhos, presa em 1962, com 26 anos, agredida a soco e com um chicote, um mês incomunicável; Hernâni Silva, do Porto, preso a primeira vez em 1950, com 23 anos, agredido a soco por 5 agentes, ao ponto de lhe rebentar o sangue pelo nariz e ouvidos, e chicoteado nas pernas durante sete horas, um dia; e 5 horas noutro dia, 14 dias às escuras numa cela subterrânea, e novamente preso em 1952, e cinco meses e meio isolado nas celas subterrâneas; Mário Araújo, de Fafe, preso, a primeira vez, em 1956, com 20 anos, mantido 6 meses numa cela subterrânea; e muitos outros que nas instalações no Porto da PIDE começaram a ser vitimas da sua abnegada e heróica luta contra o fascismo e em defesa do povo português.

E, finalmente, não se pode deixar de recordar os nomes de alguns dos assassinados pela PIDE no Porto, como Gervásio da Costa, operário têxtil de Fafe, que em consequência das torturas tuberculizou, em 1949, na Delegação no Porto da PIDE, vindo a morrer pouco depois; Manuel da Silva Júnior, de Viana do Castelo, que a PIDE pretendeu ter-se «suicidado» em 3 de Março de 1957, tal como pretendeu também apresentar como «suicídio», em 13 de Fevereiro de 1957, a morte do barbeiro de Fafe, Joaquim Lemos de Oliveira, após nove dias e nove noites da tortura da «estátua» e com as agressões de que foi vitima a soco, a pontapé e a cavalo-marinho.

As imagens da Delegação da PIDE-DGS no Porto estão indissoluvelmente ligadas a tantos vivos e mortos que ali foram torturados. E será com a trágica recordação dessas imagens que o povo português saberá dizer não ao fascismo. O fascismo não voltará a Portugal. O fascismo não passará.

Raul Castro

Texto publicado em "O ÚLTIMO DIA DA PIDE 26 DE ABRIL NO PORTO"
(edição do Movimento Democrático do Porto - 1974)

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Duas notas sobre a rua do Heroísmo:

- Já teve o nome de Rua do Alecrim, rua de S. Lázaro e rua do 29 de Setembro.

- "Na planta de Costa Lima, de 1839, aparece como Rua de 29 de Setembro. Derivava aquele topónimo da evocação do mais sanguinolento combate durante o cerco, na Quinta da China, nesse dia e mês de 1832, entre liberais e miguelistas. Recebeu o nome de Rua do Heroísmo para lembrar os actos valorosos praticados nesse recontro de 29 de Setembro. Já assim se chamava em 1877... "
"Toponímia Portuense" de Eugénio Andrea da Cunha e Freitas


Sobre o edifício: Actualmente é ocupado pelo Museu Militar do Porto. Alguns anexos do tempo da Pide já foram destruídos, nomeadamente aqueles que se encontravam junto do portão da rua do Heroísmo. Bem ao fundo ainda se encontra um pavilhão onde há poucos anos era visível a inscrição "P. V. D. E." (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). 


15.4.14

Dr. Alfredo de Magalhães (busto)

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Busto do Dr. Alfredo de Magalhães, do escultor Pinto do Couto; obra em bronze, que originariamente se encontrava no átrio da entrada principal do edifício da Maternidade.

O pedestral de granito que o suporta, foi desenhado pelo arquitecto Rogério de Azevedo.

Sobre este antigo presidente da Câmara do Porto pode ver mais aqui.



14.3.14

Os Frescos do Cinema Batalha



Fotografia da autoria de Ernesto de Sousa


Após alguns anos de abandono o cinema Batalha entrou em obras de renovação no ano de 2005. Nos finais desse ano a comunicação social fez eco de algo que era desconhecido de muitos portuenses - os paineis da autoria de Júlio Pomar. Sobre a sua possível recuperação, ou não, foram publicadas algumas linhas que não levantaram a atenção nem do público nem de qualquer organismo oficial.

Na altura publiquei noutro blogue algumas imagens do Batalha assim como dos paineis censurados. 

Agora, ao fim de alguns anos publico mais algumas coisas sobre a "história contemporânea" da cidade. 


O cinema Batalha foi inaugurado no Verão de 1947 ainda com um dos paineis por concluir.Nessa altura Júlio Pomar encontrava-se preso em Caxias. Uma vez libertado, o artista terminou-o nos finais desse ano. A ordem de ocultação dos paineis surgiu em 1948 num momento de forte repressão à candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República.


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Fotografia da autoria de Ernesto de Sousa




Fotografia da autoria de Ernesto de Sousa


«A 3 de Junho de 1947, o novo Batalha, delineado pelo arquitecto Artur Andrade, reabre as suas portas ao público, sucedendo ao antigo Novo Salão High--Life exactamente no mesmo local.
A Inauguração da nova casa é festejada com um festival de cinema francês constituído por «Trovadores Malditos», de Carne, «A Batalha do Rail», de Clement, «A Bela e o Monstro», de Cocteau, e «A Sinfonia
Pastoral», de Delannoy. Da programação do novo Batalha encarrega-se Luís Neves Real, cujo nome fica indelevelmente marcado no sector da exibição, no Porto, e marginalmente ligado à criação do «Cine-Clube do Porto», a cujas primeiras direcções pertenceu.
A nova casa de espectáculos é ornamentada com várias obras de arte: um baixo-relevo na fachada, de Américo Braga, um grande fresco numa das paredes do patamar que dá para a cave, da autoria de Júlio Pomar, trabalhos ornamentais de Augusto Gomes, António Sampaio e Arlindo Gon­çalves. Poucos dias depois, uma ordem ridícula, bem típica do regime salazarista, mandava apagar o fresco de Júlio Pomar e mutilar o balxo-relevo da fachada (a ceifeira ficou sem foice e o operário sem o martelo ...). O então presidente da Câmara, dr. Luís de Pina, embirrou com o traçado de feição moderna do novo edifício e com a sua decoração, porque não gostava nem de pintura moderna, nem do Júlio Pomar e aqueles pormenores das figuras alegóricas da fachada cheiravam-lhe a comunismo …
[ «Fresco» de Júlio Pomar que decorava uma parede interior do novo Cinema Batalha, do Porto, e que foi mandado cobrir por um Presidente da Câmara por considerá-lo miserabilista e subversivo ... (Representava tão somente a festa tradicional popular do S. João. O referido «fresco» já levou nova cobertura e jamais poderá ser recuperado. Era assim nos tempos da «outra Senhora»). ] legenda de uma imagem do artigo

Numa entrevista concedida há relativamente pouco tempo, ao Jornal de Notícias, o arquitecto Artur Andrade conta o episódio: «O presidente da Câmara considerou que eu fazia arquitectura comunista e como comunistas classificou todos os que colaboraram no projecto e na decoração ... e até o eng. Neves Leal, um dos proprietários. O grande jresco tinha como tema a festa de S. João. Pintura realista, rica de cor, com figuras de adultos e de crianças em movimento, balões, tambores, etc. (A um lado, acrescento eu, havia a figura de um miúdo, acocorado, comendo qualquer coisa de uma malga. Um miúdo magricelas, um miúdo da rua. Talvez tivessem falado nisso ao dr. Luís de Pina e tenham visto aí terríveis intentos subversivos). Fecho o parêntesis para voltar a dar a palavra ao arquitecto Andrade: «O dr. Luís de Pina mandou destruir a pintura. Pedi-lhe que fosse ao local para a ver, apelei para as suas responsabilidades, fiz-lhe sentir que a Câmara nada tinha a ver com a decoração interior. Tudo em vão. Não quis ir ver, nem se demoveu, porque — dizia — «já calculava o que era»! Tivemos de ceder. Do mesmo modo, umas letras do alfabeto, colocadas sem formar qualquer palavra, para encher os espaços vazios desse painel, como estava em uso naquela época, não escaparam a este tipo de perseguição. O dr. Luís de Pina pretendia que as letras significassem a conhecida expressão marxista «proletários de todos os países, uni-vos» ... Assim mesmo: com o maior despudor, a maior irresponsabilidade ele interpretava a intenção do artista. Até as letras dos puxadores das portas mereceram censura. Para o presidente da Câmara as letras «C» e «J?» não pretendiam significar Cinema Batalha. Para ele, bem podiam ser abreviaturas de «Comité Bolchevista». Estes «pides» da inte­ligência, homens que se consideravam intelectuais, que se diziam ao serviço da Arte e da Ciência, eram somente os servidores de uma politica contra a liberdade criadora. O que se passou com o Cinema Batalha foi uma autêntica violência, típica do regime fascista.»
O fresco de Pomar foi coberto a tinta (Creio que sem as precauções necessárias para um dia, se melhores dias viessem, ser recuperado). A foice da figura que representava a Agricultura foi tirada da mão que a empunhava, assim como o martelo foi surripiado à figura alegórica à Indústria. Para a história do «salazarismo» e dos seus fiéis servidores, esta é uma das muitas facetas grotescas do sistemático ataque à arte e à cultura e das inacreditáveis arbitrariedades impunemente cometidas por qualquer mui ilustre presidente duma Câmara Municipal...
Passemos adiante.
Com nova casa, o Cinema Batalha mudou imediatamente de público. Nascia mais um cinema para a burguesia portuense... morrera para sempre o mais popular cinema do Porto.
O novo Cinema Batalha ficou, por essa altura, ligado a um outro acontecimento: a criação do «Clne-Clube do Porto». Na incerteza dos primeiros passos desta associação (também ela mal vista pelas autoridades do regime salazarista, mais empenhado em embrutecer as pessoas do que em as despertar para o esclarecimento e a cultura) foi fundamental para o «Cine-Clube do Porto» poder dispor gratuitamente, durante algum tempo, e, depois, em condições excepcionais, da sala do Batalha. A empresa Neves & Pascaud abdicava de imediatos interesses comerciais para servir os interesses da cultura cinematográfica. Ê ainda hoje (embora noutras condições, como é óbvio) que, no Batalha, o «Cine-Clube do Porto» realiza as suas sessões normais. Os laços estabelecidos em 1948 mantêm-se inalteráveis. Mas foi sobretudo a cooperação prestada ao «Cine-Clube», nos dias difíceis do seu arranque, um facto mais a assinalar na longa, longa história deste cinema, que começou por um simples barracão de feira para os lados ainda pouco povoados da Boavista, há quase setenta anos!


[ Baixo relevo da fachada do novo Cinema Batalha, depois de terem tirado a foicinha da mão da figura alegórica da Agricultura e o martelo da mão da figura alegórica da Indústria, coisas consideradas subversivas... por um regime que não poupava as obras de arte ] - legenda de outra imagem do artigo »



Os meus mais sinceros agradecimentos ao Alexandre Pomar que me forneceu, na altura, o texto e as imagens de Ernesto de Sousa aqui apresentadas.

Para saber mais sobre Júlio Pomar pode consultar a página da Fundação Júlio Pomar



Mais imagens do Cinema Batalha no blogue Do Tempo e da Luz