Mostrar mensagens com a etiqueta Liberalismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Liberalismo. Mostrar todas as mensagens

26.6.15

Rua Visconde de Setúbal

2015_233



Mas afinal quem era o Visconde de Setúbal?

Quando encontramos o nome de aristocrata  pensamos logo que deve ser um descendente de um nobre do século XVI ou, então, um rico comerciante reconhecido nos finais de século XIX.

Pesquisei na net para mim e para os leitores mais curiosos que nos momentos de ócio desembarcam neste blogue.

Aqui vai uma breve nota biográfica:

De nascimento chamava-se Johann Schwalbach. Veio ao mundo em Trier a 22 de março de 1774 e faleceu em Estremoz a 25 de maio de 1874.

Maria II de Portugal decretou em 1843 que seria visconde de Setúbal pois desde 1835 já era barão da mesma localidade.

Fez parte das tropas liberais que desembarcaram em Pampelido a acompanhar o rei-libertador. Militar do Exército Português era conhecido como General Schalbach.

Na toponímia portuense aparece como Visconde e na da cidade de Almada como João Schwalbach.



29.10.14

Rua Barão de S. Cosme

2014_446




João Nepomuceno de Macedo   

Barão de São Cosme 

Comendador das ordens de Avis e da Torre e Espada; brigadeiro do exército, condecorado com as medalhas da Guerra Peninsular, e com a Estrela de Ouro do Rio da Prata; inspector-geral de cavalaria, etc. 

N. a 15 de Maio de 1793, fal. a 28 de Agosto de 1837. Era filho de António Eliseu Raimundo de Macedo, e de D. Teresa Faustina Calhamar.

Alistando-se no exército tomou parte na Guerra Peninsular, no regimento de cavalaria, onde tinha o posto de tenente quando acabou a guerra. Oferecendo-se para entrar na divisão de Voluntários do Príncipe, que se organizou em 1815 com destino a Montevideu, foi promovido a capitão para o primeiro corpo do cavalaria dessa expedição, e em Novembro do mesmo ano embarcou para o Rio de Janeiro. Desta cidade seguiu à ilha de Santa Catarina, e dali por terra para Montevideu fazendo parte da coluna da vanguarda que, sob o cominando do general Sebastião Pinto de Araújo Correia, foi como era natural, a primeira a entrar em fogo com os insurgentes daquela província. No combate da Índia Morta a 19 de Novembro de 1816, sendo gravemente ferido o primeiro comandante dos dois esquadrões que entraram na acção, e morto o major Duarte de Mesquita, recaiu o comando no capitão Macedo, que carregou o inimigo com grande bravura e intrepidez, merecendo por isso ser graduado no posto de major. Investido logo em seguida do comando dessa força de cavalaria, conservou o até ao dia 1.º de Dezembro de 1817 em que se desmembrou a coluna da vanguarda, e sendo a 22 de Janeiro de 1818 promovido a major efectivo, foi nomeado em Junho comandante do 1.° regimento de cavalaria da divisão portuguesa. Pela forma notável como se houve em todos estes serviços, foi repetidas vezes elogiado pelos seus chefes, e tendo assistido, além de muitos outros combates, às acções de Passo do Coelho e de Passo de Areias, deu as mais decididas provas de lealdade e bravura nas difíceis circunstancias em que esteve durante os anos de 1822 e 1823 a posição de Montevideu, entrando em todos os combates que se travaram contra as forças dissidentes do Brasil e sustentando com a maior intrepidez e estratégia a posição de Casavalle, que defendeu brilhantemente com uma coluna móvel, cuja direcção lhe foi entregue. Regressando a Portugal também se distinguiu na campanha da Liberdade, devendo-se-lhe um dos mais arrojados feitos na luta travada nas linhas do Porto. Na manhã de 29 de Setembro de 1832 os miguelistas deram um grande ataque à cidade, e uma das colunas vindas de Campanhã, não só se assenhoreou das cortaduras exteriores da quinta do Prado, mas conseguiu até alcançar as paliçadas que os seus sapadores pretenderam derrubar. O combate continuou sempre com vantagem para as tropas de D. Miguel e os sitiantes tomando uma barreira que estava colocada na estrada de S. Cosme, penetraram segunda vez nas trincheiras ganhando o princípio da rua do Prado. O momento era extremamente crítico e o perigo enorme quando João Nepomuceno de Macedo, então coronel graduado e comandante do corpo de guias, sem atender ao risco que corria e pensando unicamente em salvar a causa da Liberdade, carregou impetuosamente o inimigo à frente dos 25 homens que tinha consigo no largo do Bonfim. Diante desse punhado de bravos, os miguelistas recuaram, os constitucionais recuperaram ânimo, e o Porto era salvo pelo heroísmo do destemido coronel. O homem que tantas vezes arrostara as balas e que por elas havia sido poupado, caiu mortalmente ferido na pequena acção do Chão da Feira em 1837, quando à frente da cavalaria cartista carregava o batalhão de caçadores que fazia parte das forças do barão de Bonfim. O valente militar foi agraciado com o título de barão de S. Cosme, por decreto de 12 de Outubro de 1835. 

Era casado com D. Josefa Castanheda de Moura, filha de D. Romão Ximenes Castanheda e de D. Francisca de Moura. Deste consórcio houve, entre outros filhos, João Nepomuceno de Macedo, que nasceu em 1825, e foi deputado nas legislaturas de 1861 a 1864. Uma sua filha, chamada D. Josefa Henriqueta Girão de Macedo, foi quem herdou o título de seu avô, sendo a segunda baronesa de S. Cosme, por decreto de 24 de Outubro de 1878. Esta senhora casou a 28 de Agosto de 1889, na Chamusca, com D. António de Portugal. 






28.10.14

Rua Visconde de Bóbeda

2014_444




2014_445


Quem foi o Visconde de Bóbeda?

« Joaquim de Sousa Quevedo Pizarro, nasceu em Novembro de 1777 e faleceu em 23de Abril de 1838. Foi fidalgo cavaleiro da Casa Real por sucessão (alvará de 10.12.1792). Alistou se como cadete no regimento de Cavalaria de Chaves, em 27.2.1791, de onde passou a servir no corpo da Armada. Concluiu estudos matemáticos na Real Academia de Marinha. Foi promovido a guarda marinha em 24.11.1794, a 2.° tenente em 7.9.1796, a 1.° tenente em 27.7.1799, a capitão tenente em 27.7.1813 e, por distinção, foi promovido a capitão de fragata graduado, em 17.10.1817. Participou na campanha do Mediterrâneo e na expedição a Tripoli, sendo louvado pela sua boa prestação. Em 1816 acompanhou no Brasil, do Rio de Janeiro para Santa Catarina, a divisão de Voluntários reais de el rei. Dali seguiu para Montevideu, onde foi encarregado do Comando da Marinha, da Capitania do Porto e da Inspecção do Arsenal Real, até Abril de 1818. Em 27 de Agosto transitou para o exército com o posto de tenente coronel. Logo depois foi graduado em coronel adido ao Estado Maior do Exército do Brasil. Em Junho de 1822, por parecer do Conselho de Estado, passou para o governo das Armas da província do Espírito Santo. Desempenhou ainda o cargo de ajudante de ordens do capitão general do Maranhão, General Bernardo da Silveira. Foi promovido a coronel efectivo, em 5.11.1818. Finalmente foi reformado, em 18.6.1827 com o posto de Brigadeiro. Encontrava-se, em 1828, como governador da Praça de Chaves, quando se deu a revolta do Porto. Avançou, então, com dois esquadrões de Cavalaria e apresentou se à Junta do Porto que o nomeou 2.° comandante da chamada Divisão Volante. Participou nos combates da Cruz de Morouços e do Vouga. Em 2 de Julho assumiu o comando da Leal Divisão do Porto que conduziu à Galiza, depois de bater em Braga as tropas realistas, que sob o comando do coronel Raimundo José Pinheiro tentavam impedir a sua passagem. Da Galiza passou à Inglaterra e em 1829 participou na expedição que se dirigiu aos Açores, sob o comando do General Saldanha. Como essa expedição não pôde acostar na Terceira, devido à oposição dos navios ingleses, seguiu para França e ancorou no porto de Brest. Só em 1831 conseguiu chegar aos Açores. Em 2.7.1831 foi nomeado ministro da Guerra, Marinha e Estrangeiros da Regência. Veio a ser exonerado desse cargo em 3.3.1832. Participou no contigente de tropas que desembarcou no Mindelo, em 5.8.1832 e regressou ao activo, com a sua nomeação para governador das Armas da Província de Trás-os-Montes, funções que desempenhou até 27.5.1834. Em 1.7.1837 voltou a ser nomeado ministro da Guerra e interino da Marinha e do Ultramar. Foi durante esse período que foi promovido a marechal de campo. Recebeu as mais importantes condecorações e louvores. Morreu solteiro, mas legitimou uma filha: D. Constança de Sousa. O título foi lhe concedido por Decreto de 28.9.1835 e Carta de 9.2.1837 de D. Maria II. »




É nesta rua que se encontra a Contrastaria do Porto. Para saber mais sobre o que é e para que serve este serviço da Casa da Moeda pode consultar: https://www.incm.pt/portal/uco_atividade.jsp




18.10.14

Travessa Coronel Pacheco

2014_425



2014_424



Sobre o CORONEL PACHECO: Em Setembro de 1833, para as bandas da Areosa travou-se um violento combate entre miguelistas e o Regimento de Infantaria nº 10 que era comandado pelo Coronel José Joaquim Pacheco que foi ferido. Faleceu dois dias depois na Quinta do Mirante onde o seu Regimento estava aquartelado. O seu nome foi dado ao antigo Largo do Mirante, como também à Travessa do Mirante hoje Rua do Mirante e à então Rua do Mirante que agora se chama Rua do General Silveira (Conde de Amarante, depois Marquês de Chaves). 

in http://ruasdoporto.blogspot.pt/2007/11/praa-coronel-pacheco.html


6.10.14

Rua José da Silva Passos

2014_390





José da Silva Passos era irmão de Passos Manuel, até parece evidente pois também era conhecido por Passos José.

Nasceu em Guifões no dia 18 de Novembro de 1800 e faleceu no Porto na Viela da Neta, no Porto, a 12 de Novembro de 1863.


Breve biografia que pode ser encontrada aqui:

« Bacharel formado em Leis e em Cânones pela Universidade de Coimbra, sub-secretário de estado dos negócios da fazenda, deputado em diversas legislaturas, sub-inspector do tesouro publico, vice-presidente da Junta do Porto, sócio honorário da Academia de Belas Artes, etc. N. na freguesia de S. Martinho de Guifões, concelho de Bouças, distrito do Porto, a 18 de Novembro de 1800, fal. no Porto a 12 de Novembro de 1863. Era filho de Manuel da Silva Passos, lavrador, e de sua mulher, D. Antónia Maria da Silva Passos.

Com seu irmão Manuel da Silva Passos foi para Coimbra, matriculando-se na Universidade em 1817, recebendo o grau de bacharel nas faculdades acima citadas. Estavam os dois irmãos em Coimbra quando rebentou a revolução de 1820, que ambos acolheram com entusiasmo. Nesta cidade fundaram então em 1823 um jornal intitulado O Amigo do Povo, que poucos números publicou, por causa da reacção desse mesmo ano de 1823. 
Partiram ambos os irmãos para o Porto, e sendo ali perseguidos pelo partido absolutista, viram-se obrigados a emigrar a Espanha, com mais outros perseguidos, formando eles a que então se denominou oposição constitucional, ou a esquerda dos emigrados. 
De Espanha passaram a Inglaterra; e dali para França. No exílio a vida dos dois irmãos, sempre tão unidos, completamente se confunde. Seguiram a mesma politica, em França colaboraram ambos em diversas publicações, combatendo não só os actos do governo de D. Miguel, como alguns excessos e doutrinas doutra facção, ou a direita dos emigrados. 

Voltando a Portugal, e conseguindo entrar no Porto, que estava sofrendo um rigoroso cerco, cingiu logo, e à pressa, a espada de oficial do batalhão nacional provisório de Santo Ovídio. 
Foi então que se acentuou a sua vida revolucionária, mostrando toda a bravura e intrepidez. Levantou-se o cerco, e estabelecendo-se o regime constitucional, elegeu-se a primeira câmara municipal do Porto, e para seu presidente foi eleito José da Silva Passos. 
Nessa qualidade resistiu energicamente à lei de indemnizações de 15 de Agosto de 1833, que seu irmão depois combateu na câmara. Um e outro defendiam assim generosamente a causa dos vencidos, e levantavam bem alto a bandeira da verdadeira liberdade. 
Corria o ano de 1834; a efervescência dos partidos proclamava os seus eleitos para as cortes que iam inaugurar, à luz dos novos princípios, a representação nacional. José de Passos não podia deixar de ser dos primeiros entre os escolhidos, e a província do Douro o elegeu. Tomando assento na câmara ao lado de seu irmão, falaram ambos pela mesma voz contra a regência de D. Pedro, e protestaram com a mesma palavra generosa contra as indemnizações que humilhavam a causa vencida. Reeleito na legislatura seguinte, aderiu à revolução de Setembro; profundamente conhecedor dos negócios de administração, deu um contingente valioso para a redacção do código administrativo de 31 de Dezembro de 1834, de que foi o principal autor. 

Voltando à câmara fazendo parte das cortes constituintes, e nomeado membro da comissão da lei eleitoral, cooperou eficazmente para a constituição de 20 de Março e para a lei das eleições directas de 9 de Abril do ano de 1838. Decididamente empenhado em contribuir com toda a sua esclarecida actividade para o engrandecimento da causa publica, exerceu os cargos de sub secretario de estado dos negócios da fazenda, quando seu irmão era ministro, e de sub-inspector do tesouro, sem que por esse ou outro cargo aceitasse retribuição, como jamais a aceitou em troca dos relevantes serviços que prestou ao país. 

Depois de seu irmão ter saído do poder, foi José Passos muitas vezes convidado para fazer parte de novos ministérios que se organizaram, o que ele recusou sempre, apesar das instâncias da própria rainha D. Maria II. Sublevadas em 1837 as províncias do norte pelos dois marechais, Saldanha e Terceira, o governo nomeou José Passos e o visconde de Sá da Bandeira, para a difícil missão de irem restabelecera ordem. José Passos encarregou-se da parte financeira da missão, com que o serviço público muito lucrou. Depois da queda da constituição de 1838, e da restauração da Carta em 27 de Janeiro de 1842, José Passos, que era verdadeiramente odiado pelos cartistas por causa da sua infatigável actividade e dos serviços que prestara à revolução de Setembro, foi espancado e arrastado pelas ruas. Suspensas as garantias em 1844, José Passos foi preso duas vezes sem haver motivos para isso, porque não só não entrara em conspirações, mas até reprovava publicamente as revoltas, enquanto fosse possível recorrer aos meios constitucionais. 

Quando rebentou a revolução de 6 de Maio de 1846, José Passos tornou a ser eleito presidente da câmara municipal do Porto, e exercia esse cargo, quando se deu em Lisboa o golpe de Estado, conhecido pela Emboscada de 6 de Outubro, para a restauração da Carta Constitucional. O administrador de Vila Franca comunicou a notícia para o Porto; a cidade ficou inquieta, mas ainda duvidosa, e só no dia 9 do citado mes de Outubro, foi que teve a absoluta certeza do que se passara. Então José Passos, com uma energia assombrosa, dirigiu-se ao segundo comandante da guarda municipal Montenegro, chamou-o aos interesses da causa liberal, fez com que a guarda se pronunciasse, mandou tocar os sinos a rebate, disse a todos quantos encontrava no caminho que se resistia ao golpe de Estado, e que se não consentia que o duque da Terceira exercesse as funções de lugar-tenente da rainha nas províncias do norte, e depois de ter obtido a adesão do regimento de artilharia n.º 3 e do de infantaria n.º 6, dirigiu-se ao palácio do governo civil onde estava o duque da Terceira, e pediu-lhe urbanamente que se considerasse preso. O duque, sabendo que toda a guarnição do Porto estava pronunciada no sentido revolucionário, e que não tinha por conseguinte meio algum de resistência, aceitou tranquilamente a sua situação, que não deixava de ser perigosa, porque o povo exaltado ameaçara tirar vingança no duque do procedimento do governo de Lisboa. José Passos colocou-se então ao lado do duque, declarando que respondia com a sua vida pela vida dele. O povo exigia que o duque fosse preso para o castelo da Foz, José Passos desejava que ele reembarcasse para Lisboa, mas não aparecia barco nem escaler, e o duque foi o primeiro a reconhecer que se não podia seguir outro caminho senão o que o povo exigia, e nesse mesmo dia 9 de Outubro se recolheu ao castelo da Foz. No dia seguinte o governador civil interino, António Xavier de Barros Corte Real, propôs à câmara a nomeação duma junta provisória do governo, junta que ficou assim organizada: presidente, conde das Antas; vice-presidente, José da Silva Passos; vogais: António Dias de Oliveira, Sebastião de Almeida e Brito, Justino Ferreira Pinto Basto, conde de Resende, barão de Lordelo, António Luís de Seabra, Francisco de Paula Lobo de Ávila. Organizaram-se logo outras juntas filiais em Guimarães, Barcelos, Viana do Castelo, Vila Real, Viseu, Castelo Branco, Guarda, Évora, Portalegre, Beja, Faro, Leiria, Santarém, Cascais, Palmela, Aveiro, Coimbra, Oliveira de Azeméis, Funchal, S. Miguel e Terceira. 
Organizado o governo da junta, José Passos encarregou-se das pastas da fazenda e da dos negócios estrangeiros, mas era ele verdadeiramente a alma da junta, e a ele se devem quase todos os prodígios que a junta operou. 
Os portuenses faziam todos os sacrifícios que se lhes pediam, quando José Passos lhes chamava patriotas, e lhes falava no bem da nação. Verdadeiro presidente da junta, porque o conde das Antas dirigia as operações militares, José da Silva Passos não hesitou diante das mais graves responsabilidades. Foi preciso levantar alguns empréstimos forçados, era sempre José Passos quem ia aos bancos, ás companhias ou só ou acompanhado por Justino Pinto Basto exigir o que era indispensável. 
Foram pequeníssimos os recursos levantados por esse meio, e contudo a junta levantou e teve em armas um exército numeroso, equipou uma pequena esquadra quase sem ter recursos tributários. Demais, muito infeliz militarmente, a junta precisava a cada instante estar reparando os seus desastres. O visconde de Sá da Bandeira, vencido em Valpaços, via passar ao inimigo dois dos seus melhores regimentos, e perdia um grande número de prisioneiros. Depois caiu em Torres Vedras prisioneira uma divisão toda de 4.000 homens, comandada pelo conde de Bonfim. As províncias do Minho e Trás-os-Montes, donde a junta do Porto podia tirar mais recursos, estavam também no poder do inimigo. Pois apesar disso, José Passos soube sempre apresentar a Francisco de Paula Lobo de Ávila, ministro da guerra, os recursos necessários para ele pôr em campo forças consideráveis. Como ministro dos negócios estrangeiros prestou também muitos serviços, protestando energicamente contra o procedimento do comandante do cruzeiro inglês, que aprisionou em 31 de Maio a esquadra, que saíra do Porto deixando o conde das Antas com uma nova expedição; votou pela rejeição dos quatro artigos do Protocolo, na sessão de 5 de Junho do mesmo ano. 
Este golpe foi mortal e decisivo. Desde o momento que a Espanha e a Inglaterra se tinham resolvido a intervir, em cumprimento do tratado da quádrupla aliança a causa estava imediatamente perdida. Apesar disso, José Passos infundia confiança em toda a gente, e ainda levava os patriotas do Porto a empreender qualquer acção heróica. Quase à vista do exército espanhol, comandado por Concha, repeliram as tropas da junta as avançadas de Saldanha, mas tudo isso era inútil, a junta estava condenada a entrar em negociações, e o convénio de Gramido assinado da parte da junta pelo marquês de Loulé e César de Vasconcelos a 29 de Junho de 1847, e pela parte dos ingleses e espanhóis pelo general D. Manuel de la Concha, W. Wylde e Buenage, pôs termo a essa revolução, que durante 9 meses dominou em todo o norte do país e assoberbou, apesar de sucessivos desastres militares, o poder e a guarnição do governo do reino. 
Pois fora José Passos quem fizera a revolução, tudo se devia à sua energia e à sua actividade. Terminada a luta, José Passos voluntariamente, como seu irmão, retirou-se entregando-se tranquilamente aos seus trabalhos e aos seus negócios, rodeado sempre da estima dos seus concidadãos e da maior popularidade. 

Em Abril de 1851, quando o duque de Saldanha fez o seu pronunciamento, e desanimado por não encontrar no exercito a adesão que esperava, já se refugiara na Galiza, José Passos pôs-se em movimento, escreveu-lhe para que viesse ao Porto, dispôs os espíritos para se lhe preparar uma recepção condigna, e para o acompanharem no movimento que empreendia. 
Foi José Passos um dos que mais contribuíram para o êxito da Regeneração. Eleito deputado pela primeira vez, conservou-se, como seu irmão, muito afastado das lutas parlamentares. 
A sua saúde estava profundamente abalada, e por efeito de paralisia agravou-se-lhe de ano para ano, apagando-lhe a razão. Faleceu obscuramente. Foi casado com D. Ana Margarida Soares da Silva Passos.  »



18.5.13

Rua DUQUE DE SALDANHA

2013_090


Para saber mais sobre João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun pode ir até à Wikipédia.

Não há qualquer dúvida, foi uma personagem muito amada pelos portuenses daí ter dado o seu nome a duas artérias da cidade! Creio que foi e é um caso único.

A outra rua é esta.




12.10.12

Espaldão Militar


ervilha 01

Após uma tentativa infrutífera ali nos malfadados baldios para os lados da futura avenida D. Pedro IV, para além da escola Francisco Torrinha, cheguei a casa, abri os livros – entre os quais o “Cavaleiro Azul” - desdobrei os mapas, consultei a internet e preparei uma nova expedição e tentativa para encontrar o “forte da Ervilha”.

Aproximei-me calmamente por entre moradias para venda que ainda cheiravam a reboco fresco. Interroguei um cidadão que passeando o cão me respondeu, admirado pela minha ousadia, que não era dali, que não conhecia.

Não sendo um geek e recusando (recusava na altura) o uso do GPS, meti-me a caminho no meio de um inóspito pinhal com um trilho sinuoso e com acentuado declive.

Nesse dia tive sorte! No pinhal havia mais gente do que ao domingo em qualquer rua do portuense bairro de Hollywood. Um adolescente que devia estrear a sua nova trial mas que não me via e não me ouvia por causa de um capacete que não o isolava do basqueiro da máquina. Mais longe, uma senhora que carregava um saco (que há uns anos teria sido de serapilheira) e que procurava algo no chão.

Ervilha 02

Foi a minha salvação! Ao fim de algumas tentativas para entrar em diálogo com ela, depois de ela me ter contado três quartos das maleitas que a aborreciam e dos males do cônjuge, lá me contou que apanhava pinhas para uma senhora que lhas comprava aos sacos para acender a lareira familiar. Enquanto ela falava o sol ia aproximando-se do mar e a minha companheira de expedição tentava esconder os bocejos.
A senhora acabou por confessar que não sabia, nunca tinha ouvido falar. A não ser que fossem as pedras que estavam ali em cima, no meio do lixo, junto a um buraco. Mas que ela nunca ia para ali pois não havia pinhas.

Os mapas que eu tinha consultado não datavam da Patuleia nem da Maria Cachucha mas também não tinham os novos arruamentos, fiei-me nas indicações da autóctone. Nem afirmavam que se situava em Nevogilde ou em Aldoar, da Foz não era de certeza!

Tirei umas fotos. Foi o que consegui nesse dia. Penso que é isto o que resta do Espaldão da Ervilha, do que já foi uma das defesas da cidade.



Ervilha 03


Para saber mais sobre este assunto, mais uma vez remeto para a Wikipédia...

Ervilha 04


24.9.12

Rua CONDE DE CASTRO

030912

Fiquei intrigado em encontrar esta rua de Conde num sítio tão afastado do centro da cidade, por isso aqui vai um pouco da biografia do mesmo:


<José Joaquim Gomes de Castro. Nasceu a 13 de Dezembro de 1794 no Porto e faleceu em Lisboa a 8 de Outubro de 1878. 
Visconde (desde 23 de Dezembro de 1848) e 1º Conde de Castro  (desde 1862). Negociante. Maçon.

Perseguido pelo miguelismo. Desembarca com D. Pedro. 
Par do reino desde 26 de Dezembro de 1844.

Ministro dos negócios estrangeiros em 1842-46 e 1848-1849, enquanto cabralista. 
Acusado de alta-traição em Novembro de 1836.

Ministro dos negócios estrangeiros no governo cartista de Terceira, desde 14 de Setembro de 1842, até 20 de Maio de 1846 e de 29 de Março de 1848 a 18 de Junho de 1849. 
Assume-se como um dos líderes do partido cabralista logo após 1851.

Ministro dos negócios estrangeiros e das obras públicas, comércio e indústria de 4 de Setembro de 1865 a 9 de Maio de 1866, no governo da fusão, enquanto regenerador.>
dados recolhidos na página de José Adelino Maltês



13.11.08

Rua VITORINO DAMÁSIO

12|11|08


Fotografia publicada e localizada no Flickr




Sabe quem foi Vitorino Damásio?


«José Vitorino Damásio (Santa Maria da Feira, 2 de Novembro de 1807 - Lisboa, 19 de Outubro de 1875) foi engenheiro, professor da Academia Politécnica do Porto, director do Instituto Industrial de Lisboa e fundador da Associação Industrial Portuense, hoje Associação Empresarial de Portugal, em Portugal.

Nascido na, então, Vila da Feira, José Vitorino Damásio formou-se como bacharel na Universidade de Coimbra em Filosofia e Matemática.

Durante as Guerras Liberais, combateu contra D. Miguel, chegando a general de brigada e sendo condecorado com a Torre e Espada pelo seu comportamento durante o Cerco do Porto.

Foi lente da Academia Politécnica do Porto e engenheiro-director das Obras Públicas do distrito, onde, entre outras obras, se encarregou da construção da estrada do Alto da Bandeira aos Carvalhos, empregando ali o sistema de cilindragem concebido pelo engenheiro francês Antoine-Rémy Polonceau, que era desconhecido em Portugal.

Vitorino Damásio fundou, com Faria Guimarães, a Fundição do Bolhão, introduzindo a indústria do fabrico da louça de ferro fundido esmaltada e estanhada a banho. Em Lisboa foi reitor do Instituto Industrial, antepassado do actual Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, director da Companhia das Águas, empresa que veio dar origem à EPAL, e director-geral dos Telégrafos, actual CTT.

Em 1849, Vitorino Damásio encabeçou um movimento que levou à criação da Associação Industrial Portuense, hoje Associação Empresarial de Portugal, da qual foi, mais tarde, o seu terceiro presidente.»

Artigo publicado na Wikipédia


Pode ver mais sobre Vitorino Damásio no Dicionário Histórico.


No número 120 desta rua situa-se a "Casa Aristides Ribeiro" cujo projecto é da autoria de Viana de Lima.



26.9.08

A Quinta do Covelo no tempo do Cerco


Acabo de constatar, com alguma alegria e justificada satisfação, naturalmente (é sempre bom saber que ainda há quem se interesse pela história desta cidade), que a maior parte da correspondência, e-mails, mensagens e telefonemas que recebo, por causa destas crónicas portuenses, provêm de gente moça que anda a fazer trabalhos académicos sobre o Porto.

Como é o caso da pergunta que me foi dirigida por um estudante do Secundário e que deu origem à presente crónica. A questão formulada foi a seguinte "… que batalha foi a que destruiu a casa e a capela da Quinta do Covelo ?". Comecemos pela história da propriedade.

No século XVIII, aí por 1720, a quinta, então chamada do Lindo Vale ou da Boa Vista, pertencia a um fidalgo chamado Pais de Andrade. Pela morte deste passou, por herança, para duas filhas que a venderam a um negociante chamado Manuel José do Covelo. A partir daqui fica-se a saber por que é que a quinta se passou a chamar do Covelo. No século XIX há o registo de nova mudança de dono por 1829 ou 1830, a quinta foi vendida, pelos descendentes do Covelo, a Manuel Pereira da Rocha Paranhos e passou a ser conhecida, também, por Quinta do Paranhos. O Manuel José do Covelo foi sepultado num mausoléu de pedra no interior da capela que tinha Santo António como padroeiro. O que resta dessa grande propriedade pertence, hoje, à Câmara do Porto que ali instalou um parque público. A casa e a capela, um belíssimo conjunto da Arquitectura setecentista, foram incendiadas e destruídas, em 16 de Setembro de 1832, na sequência de combates entre liberais e miguelistas, ocorridos durante o Cerco do Porto.

Logo a seguir à entrada no Porto do Exército Liberal, a 9 de Julho de 1832, os miguelistas trataram de montar, a partir do que, então, eram considerados os arrabaldes da cidade, um apertado cerco aos sitiados. Nesse sentido , criaram posições ofensivas em sítios de onde mais facilmente, através das suas peças de artilharia, lhes fosse possível atingir o centro da cidade e, ao mesmo tempo, impedir o reabastecimento das tropas liberais e dos próprios civis.

O alto do Covelo, a que popularmente se chamava "o monte", foi considerado pelas tropas absolutistas como o sítio ideal para montar a artilharia que havia de metralhar o centro do Porto e vigiar as movimentações de civis no sentido de impedir, por exemplo, que os lavradores de Paranhos introduzissem na cidade mantimentos e outros viveres através da estrada da Cruz das Regateiras. E com estes propósitos criaram uma autêntica fortificação na Quinta do Covelo.

Só que os liberais não ficaram quedos. Consta que por iniciativa do próprio D. Pedro IV as tropas constitucionais resolveram, em 16 de Setembro de 1832, desalojar os miguelistas do reduto do Covelo, a fim de ficarem com o controlo daquela zona, de grande importância estratégica para os combates que estavam para vir. Os objectivos dos liberais foram conseguidos. Uma força de "mais de 1400 baionetas", além de terem escorraçado os miguelistas, a quem causaram inúmeras baixas, ainda arrasaram fortificações e destruíram baterias e canhoneiras.

Mas por muito pouco tempo os soldados de D. Pedro lograram manter as posições que haviam conquistado. Os absolutistas contra atacaram, em Março de 1833, e conseguiram, depois de renhidos combates, com enormes perdas para as duas partes, retomar as posições que pouco antes haviam perdido. De imediato iniciaram a construção de "defesas do monte" erguendo ao redor estacadas ou paliçadas com o que pretendiam ocultar os trabalhos de fortificação que andavam a fazer. E os liberais? Que fizeram ?

Voltaram ao ataque. Numa das digressões que diariamente fazia aos locais onde o perigo mais se fazia sentir, D. Pedro passou pela Aguardente (actual Praça do Marquês de Pombal) e apercebeu-se do perigo que constituía para a sua causa o facto de os miguelistas terem retomado o Covelo e providenciou para aquela posição voltasse a ser ocupada pelos liberais. Isso aconteceu a 9 de Abril de 1833. E a delicada e arriscada tarefa foi confiada ao coronel José Joaquim Pacheco que, mais tarde, viria a morrer, em combate, na Areosa. A cidade, agradecida, deu o seu nome à antiga Praça do Mirante que é hoje a Praça do Coronel Pacheco. Uma crónica da época refere esta segunda tomada do Covelo pelos liberais, da seguinte forma "… a 7 de Abril descobriu-se a longa estacada feita pelos miguelistas desde as primeiras casas de Paranhos até às eiras do Covelo. Queriam fortificar-se ali. Não havia tempo a perder. Era preciso desalojá-los. A artilharia dos liberais começou a responder desde as primeiras horas da manhã do dia 9 e durou o fogo até ás seis da tarde. Cruzaram-se os fogos das baterias da Glória (Lapa), do Pico das Medalhas (Monte Pedral), do Sério (alto da Lapa), da Aguardente (Marquês de Pombal) e de S. Brás. Uma força de mil homens saiu fora das linhas parta tomar de assalto o monte do Covelo. Mas no dia seguinte (10 de Abril) os absolutistas voltaram com o intuito de retomarem as posições perdidas e onde os liberais haviam levantado um reduto em menos de oito horas. Estavam lá dentro apenas 200 soldados. Foram atacados por mais de 2000 do inimigo. Foram momentos decisivos. Duzentos homens livres conseguiram pôr em fuga 2000 do inimigo…"

Germano Silva



29.8.08

Rua GENERAL SILVEIRA

23|08|08


Antes de 1941 esta rua tinha o nome de Coronel Pacheco.

Mas quem foi o General Silveira?


Como de costume, fui passear pela página do Professor José Adelino Maltez, eis o que ele nos diz:

"António da Silveira Pinto da Fonseca Teixeira, Visconde de Canelas.

Brigadeiro, irmão do 2º conde de Amarante. Ligado ao Sinédrio é um dos revolucionários vintistas. Presidente da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, surgida no Porto em 24 de Agosto de 1820. Vice-presidente da junta unificada surgida em Alcobaça, em 27 de Setembro de 1820. Implicado na martinhada de 11 de Novembro de 1820. Adere ao partido rainhista depois de 1823. Membro da junta revoltosa de Vila Real em 23 de Fevereiro de 1823. Era embaixador em Madrid, por ocasião da vilafrancada."

E encontrei mais em "O Portal da História" que está de novo disponível, após uma ausência de algum tempo.

"António da Silveira Pinto da Fonseca Coelho, (1.º visconde de Canelas).

n. 1 de Maio de 1770.
f. 18 de Outubro de 1858.


Fidalgo cavaleiro da Casa Real, acrescentado a fidalgo escudeiro, comendador da ordem de Cristo; condecorado com a medalha por 4 campanhas da guerra peninsular; grã-cruz da ordem de Carlos III, de Espanha, brigadeiro das antigas milícias.

N. a 1 de Maio de 1770, fal. na vila de Canelas a 18 de Outubro de 1858.

Foi presidente da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, que se organizou na cidade do Porto em 24 de Agosto de 1820, e eficaz cooperador daquela revolução que estabeleceu o regime constitucional. Casou em primeiras núpcias a 19 de Agosto de 1793 com D. Maria Amália Pamplona Barreto de Miranda, filha de José Pamplona Carneiro Rangel Baldaia de Toar, moço fidalgo da Casa Real, acrescentado a fidalgo escudeiro pelo alvará de 7 de Julho de 1758, 11.º senhor da Casa de Beire, padroeiro abacial de Santo André do Sobrado;. cavaleiro da ordem de S. João de Jerusalém, e de sua mulher, D. Antónia Inácia Veloso Barreto de Miranda Correia de Araújo, senhora do morgado de Cabeda, em Vilar da Maçada. Enviuvando em 1837, passou a segundas núpcias a 7 de Fevereiro de 1839 com Ana Josefina Gallien de Chabons, filha dos viscondes de Chabons, fidalgos franceses. 0 título de visconde de Canelas foi concedido por D. João VI, em decreto de 3 de Julho, e carta de 23 de Novembro de 1823.


Transcrito por Manuel Amaral "

E como se falava de Sinédrio e do 24 de Agosto de 1820, tive que ir ler algumas notas que há uns meses o Jorge Rodrigues me disponibilizoue que aqui transcrevo:

"SINÉDRIO - Grupo, que foi crescendo ao longo dos anos, de 13 personalidades civis, que preparou a Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820. Um dos membros; o fidalgo da Casa Real, do Conselho de S. M. Fidelíssima, provedor de Viana, desembargador da Relação do Porto (1850), Dr. José Maria Xavier de Araújo de Arcos de Val-de-Vez nasceu em 1786, filho de um desembargador, futuro autor, em 1846, de Revelações e Memórias para a História da Revolução de 24 de Agosto de 1820, e de 15 de Setembro do mesmo ano. Outro membro Manuel Fernandes Tomás,(1), desembargador da Relação do Porto, que vivia neste cidade em 1817 e convivia muito com dois amigos, José Ferreira Borges, (2), advogado da Relação e secretário da Companhia dos Vinhos e José da Silva Carvalho, (3), juiz dos Órfãos do Porto. Numa noite de Janeiro de 1818, estes três, com outro amigo o comerciante João Ferreira Viana, (4), redigiram os estatutos de uma sociedade a que chamaram Sinédrio. “Observar a opinião pública e a marcha dos acontecimentos; vigiar as notícias da vizinha Espanha; reunir-se no dia 22 de cada mês em um jantar na Foz, onde se daria parte dos sucessos acontecidos no mês passado e do que conviria fazer no futuro; guardar a maior lealdade uns para com os outros, e o mais inviolável segredo para com estranhos; que, se rompesse um movimento anárquico ou uma revolução, os membros do Sinédrio se combinariam para aparecer a conduzi-la para bem do país e da sua liberdade, guardada sempre a devida fidelidade à dinastia da Casa de Bragança.” Durante os anos de 1818 e 19 o número de membros foi aumentando. Foram então admitidos Duarte Lessa (5), José Pereira de Meneses (6), Francisco Gomes da Silva (7), João da Cunha Sotomaior (8), José Maria Lopes Carneiro (9), José Gonçalves dos Santos Silva (10). Em princípios de 1820 o Sinédrio ganhou alento com as notícias da sublevação da Galiza e a proclamação da Constituição de Cadiz à qual Fernando VII faz juramento. Entretanto já se tinham ganho um grande número de simpatizantes da causa entre os militares, responsáveis de milícias e poderosos regionais, entre estes António da Silveira Pinto da Fonseca que desconhecia a existência do Sinédrio mas que prometeu a adesão da sua família poderosa na província de Trás-os-Montes, do Coronel Cabreira comandante da artilharia do Porto. Em Janeiro de 1820 chega ao Porto Xavier de Araújo (11) que contava numerosas relações no Minho e foi admitido no Sinédrio, em Junho. A Revolução estava decidida para o dia 29 de Julho. O atraso foi devido ao facto do Coronel Cabreira ter recebido ordens do ministro da Guerra de enviar um destacamento da sua artilharia para Peniche. Julgou-se denunciado e traído, e deu parte do sucedido a António da Silveira, que por sua vez comunicou a João da Cunha e este ao Sinédrio, que encarregou o tenente-coronel Gil do Regimento de Infantaria 6 de ir entender-se com Cabreira. Cabreira recebeu muito mal este emissário, fingindo ignorar tudo o que se passava e respondendo que expusesse as circunstâncias por ofício. Gil saiu do encontro desesperado, recusando-se a tratar “com semelhante homem”. João da Cunha pode finalmente levá-los à boa razão. Fernandes Tomás entretanto tinha fugido para as Caldas das Taipas (Entre Braga e Guimarães, Póvoa de Lanhoso) onde Xavier de Araújo o encontrou: —”achei-o em um aposento escuro e cuidadosamente fechado: Meu amigo, me disse ele, vem-me achar no segredo! A nossa revolução malogrou-se no Porto. Os chefes militares tomaram-se de razões uns com os outros, e é provável que a esta hora estejamos descobertos e denunciados! Eu tenho horror aos segredos das prisões; por isso e, para me acostumar ao que é provável nos aconteça, já me fecho todos os dias três ou quatro horas neste aposento escuro, para não estranhar depois”. Nos fins de Junho já tudo estava arranjado. Em Julho Fernandes Tomás regressou ao Porto, convocou o Sinédrio, expondo-lhe a necessidade de ir a Lisboa entender-se com os amigos e observar a situação na capital. Partiu em fins do mês, e lá se demorou uma semana, gastando mais duas nas viagens de ida e volta. Entretanto, e na ausência de Fernandes Tomás, esteve no Porto, caminho de Ponte do Lima, sua terra, o Dr. Fr. Francisco de S. Luís, o eruditíssimo beneditino que seria mais tarde bispo-conde e cardeal patriarca de Lisboa. Escusou-se de entrar no Sinédrio, mas ofereceu toda a sua ajuda para a revolução que se projectava. Prometeu e conseguiu, a adesão do coronel Barros que comandava as forças do Minho, o qual se recusara pouco antes a Xavier de Araújo. A 16 de Agosto chegava ao Porto o coronel Bernardo Correia de Castro e Sepúlveda (13), e logo no dia 18 era admitido no Sinédrio, de que foi o 13º e último membro do Senado e também o único militar. Assinalou-se então o dia 24 de Agosto para início da revolução. Três dias antes Fernandes Tomás e António da Silveira (12) encontraram-se em casa do primeiro para apreciar o manifesto que este redigira, e logo Silveira reprovou, apresentando outro que trazia pronto no bolso: segundo ele, seria formado um conselho militar pelos coronéis dos vários corpos da guarnição do Porto. “Este conselho convocaria a Câmara Municipal que, ouvindo o povo, e consultando-o, lhe proporia os nomes daqueles que deviam formar uma Junta do Governo, a qual se chamaria Junta de Braganções, e seria a sua única tarefa a de fazer uma representação ao Rei, para que remediasse os males da pátria e voltasse a Portugal.” Este Silveira era um grande notável da província de Trás-os-Montes. Devia ser amigo do coronel Cabreira com quem este contactou logo que se pensou traído para logo se dar início à revolução. Personificam uma visão retrógrada da revolução. “Toda a eloquência de Fernandes Tomás foi inútil contra obstinação do Silveira; e rompeu-se a conferência. Pelo que se segue parece que o Silveira não fazia parte do Sinédrio e até desconhecia a sua existência. ”Em consequência Fernandes Tomás convocou o Sinédrio e a todos dizia: “É escusado querer convencer o Silveira, ninguém é capaz de o trazer à razão.” Sepúlveda que assistia à discussão com toda a calma, levantou-se então e desembainhando a espada, disse: —”Eu não venho aqui para disputas; venho só para tratar dos meios e do dia da revolução! É preciso convencer Silveira por todos os modos, e me ofereço para isso, acompanhado de dois do Sinédrio que me queiram seguir”. Ofereceram-se para tal Ferreira Borges e João da Cunha Sotomaior. Depois de obstinada disputa Silveira foi convencido a ouvir ler o manifesto que Ferreira Borges levava já redigido, em substituição do de Fernandes Tomás. Terminada a leitura, Silveira disse que sim, que assinaria. Ficando de acordo, e designado o dia 24 para a revolução, na véspera juntaram-se todos os membros do Sinédrio, em casa de Ferreira Borges para redigirem as proclamações e as cartas dirigidas às várias autoridades. Tudo se fez no maior segredo: “Nenhuma das autoridades do Porto - escreve Xavier de Araújo - estava no segredo da revolução; só o velho general Canavarro foi instruído dela, no dia 22, por Sepúlveda, e disse o seguinte: — não me oporei, porém também não entrarei, porque não quero atraiçoar o governo que sirvo”. Os membros do Sinédrio contavam com 5 regimentos de infantaria, 3 de caçadores, 1 de artilharia; o Corpo da Polícia do Porto; as milícias da Maia, de Vila da Feira e Porto; e toda a força de linha de Trás-os-Montes, que comandava Gaspar Teixeira de Magalhães e Lacerda."


4.8.08

Rua da REGENERAÇÃO

02|08|08

Fotografia localizada no Flickr


O nome desta artéria alude ao triunfo das tropas liberais, depois de 1820.

Já teve o nome de Rua de Germalde.

Nesta rua existe a "Livraria Utopia" - misto de alfarrabista e de livraria paralela.



24.4.08

Rua LUZ SORIANO

26|04|08

Fotografia publicada no Flickr, para ver a localização clique aqui.



Quem foi Luz Soriano?

Simão José da Luz Soriano
(1802-1891)

Participa nas guerras liberais.
Exilado desde 1828, passou à Terceira em 1829. Redactor de Crónica da Terceira, em 1830.
Mindeleiro.
Colaborador de Sá da Bandeira. Deputado por Angola em 1853.
Memorialista e historiador da guerra civil.

·História do Cerco do Porto

1846.

·Utopias desmascaradas do systema liberal em Portugal ou Epitome do que entre nós tem sido este sistema

Lisboa, 1858.

·Revelações da minha vida e memórias de alguns factos e homens meus contemporâneos

Lisboa, 1860 (2ª ed., Porto, 1891).

·História da Guerra civil e do estabelecimento ddo governo parlamentar em Portugal

19 tomos, Lisboa, 1886-1890.



Projecto CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia. © José Adelino Maltez.



26.3.08

Praça NOVE DE ABRIL

jardim

Fotografia localizada no Flickr

Mas eu, como muitos portuenses, continuo a dar o nome de Jardim da Arca d'Àgua.

Para ler mais sobre o "9 de Abril de 1918" ver aqui.


"Para sabermos um pouco mais sobre esta praça, podemos recorrer ao que sobre ela escreveu Luís Miguel Queirós, no Público de 13 de Fevereiro de 1994:

«Em 1865, a imprensa da Universidade de Coimbra dava a lume um opúsculo intitulado "Bom-senso e Bom-gosto: Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho". Antero de Quental, o autor da missiva respondia a dobrar às ironias que o patriarca das hostes ultra-românticas, o velho Castilho, ousara endereçar-lhe num posfácio que redigira para o "Poema da Mocidade", do então jovem escritor Pinheiro Chagas. Esta inofensiva troca de sarcasmos serviu de faúlha para acender uma violenta polémica, que envolveu boa parte das principais figuras literárias da segunda metade do século XIX.

Camilo foi um dos saiu a terreiro a defender o poeta cego. E Ramalho Ortigão, que mais tarde se integraria plenamente na chamada Geração de 70, talvez influenciado pelo facto de ter tido Castilho como professor de Grego e Humanidades, não lhe regateou também a sua pena-e o seu braço, como veremos...-,repreendendo duramente Antero no seu "Literatura de Hoje". A ramalhal figura foi mesmo ao ponto de publicamente crismar de covarde o poeta das "Odes Modernas". Antero não gostou. E a coisa esteve para se resolver numa trivial pancadaria de rua. Mas chegado ao porto para se esclarecer com Ramalho, Antero deu de caras com Camilo, que o persuadiu a desistir da cena de rua em favor de um duelo "comme il faut". Ramalho foi pois convidado a escolher as armas e optou pela espada, que manejava com reconhecida destreza. Antero, por seu turno, dirigiu-se a uma sala de esgrima para se inteirar das regras básicas da modalidade. Na manhã de 6 de Fevereiro 1866, paravam dois coches no
largo da Arca d'Água. Apearam-se contendores e testemunhas e logo se deu início ao duelo. Foi uma coisa rápida, e pouco depois as viaturas voltavam a partir, levando, uma delas, um Ramalho combalido e de braço ao peito, a outra o impetuoso Antero, que não sofrera a mínima beliscadura.
Quando serviu de cenário à resolução da célebre pendência, a Arca d'Água pouco mais era do que um descampado, ainda que o grande manancial de água de Paranhos conferisse ao local, desde tempos medievais, assinalável importância na vida do burgo.
O seu topónimo secular-na carta de couto que a rainha D.ª Teresa outorgou em 1120 ao bispo D.Hugo mencionam-se já duas "arcas", supondo-se que esta seria uma delas- deriva do lençol de água que corre sob o actual jardim. Sabe-se que no século XVI ali existiam três fontes, justificando que em documentos antigos surja a denominação "Arca das Três Fontes", e que no reinado de Filipe I se levou a água de Paranhos, através de condutas de granito, aos vários chafarizes da cidade.
O belo jardim que hoje embeleza este local, outrora praticamente deserto, transformou a Arca d'Água num dos largos mais aprazíveis do Porto. E os que nele habitam, ou nas suas imediações, prezam tanto o seu tranquilo reduto que recentemente se insurgiram contra a utilização do jardim como palco de uma festa popular, que ali se realiza anualmente. Mas temos vindo a falar do jardim de Arca d'Água e esquecemo-nos de mencionar que, na verdade, não se chama hoje assim.
O seu nome oficial é Praça de Nove de Abril, designação que, segundo já vimos escrito, recordaria um dos combates que, durante as lutas liberais, opuseram os partidários de D. Pedro aos absolutistas fiéis a D.Miguel. De facto, o Covelo fica ali perto e a sua tomada pelas tropas liberais, o fim da tarde do dia 9 de Abril de 1833, constituiu um gravíssimo revés para o exército miguelista. No entanto, a generalidade dos autores que têm tratado a toponímia portuense defende que a data evocada é antes a da batalha de La Lys. Travada na Flandres a 9 de Abril de 1918, nela participaram, como se sabe, forças portuguesas que, ao lado das tropas britânicas, defrontaram nos campos da Flandres, entre Armentières e o canal de La Bassée, o 6.º Exército germânico comandado por Von Quast. Os alemães não venceram a guerra, mas ganharam esta batalha, na qual perderam a vida muitos soldados portugueses. Pudemos apurar que a praça recebeu o seu nome actual no dia 6 de Abril 1922, data que, sendo posterior a 1918, não elimina nenhuma das duas hipóteses aventadas, embora, dada a proximidade cronológica, pareça reforçar a segunda. Até essa data, os mapas registam ainda a velha denominação de Largo da Arca d'Água. Registe-se que, nas proximidades da praça, e na direcção oposta ao Covelo, existem ainda uma rua e uma travessa de Nove de Abril. Em relação à primeira, sabemos apenas que a designação constava já de um guia do Porto de 1933.

Resultaram vãs as tentativas de aclarar esta incógnita junto da Comissão de Toponímia da Câmara Municipal e do Arquivo Histórico do Porto. Dado que a mudança de nome ocorreu já neste século, é de crer que a decisão tenha ficado registada e que o respectivo documento, decerto consultável, justifique a atribuição do novo topónimo. Mas os responsáveis autárquicos por este sector afirmam não possuir "registos tão antigos" e ignoram onde estes possam ser consultados. Em todo o caso, aos portuenses tanto se lhes dá que a Praça de Nove Abril evoque a batalha do Covelo ou a de La Lys. É que continuam a chamar-lhe, simplesmente, Arca d'Água. E sendo o nome tão antigo e tão apropriado, por que carga de água-apetece perguntar-é que lhe haviam de chamar outra coisa?»"

Publicado no Blog "Paranhos"

lavadouro



20.3.08

Rua MARECHAL SALDANHA



Fotografia localizada aqui

Marechal Saldanha (João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun, 1.° conde, 1.° marquês e 1.° duque de). n. 17 de Novembro de 1790. f. 20 de Novembro de 1876. Político.
(Arquivo da Toponímia)


Sobre o Marechal Saldanha:

Saldanha (João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun, 1.° conde, 1.° marquês e 1.° duque de).

n. 17 de Novembro de 1790.
f. 20 de Novembro de 1876.

Marechal general do exército, par do reino, conselheiro de estado efectivo, presidente do conselho de ministros, ministro da guerra e ministro plenipotenciário em Londres, mordomo-mor da Casa Real, vogal do supremo conselho de justiça militar, etc. N. em Lisboa a 17 de Novembro de 1790, fal. em Londres a 20 de Novembro de 1876. Era 9.º filho do 1.º conde do Rio Maior, João Vicente de Saldanha Oliveira e Sousa Juzarte Figueira, e da condessa sua mulher, D. Maria Amália de Carvalho Daun, 3.ª filha dos 1.os marqueses de Pombal.

Matriculou-se na Academia Real de Marinha em 1805, fez um curso brilhante, tendo recebido distinção no 1.º ano lectivo, a sendo premiado no 2.° e 3.° A 28 de Setembro de 1805 assentou praça no regimento de infantaria n.º 1, comandado então pelo marquês de Alvito, foi reconhecido cadete, e a 24 de Junho de 1806 promovido a capitão, em virtude do decreto de 8 de Janeiro desse mesmo ano, pelo qual se determinava que os filhos militares dos conselheiros de Estado recebessem como 1.° posto o de capitão. Não tinha o agraciado ainda 16 anos completos. A 17 de Agosto de 1807 era promovido de capitão adido a capitão efectivo. Quando a família real se retirou para o Brasil em Novembro desse ano e o general Junot entrou em Portugal à frente das suas tropas, o jovem capitão Saldanha pediu a sua demissão, que a regência do reino lhe concedeu por decreto de 25 de Janeiro de 1808. Em 5 do mês de Fevereiro seguinte alistou-se intrepidamente num grupo de conspiradores que premeditavam arrancar a pátria ao domínio estrangeiro. Foi na 13.ª sessão dos conjurados que o capitão Saldanha se apresentou para colaborar na restauração da pátria, mas apenas se soltou o brado da independência, e um punhado de tropas portuguesas se foi juntar ao pequeno exercito inglês que desembarcara na baía de Lavos, Saldanha correu logo a juntar-se aos soldados que se agrupavam em torno do general Bernardim Freire de Andrade, e reintegrado no seu posto por decreto de 13 de Setembro de 1808, voltou a comandar a 8.ª companhia do regimento de infantaria n.º 1. Começou então a brilhante carreira militar de Saldanha. Contava somente 18 anos, e já conquistara o prestígio que sempre depois exerceu entre os soldados, tanto que foi escolhido pelo coronel para fazer entrar na ordem uma companhia insubordinada. Nomeado ajudante de campo do general Miranda Henriques, que estava em Tomar, estudou com afinco a táctica inglesa mandada adoptar por Beresford, e mostrando-se apto para comandar por essa táctica um regimento na presença do general, este promoveu-o a major por distinção a 9 de Dezembro de 1809, continuando a servir em infantaria n.º 1. Em 1810 distinguiu se notavelmente na batalha do Buçaco, improvisando uma coluna com duas companhias de infantaria n.º 1 e n.º 16, e repelindo intrepidamente os franceses. Na batalha de Salamanca em 22 de Julho de 1812, tornou se tão saliente que foi promovido a tenente-coronel em Setembro desse ano, sendo por ele preteridos 23 majores, alguns deles ingleses, o que prova a consideração em que era tido por Beresford e Wellington. Com o seu regimento, que fazia parte da brigada Park, entrou Saldanha no combate de Carrion a 25 de Setembro de 1812, na defesa da passagem de Tormes de 8 a 14 de Novembro, no combate de Muñoz a 27, na batalha de Vitoria a 21 de Junho de 1813, na tomada da aldeia de Viasayn a 24, na tomada de Tolosa, em Espanha, a 25, e nos assaltos à praça de S. Sebastião nos dias 25 de Julho e 31 de Agosto. Depois das batalhas dos Pirinéus, em que Saldanha tomou parte, o exército anglo-português entrou em França, e na batalha de Nive, a 13 de Dezembro de 1813, estreou-se Saldanha no comando do seu regimento. De tal forma se conduziu que Beresford o achou digno de lhe dar interinamente o comando duma brigada, composta dos regimentos nºs 12 e 21 e do batalhão de caçadores n.º 5. Tendo, porém, adoecido o general Hill, comandante doutra brigada, foi ela também entregue ao jovem tenente-coronel Saldanha, que assim, aos 23 anos de idade, era comandante duma divisão que formou a esquerda do corpo do exercito que cercou Baiona. Foi esta a admirável estreia de Saldanha, e os seus talentos e a sua bravura foram tão apreciados em Inglaterra, que, tendo recebido os comandantes dos regimentos que entraram na batalha de Nive, uma medalha comemorativa da vitória, a medalha que veio para Saldanha era especial.

Voltando com pouco mais de 23 anos ao país, João Carlos de Saldanha entrava na casa paterna com o posto de tenente-coronel, com as medalhas de ouro das 6 campanhas, as medalhas inglesas do Buçaco, de S. Sebastião e de Nive, as medalhas espanholas de Vitoria, S. Sebastião, Nive e Tolosa. Em boa conta o tinha o marechal Beresford, que foi o regimento que ele comandou, o primeiro escolhido para embarcar para a Bélgica, quando lorde Wellington. pediu 20.000 homens a Portugal para tomarem parte na campanha terminada em Waterloo. 0 governo português não quis mandar os 20:000 homens reclamados, e a campanha foi rápida, e por isso o 13 de infantaria não chegou a embarcar. Entretanto Saldanha casava a 5 de Outubro de 1814 com. uma senhora irlandesa, Maria Teresa Horan Fitzggerald, filha do general Thomaz Horan e de sua mulher Isabel Fitzgerald, a qual, ficando órfã de seus pais, fora educada desde os 7 anos pela condessa de Rio Maior. Organizando-se a divisão que devia partir para o Brasil para tomar parte na expedição de Montevideu, foi logo Saldanha escolhido para ser um dos oficiais da divisão. Promovido a coronel e colocado como adido ao estado-maior, saiu de Lisboa a bordo do navio Despique a 27 de Julho de 1815. Recebido pelo príncipe regente D. João com as máximas distinções, nomeado cavaleiro da ordem de Cristo e comendador da Torre e Espada, Saldanha recebeu a 7 de Junho de 1816 o comando do 1.º regimento de infantaria. Foi rápida e fácil a campanha de Montevideu para esses veteranos da Guerra Peninsular, e de pouco valeram as vitórias de Chafalote e da Índia Morta para os soldados que tinham batido em Vitoria as magnificas tropas do grande Napoleão. Contudo, se essas primeiras vitórias em campina rasa, pouca importância tiveram, entrando os nossos facilmente na cidade de Montevideu, a campanha da guerrilhas que depois se abriu, e que durou 5 anos, campanha em que tinham vantagens enormes esses destemidos gaúchos, que formavam a força principal do exercito de Artigas, teve séria importância, e nela conquistaram louros não menos apreciáveis do que os que tinham ganho na Guerra Peninsular os soldados portugueses. Esteve até 1818 a primeira brigada de que fazia parte o regimento de que Saldanha era coronel, encarregado do serviço exterior da praça de Montevideu e teve por isso de repelir em numerosas sortidas os ataques do inimigo. Em 1818 foi Saldanha encarregado de ir comandar na divisão do general Curado a coluna ligeira com o posto de brigadeiro. Saldanha já era general aos 27 anos. Foi essa uma das mais brilhantes campanhas da sua carreira militar, debaixo do ponto de vista do valor pessoal. Na sua frente tinha a mais terrível cavalaria irregular, esses formidáveis gaúchos que vivem a cavalo, que realizam nas planícies americanas a fábula dos centauros. A sua coluna compunha-se principalmente de cavalaria, costumada a bater-se com os dragões e os hussardos de Napoleão, mas pouco habituada à luta contra esses guerrilheiros fantásticos que apareciam e desapareciam num momento, depois de terem vibrado os seus golpes mortais. Nos combates de cavalaria repetidos que travou com o inimigo, teve sempre Saldanha a espada em punho, lavado em sangue, acutilado e ferido. Uma manhã deu 5 cargas à frente dos seus esquadrões. Uma noite, surpreendido por um destacamento de cavalaria de Lavalleja, tendo-lhe morrido o cavalo, defendeu-se a pé com toda a energia, mas deveu a sua salvação a um intrépido sargento que lhe cedeu o cavalo, e que perdeu um braço decepado por uma cutilada que ia com destino ao jovem brigadeiro. Saldanha adquiriu desde logo com o seu porte nessa campanha uma reputação gloriosíssima. Escolhido, apesar de ser o brigadeiro mais moderno, para comandar a divisão do general Curado, foi, quando terminou a guerra com a fuga de Artigas, nomeado capitão-general da província do Rio Grande do Sul, em 1821, em substituição do conde da Figueira. Saldanha partiu para o seu governo, onde começava já a agitar-se, assim como em todo o Brasil, o espírito da independência; porém, chegando com a sua brigada, a tudo pôs cobro rapidamente, e não só impediu a revolta de rebentar, mas de tal modo conciliou as simpatias de todos, que o próprio imperador D. Pedro lhe contou, muitos anos depois, que, ao visitar as províncias de Rio Grande do Sul, não ouvira senão o seu nome repetido sempre com louvor. Saldanha entregou-se dedicadamente ao seu governo, provando que era tão hábil administrador como se mostrara já valente e hábil oficial.

Quando D. Pedro foi proclamado imperador, vendo Saldanha, os portugueses coagidos ou a aderir à proclamação dessa nacionalidade ou a deixar o Brasil, não hesitou um momento, e pediu a sua demissão. Empregaram todos os esforços para que ele desistisse do seu propósito, mas Saldanha conservou-se firme na sua insistência e foi então para o Rio de Janeiro acompanhado por uma escolta de cavalaria, que lhe tinham dado a pretexto de o guardar e honrar, mas que verdadeiramente o levava preso, porque os rio grandenses, perdendo a esperança de o ver abraçar a independência do Brasil, também não queriam largar de mão tão perigoso adversário. Publicou por essa ocasião no Rio de Janeiro uma Carta do brigadeiro João Carlos de Saldanha dirigida aos membros do governo provisorio da provincia do Rio Grande do Sul, pedindo a demissão dos seus empregos e passaporte para se retirar para Lisboa; no mesmo ano de 1822 publicou 2.ª edição com o título de Representação que faz João Carlos de Saldanha, etc. No Rio de Janeiro, D. Pedro mandou-o soltar, mas tentou retê-lo no Brasil, com as mais, brilhantes promessas; por fim, reconhecendo que tudo era inútil, deixou-o partir para a Europa a bordo do brigue Três Corações, a 4 de Dezembro de 1822. O que o novo imperador lho oferecia era o título de marquês, o posto de major general do exército brasileiro, de que era comandante o próprio imperador, e a propriedade de vastíssimos terrenos. Tudo rejeitou, e entrou em Lisboa apenas com 25$000 reis, e nem isso traria, se não tivesse deixado no Rio Grande a mulher que fora ter com ele à América, e os filhos que tinham ali nascido, e que pouco depois vieram para Portugal. Entretanto acontecia a Saldanha um caso muito estranho. Bem recebido em Lisboa, era imediatamente nomeado para o comando duma expedição que ia embarcar para a Baía, a fim de reduzir o Brasil à obediência da metrópole. Ordenava-se lhe, porém, que embarcasse imediatamente na fragata Pérola, onde receberia as instruções necessárias. Saldanha correu a declarar ao ministro da guerra, então Manuel Gonçalves de Miranda, ser-lhe impossível partir assim, sem saber as forças que lhe confiavam e a missão de que o encarregavam, mostrando o estado em que se achava o Brasil, e a necessidade, se queriam operar seriamente contra ele, de empregar nessa empresa forças importantes. Debalde se amiudaram as conferencias, e persistindo Saldanha na sua recusa, por que via que forçosamente ia macular a sua justa reputação com desastres inevitáveis, foi enviado preso para o castelo de S. Jorge, e mandado responder a conselho de guerra. Revoltado com tão flagrante injustiça, Saldanha recorreu pela primeira vez à imprensa, e escreveu e publicou: Exposição ingenua dos motivos que decidiram o brigadeiro João Carlos de Saldanha a não acceitar o commando da expedição á Bahia, Lisboa, 1823. A prisão realizara-se em Fevereiro, mas chegou o mês de Maio sem o conselho de guerra se ter reunido, nem havia já vontade que ele se reunisse. O ministério quisera apenas dar uma prova de força, quisera salvar a sua existência, posta em risco pela desgraçada questão do Brasil, mas não queria de modo algum que Saldanha repetisse no conselho o que dissera nas conferências com o ministro. Nesse mês de Maio, com o movimento da Vilafrancada, Saldanha recuperou a liberdade. Reclamava o conselho de guerra, mas el-rei D. João VI declarou-lhe que o dispensava de dar provas da sua inocência, que era bem conhecida, e em seguida o nomeou comandante do exército de observações que se formara no Alentejo em virtude dos acontecimentos de Espanha. Esse exército ficou dissolvido, quando Espanha sossegou, e Saldanha foi nomeado a 8 de Abril de 1825 governador das armas do Porto.

Um ano depois morreu D. João VI, sucedendo-lhe seu filho D. Pedro, com o nome de D. Pedro IV, e o novo soberano enviou do Brasil, por lorde Stuart, a Carta Constitucional, que foi recebida com entusiasmo pelos liberais. Era regente do reino a infanta D. Isabel Maria, que se havia rodeado dum ministério perfeitamente reaccionário, o qual procurava todos os pretextos para impedir a publicação e o juramento da Carta. Os liberais começaram a impacientar-se, e o Porto agitou-se e reclamou energicamente protestando contra a demora. Saldanha, como governador militar, escreveu à regente e ao governo, e como as respostas tardassem, mandou a Lisboa o coronel Rodrigo Pinto Pizarro, que não só repetiu as instâncias do brigadeiro Saldanha para que fosse jurada a Carta, mas que da parte do mesmo general convidou os comandantes dos corpos a dirigirem à regente um manifesto no mesmo sentido. Era uma intimação, e tão formal que a infanta cedeu, e a 12 de Julho a Carta foi publicada na Gazeta de Lisboa, designando-se o dia 31 para o juramento. Apenas a notícia chegou ao Porto, Saldanha foi aclamado como um herói. Houve grandes festas para celebrar o juramento da Carta, levantaram-se arcos triunfais em diversas ruas, realizando-se entusiásticas manifestações. O ministério adverso à Carta pediu a demissão logo que viu, que a regente seguia um caminho diverso do que ele lhe indicara. Por decreto de 1 de Agosto formou-se novo ministério, e a infanta mandou chamar Saldanha para lhe confiar a pasta da guerra. No Porto repetiram-se as manifestações ao governador das armas, quando no dia 3 ele partiu para Lisboa a tomar posse do seu novo cargo. Em 20 de Outubro rebentou no Algarve uma revolta militar miguelista, e Saldanha correu pessoalmente a subjugá-la, o que pouco tempo bastou, porque os revoltosos, sendo avisados, atravessaram o rio Guadiana para a fronteira cidade de Ayamonte, na Andaluzia. Saldanha regressou logo a Lisboa; deixando ao conde de Vila Flor o comando das tropas liberais, mas apenas chegou uma doença grave, que o teve às portas da morte, o obrigou a afastar-se por algum tempo do serviço público. Graves questões se iam entretanto levantando no país. A regente não estava perfeitamente afecta à causa liberal, ou pelo menos deixava se dominar pelos seus adversários. O partido vencido em 31 de Julho ia recuperando pouco a pouco o seu ascendente, e no ministério composto primeiro de homens liberais iam entrando elementos profundamente adversos à liberdade. Todas as medidas, todas as resoluções que se tomavam, tendiam a destruir a liberdade, a, Carta não se cumpria senão dum modo perfeitamente irrisório. Quando Saldanha, depois de 5 meses de trabalhosa doença, entrou restabelecido no conselho de ministros, encontrou tudo completamente diferente do que tinha deixado. Imediatamente, não só na sua repartição seguiu um caminho diverso, mas imprimiu no caminhar de todo o ministério uma direcção contrária à que se estava seguindo. Promulgou uma série de medidas, entre as quais se contavam a substituição do redactor da Gazeta de Lisboa, a demissão do regedor das justiças do Porto, do intendente da policia e do presidente da Relação de Lisboa, inimigos declarados das ideias novas, Aconselhada pelos elementos absolutistas, a infanta D. Isabel Maria recusou-se a assinar estes decretos, e Saldanha pediu imediatamente a sua demissão, que lhe foi concedida a 23 de Agosto de 1827. Era exactamente o que os partidários do governo absoluto queriam. Esta demissão significava simplesmente que o ultimo sustentáculo da causa liberal no ministério era sacrificado pela regente às tendências absolutistas do resto do gabinete, e o povo tanto o compreendeu, que nessa mesma noite, em sinal de protesto, fez uma imponente manifestação, conhecida pelo nome de Archotadas, por ter sido feita à luz dos archotes, e que é a maior prova da imensa popularidade que Saldanha alcançara. A multidão aclamava-o, por ver nele o heróico paladino da liberdade, que o poder absoluto pretendia destruir. Esta grande manifestação popular ainda mais exacerbou o ministério contra o seu ex-colega, e excitou as suas perseguições contra todos os amigos do futuro marechal. Este, entretanto, vendo como as coisas corriam desfavoravelmente para a causa liberal, percebendo que a regência do infante D. Miguel seria o último golpe vibrado nas instituições, enviou ao Rio de Janeiro um seu ajudante, o capitão Praça, a informar D. Pedro da situação de Portugal e dos inconvenientes que arrastaria consigo a nomeação do infante para regente do reino. Quando o ajudante de Saldanha chegou ao Rio de Janeiro, já a nomeação estava feita, e já partira com ela para Lisboa um navio. Saldanha, conhecendo que as coisas mais se complica vem, e sabendo também que o governo inglês chamara para Inglaterra a divisão do general Clinton, deixando assim a causa liberal, não só sem a protecção das armas britânicas, mas também sem o prestígio do nome inglês, entendeu que nada faria em Portugal, e embarcou para Inglaterra com as tropas inglesas.

Estava-se então nos fins do ano de 1827, e no princípio de 1828 entrava D. Miguel em Portugal, dava o golpe de estado, e fazia-se proclamar rei absoluto. Uma parte do exército não aceitou, porém, a nova ordem de coisas, a guarnição do Porto insurgiu-se, aderiu ao movimento uma boa parte das tropas do norte, e organizou-se assim um pequeno exército, cujo comando uma junta provisória que logo se organizou, confiou ao general Saraiva Refoios. Saldanha e Palmela, sabendo em Londres da sublevação, supuseram que haveria já em Portugal sérios elementos de resistência às tentativas absolutistas, e fretando o vapor Belfast, partiram para o Porto juntamente com os generais Stubbs, Azevedo, etc. Como a cidade estava bloqueada pela esquadra de D. Miguel, foram desembarcar a alguma distância do Porto, e entraram depois na cidade, vendo aí que as circunstâncias eram muito piores do que supunham. 0 país permanecia inerte, ou mostrava entusiasmo pela causa de D. Miguel. Saraiva Refoios, depois de ocupar Coimbra, fora batido nuns poucos de recontros, e retirava sobre o Porto. Saldanha ainda tomou o comando das mãos inábeis do general Saraiva, e postou o exercito em Grijó numa posição vantajosa, ao passo que Stubbs se fortificava em Valongo, mas de repente, quando. menos se esperava, Saldanha abandonou o exército, que recuperara a confiança vendo-se comandado pelo prestigioso general, e embarcava precipitadamente no Belfast com os outros com quem viera. Este caso, decerto o único censurável da vida militar de Saldanha, não foi nunca bem explicado. Qual foi o motivo desta súbita partida? Como é que Saldanha, o herói de Montevideu, homem duma bravura nunca desmentida, assim fugia diante do inimigo, deixando os soldados, cujo comando tomara, fazerem, sem o seu general, essa triste retirada da Galiza, onde tanta e tão justa glória adquiriu Sá da Bandeira, a quem tinham oferecido um lugar a bordo do Belfast, e que este general recusara, permanecendo no seu posto de honra (V. Sá da Bandeira). Este caso do vapor Belfast ficou sempre misterioso, mas apesar da má impressão que produziu nos emigrados, não diminuiu o prestigio de Saldanha, e no fim desse ano de 1828 já uma expedição de voluntários se preparava em Plymouth, para sob as ordens de Saldanha ir socorrer a ilha Terceira, onde tremulava a bandeira liberal arvorada pelo intrépido batalhão de caçadores n.º 5, que compunha a guarnição da ilha. Saldanha já então era conde, título com que fora agraciado em 1827, mas que só foi confirmado por decreto de 14 de Janeiro de 1833. Foram 650 os portugueses emigrados que se aprontaram para seguir na expedição, os navios fretados eram os brigues Susana e Lyra, e as galeras Minerva e Delfins. Custou imenso ao marquês de Palmela conseguir que o governo inglês deixasse sair a expedição portuguesa apesar de todas as liberdades britânicas, e ainda assim foi preciso que a expedição fosse completamente desarmada, porque o governo de lorde Wellington, secretamente favorável à causa de D. Miguel, não queria senão encontrar um pretexto que lhe permitisse impedir a saída dos navios. A 16 de Janeiro de 1829 chegou Saldanha às águas da Terceira, e preparava-se para desembarcar, quando foi de súbito metralhado por duas fragatas inglesas. Esta rude e brutal intimação provocou da parte do conde de Saldanha e do comodoro Walpole uma troca de correspondência, em que Walpole declarou que tinha ordem de não consentir que ele e os seus homens desembarcassem na ilha Terceira. Saldanha respondeu que nesse caso se, considerava seu prisioneiro de guerra. Debalde o comodoro procurou de todos os meios conseguir que a expedição obedecesse ás suas intimações, sem a Inglaterra parecer que praticava um acto hostil. Saldanha persistiu que ou se considerava prisioneiro de guerra do oficial inglês ou que desembarcava. Walpole teve de escoltar os navios do conde de Saldanha até ao cabo Finisterra. Só aí os deixou furioso pela pertinácia do conde, que pôde formular num magnífico protesto as suas queixas contra o procedimento inglês. A opinião pública europeia revoltou-se com esse procedimento. Saldanha, que desejara seguir para o Brasil, mas que o não pudera fazer por falta de abastecimentos, e não querendo voltar a Inglaterra, foi desembarcar em Brest, e atravessando toda a França, seguiu para Paris, encontrando por toda a parte as manifestações da mais viva simpatia. Este procedimento de Saldanha foi talvez o que facilitou um pouco a ida do conde Vila Flor para a Terceira, obrigando o governo inglês a tomar uma atitude mais hesitante e o cruzeiro inglês nos Açores a ser por conseguinte menos severo e menos escrupuloso. 0 facto efectivamente provocara a indignação de todos os liberais. Nas câmaras francesas Benjamin Constant, Lafayette, Sebastiani haviam-no estigmatizado com energia; na própria câmara inglesa os celebres Malkintosh e Palmerston haviam censurado o procedimento do governo. Também Saldanha adquirira as mais vivas simpatias. Só com ele quisera o governo francês tratar as questões relativas aos subsídios a conceder aos emigrados portugueses. Saldanha fora também incansável em acudir aos seus compatriotas. Não só obtivera subsídio para todos, até para os académicos e paisanos, não só conseguira que as senhoras francesas presididas pelo conde de Flahaut, promovessem um baile por subscrição em favor dos emigrados portugueses, baile que rendeu 30.000 francos, mas ainda se empenhou com o governo belga por intermédio do major Lopes de Andrade, para que valesse aos emigrados portugueses que para a Bélgica haviam partido, e logrou ainda que o governo francês subsidiasse os emigrados portugueses que estavam em Plymouth, e que não podiam ali viver com o mesquinho tratamento que recebiam do governo inglês. Saldanha também vivia em tristíssimas circunstâncias. As jóias tinham-se vendido, os 90 francos (16$200 réis) mensais que recebia do governo francês como emigrado, não chegavam para o seu sustento, de sua mulher e de seus filhos. Foi então que recorreu ao trabalho literário, escrevendo no Nacional, periódico democrático redigido por Armand Carrel, e onde colaboravam alguns dos vultos mais notáveis do partido liberal de França. Foi decerto a sua colaboração naquele jornal e a convivência com os democratas franceses, que nele escreviam, que o converteram no liberal avançado que por essa época foi, enfileirando entre os revolucionários de 1820, bem diferentes nas suas aspirações políticas dos cartistas de 1826. Entre esses homens estabeleceu-se uma espécie de antagonismo doutrinário, que as intrigas da emigração mais agravaram. Em conciliábulos misteriosos os dois grupos procuravam dilacerar-se. E D. Pedro, cujas simpatias iam, naturalmente, para os partidários dedicados à Carta, principiou a olhar com tanta desconfiança para Saldanha, que, tendo chegado do Brasil, influído pelo que ouvira contar dos projectos audaciosos do valoroso general, quando se tratou de organizar com os emigrados dispersos pela Europa a expedição de Belle-Isle para os Açores, não o nomeou, como estava projectado, chefe do estado maior, declarando o próprio D. Pedro a Saldanha, que lhe fora comunicada da parte de Fernando VII de Espanha, a ameaça de intervir na contenda com um exército de 40.000 homens, se Saldanha fizesse parte da expedição. Saldanha, com a mais profunda mágoa, viu partir a expedição, tendo de explicar no Nacional, de 13 de Janeiro de 1831, e numa circular impressa dirigida aos seus amigos; os motivos da sua forçada inacção. Já três anos antes havia publicado umas Observações sobre a Carta que os membros da Junta do Porto dirigiram a S. M. o Imperador do Brasil em 5 de Agosto de 1828, Paris, 1829; este folheto saiu em 1830, mais acrescentado, com o título: A Perfidia desmascarada, ou carta da Junta do Porto a S. M. o Imperador do Brazil, e observações á mesma carta pelo conde de Saldanha, e por outro emigrado, com notas do editor.

Saldanha, depois da partida da expedição para os Açores, conservou-se durante um ano assistindo de longe ás peripécias desse terrível drama das lutas civis. Finalmente, nos últimos meses de 1832, a causa liberal esteve por tal forma arriscada que, depois de se ter convidado o general Solignac a tornar o comando em chefe do exército, vendo que essa nomeação não dava o mínimo resultado, por ser o general francês uma mediocridade, apesar da fama que o precedia, e D. Pedro, completamente desanimado, consentiu que fossem para o Porto todos os militares que se conservavam ainda longe da pátria, com excepção do coronel Pizarro. Denunciavam-se assim claramente as intrigas facciosíssimas que tinham desviado Saldanha do campo da batalha, onde se agitavam os destinos da pátria. Saldanha nem um instante hesitou, apesar de saber que a causa liberal parecia tão perdida, que D. Pedro dizia para Londres a Palmela, que se não alcançasse a intervenção inglesa dentro de 30 dias, nenhum recurso lhe restaria. O cerco do Porto, que principiou pouco depois do desembarque de D. Pedro, apertava-se cada vez mais, e a cidade estava realmente prestes a ceder, quando Saldanha, Stubbs e Cabreira desembarcaram na Foz a 28 de Janeiro de 1833. Solignac tivera a inabilidade de abandonar o monte do Crasto e principalmente o montinho do Pinhal que dominava a Foz, e cuja ocupação pelo inimigo trazia inevitavelmente consigo a perda do Porto, porque seria impossível entrarem mais víveres ou munições na cidade sitiada. Saldanha, logo ao chegar, recebera o comando da esquerda da linha, e logo viu o erro gravíssimo que se cometera. Fê-lo sentir a Solignac, e disse-lhe que era indispensável recuperar o Pinhal. Solignac opôs-se, respondendo que seria uma verdadeira loucura, e proibiu-lhe até expressamente que o fizesse; mas Saldanha estava tão convencido da sua opinião que tomou a responsabilidade da desobediência. Atacou rapidamente o Pinhal ainda mal guarnecido pelo inimigo, e assenhoreou-se dele quase sem perdas. Solignac, em presença do resultado obtido, não ousou censurar a desobediência de Saldanha, já marechal de campo, e não teve contudo a coragem de pedir a sua demissão. Saldanha, sem mais pensar no comandante em chefe, tratou de fortificar com toda a rapidez as suas fortificações. A 4 de Março foi o reduto do Pinhal atacado vivamente, porém D. Pedro que conseguira armá-lo o melhor possível, repeliu o inimigo com energia. Então é que se conheceu pela força do ataque dos miguelistas, a importância das fortificações que Saldanha improvisara, e que eram o assombro de todos. Solignac ainda desta vez assistiu ao triunfo do conde de Saldanha, sem tomar parte nele, conservando-se imóvel com o resto do exército. Que rancor ardia no peito de Solignac pode imaginar-se, sabendo que o queria mandar fuzilar, quando soube que ele tivera conferências secretas com o general miguelista Lemos a bordo dum navio inglês. Chamado Saldanha, explicou ele facilmente que tivera essas conferências para pôr termo à guerra, conseguindo que pacificamente triunfasse a causa liberal sem se derramar mais sangue português. Solignac deu um jantar a Saldanha no mesmo dia em que o condenara a ser fuzilado, e ainda desta vez se não demitiu. Só percebeu enfim que devia pedir a demissão, quando no conselho de guerra que se reuniu para se tratar duma diversão que se deveria fazer, viu adoptada a opinião de Saldanha, que era uma expedição ao Algarve, contra a sua que era de se romperem as linhas miguelistas no sul do Douro.

Apenas Solignac foi demitido, logo D. Pedro nomeou Saldanha chefe do estado-maior, que equivalia a confiar lhe o comando em chefe do exército. Essa nomeação foi acolhida com verdadeiro entusiasmo. Logo na acção de 5 de Julho se mostrou a energia e o talento do novo comandante. O exército miguelista, sabendo que a guarnição do Porto estava enfraquecida pela partida da expedição do duque da Terceira para o Algarve, atacou vigorosamente as linhas procurando cortar as comunicações entre a Foz e o Porto. Foi completamente repelido, e D. Pedro entusiasmado com a perícia do seu novo chefe do estado-maior, promoveu-o por distinção no campo da batalha ao posto de tenente general. Apesar da derrota, os miguelistas não desanimaram, pela chegada do marechal francês Bourmont que acompanhado por uns 100 oficiais legitimistas franceses, vinha tomar o comando do exército que sitiava o Porto. Não tardaram a medir-se os dois generais. Em 25 de Julho Bourmont deu um ataque geral ás linhas do Porto, pôs em grave perigo a esquerda da linha que Saldanha defendeu brilhantemente repelindo o ataque, e pressentindo que Bourmont, repelido da esquerda havia de pretender atacar a direita, provavelmente enfraquecida pela concentração de forças no outro flanco, partiu a galope para Bonfim, e ali encontrou efectivamente o regimento belga repelido e os miguelistas já dentro do Porto. 0 momento era crítico. Os reforços não podiam chegar ainda. Saldanha, entretanto desembainha a espada, e carrega o inimigo à frente do seu estado-maior e da sua escolta de lanceiros. Cai morto seu sobrinho D. Fernando de Almeida, são feridos quase todos os oficiais, mas o inimigo recua, e o Porto está salvo na direita como já o estava na esquerda. 0 imperador, em recompensa de tão assinalada vitória, confere-lhe a grã-cruz da Torre e Espada. Chegam no dia 26 ao Porto as notícias da ocupação de Lisboa pelas tropas do duque da Terceira; D. .Pedro parte para Lisboa, deixando Saldanha comandante em chefe da guarnição do Porto. Não tardou que Bourmont, com uma parte do exército miguelista, marchasse a cercar Lisboa, ficando em frente do Porto o general Almer. Não quis Saldanha consentir que forças relativamente diminutas o paralisassem dentro da cidade. A 18 de Agosto fez uma sortida, surpreende o inimigo, desaloja-o das suas fortes posições, repele-o em seguida nas alturas de Valongo, e completa assim o levantamento do cerco do Porto. A cidade aclamou com ovações frementes de entusiasmo o seu heróico salvador. Saldanha organiza então uma pequena divisão, e em 24 de Agosto parte para Lisboa, deixando o governo do Porto entregue ao tenente general Stubbs. Chegando a Lisboa assume o comando do exercito, repele no dia 5 e no dia 14 de Setembro os ataques de Bourmont, obriga Macdonell, que substituía no comando o general francês, a levantar o cerco da capital nos dias 10 e 11 de Outubro. D. Pedro nomeou-o marechal do exército e para lhe ser agradável, mandou colocar de novo no pedestal da estátua de D. José, no Terreiro do Paço, o medalhão do seu glorioso avô, o marquês de Pombal. Mas a luta continuava agora ainda mais terrível do que nunca. Póvoas sucedera a Macdonell, continuando a manter-se na expugnável Santarém. Então Saldanha, deixando o duque da Terceira à frente das tropas liberais que ocupavam Cartaxo, marcha sobre Leiria com uma pequena força e toma a cidade, derrota em Torres Novas os célebres dragões da Chaves, e finalmente desbarata completamente em Pernes uma força importante, que Póvoas para ali destacara na esperança de cortar as comunicações dos dois marechais. Então os miguelistas resolveram tentar um supremo esforço, o que proporcionou a Saldanha o ensejo de ganhar a mais brilhante vitória da sua carreira militar, a batalha de Almoster, que deu um golpe mortal na causa miguelista. Projectou Saldanha, em seguida a este brilhante feito de armas uma expedição ao norte para se assenhorear de todo o país e impedir que o inimigo recebesse reforços ou auxílios das províncias afectas ao absolutismo. O plano não foi aceite, e o marechal recebeu ordem de retirar para o Cartaxo com a sua divisão. Prosseguindo a campanha, os miguelistas ainda tiveram um efémero triunfo em Alcácer, onde os constitucionais foram repelidos. Como aproveitassem esta insignificante vitória para novos ataques, o plano de Saldanha foi afinal adoptado, sendo a sua execução confiada ao duque da Terceira. Pouco tempo depois com a batalha de Asseiceira, D. Miguel era derrotado por completo. Em 26 de Maio de 1834, assinou-se a convenção do Évora Monte. Saldanha, a quem indubitavelmente se devia o êxito da campanha, foi elevado a marquês, por decreto passado logo no dia seguinte, e uma dotação de cem contos de reis em bens nacionais.

Terminada a luta, começou o agitado noviciado constitucional do país. D. Pedro abriu as cortes em 15 de Agosto de 1834, e Saldanha, sendo eleito deputado, foi o chefe da oposição no primeiro ministério de D. Maria II. Os inimigos, que antes e durante o cerco do Porto, tanto o combateram, voltaram à sua tarefa, agora mais fácil, porque na paz as intrigas podem mais facilmente urdir-se. A 27 de Maio do ano de 1835, a rainha chamou-o ao poder, confiando-lhe a presidência do conselho e a pasta da guerra, e dando-lhe como colegas o duque de Palmela, o marquês de Loulé, Chanceleiros, João de Sousa Pinto de Magalhães, etc. Pouco depois entrou Rodrigo da Fonseca Magalhães para o governo, como ministro do reino. Este gabinete teve curta duração. A iniciativa de Saldanha em mandar a Espanha uma divisão auxiliar, que se portou ali brilhantemente, contra os carlistas, as reformas projectadas na instrução pública pelo ministro Rodrigo da Fonseca, e depois uma resolução do duque da Terceira, comandante em chefe do exército, relativamente ao papel dos oficiais nas eleições, originaram a queda do ministério, que foi substituído por outro da presidência de José Jorge Loureiro. Foi durante este último ministério, que rebentou a revolução de Setembro. Saldanha conservou-se um pouco afastado da politica militante, descansando em Sintra, mas quando julgou que a revolução fora mais longe do que, no seu entender, devia ir, quando lhe pareceu que estavam em perigo as prerrogativas e a dignidade da rainha, que ele sustentara sempre com tanta dedicação, pronunciou-se, de acordo com o duque da Terceira, contra a marcha das coisas, marchando para o norte a 27 de Julho de 1837, entrou na Beira, onde se lhe juntaram algumas tropas, muito menos do que ele imaginava, porque a revolução popular setembrista ainda tinha um grande prestigio. O barão de Bonfim foi enviado com tropas importantes contra o marechal Saldanha, mas este, com a habilidade que o distinguia, zombou do seu feliz adversário, escapando-se-lhe por uma série de marchas estratégicas, indo unir-se ao duque da terceira e a Mousinho de Albuquerque em Torres Vedras, onde formaram uma regência provisória, e marchando sobre Lisboa, acamparam em Loures, ao passo que Bonfim se encontrava no Pombal. Esperavam os marechais que Lisboa se pronunciasse a seu favor, mas não sucedeu assim, tiveram por conseguinte de retirar, porque dispunham apenas de três batalhões de voluntários mal armados e um regimento provisório de infantaria de linha. Tendo boa cavalaria, mas não tendo um só canhão, não podiam os marechais atacar Lisboa. Retiraram, pois, para o norte em procura da divisão auxiliar de Espanha, que recolhia a Portugal, por ordem do governo, e que esperavam que aderisse à sua causa. No dia 28 de Agosto de 1837 encontraram se no Chão da Feira com o barão de Bonfim, e aí se travou batalha, que terminou por um acordo entre Saldanha e Bonfim, que no meio da batalha se encontraram e deliberaram suspender a luta para verem se chegavam a um acordo sobre a questão constitucional. Os marechais retiraram para Alcobaça, Bonfim para Leiria, e em Aljubarrota se reuniram comissários para tratarem dum convénio. Não se podendo chegar a um acordo, romperam-se de novo as hostilidades. Aqui se mostrou mais uma vez a habilidade do marechal. A derrota em Chão da Feira era quase inevitável, nem Saldanha decerto aceitaria o combate, se não esperasse que as forças setembristas passassem para ele, graças ao seu antigo prestigio. Só isso aconteceu com uma parte da cavalaria, mas a infantaria formada em quadrado resistiu intrepidamente, e a falta de artilharia colocava os marechais na mais desastrosa inferioridade. A interrupção do combate foi a salvação para eles. No dia seguinte unia-se o barão do Casal a Bonfim e Saldanha por conseguinte não podia seguir para o norte pela estrada de Leiria. Mais uma vez, porém, iludiu os adversários, e torneando-os por uma marcha audaciosa e feliz, foi sair a Rio Maior, passou a Santarém, depois a Tomar, e ainda Bonfim andava à procura dele, e já ele estava em Trás-os-Montes. Ao chegarem, porém, a Chaves, souberam os marechais que o barão de Leiria, contra as ordens expressas que recebera, tendo-se-lhe reunido uma das brigadas da divisão expedicionária de Espanha, dera batalha em Ruivães à outra brigada comandada pelo visconde das Antas, e fora batido. Vendo então que não podiam prolongar a luta, assinaram uma convenção, e partiram para o estrangeiro, terminando assim a revolta, que ficou conhecida pela revolta dos marechais.

Saldanha foi residir para Paris até que, voltando ao reino, o governo cartista o encarregou de varias embaixadas, passando quase todo o seu tempo até 1846, empregado na carreira diplomática. Esteve em Londres, em Madrid e em Viena, onde a rainha e os seus confidentes o conservaram de reserva para o momento em que fosse preciso. Em 1846, portanto, prosseguiu na vida política, de certo um campo muito menos brilhante para ele do que a carreira militar. Já não é muito explicável, apesar de tudo, a sua insurreição de 1837 contra a revolução liberal que devia agradar, segundo parecia ao redactor do Nacional, ainda se percebe menos que depois de ter sido uns dias ministro da guerra e dos negócios estrangeiros no gabinete de Palmela de 20 de Maio, não recusasse cobrir com a sua responsabilidade o odioso golpe de estado de 6 de Outubro de 1846, pelo qual a rainha faltava à sua palavra, e opunha o seu veto ao movimento democrático do país. Saldanha, o homem mais popular do país, ia agora afrontar o movimento mais verdadeiramente popular que couve entre nós, indo servir os interesses do conde de Tomar contra os interesses legítimos do povo. Mas chegava o momento de desembainhar a espada, e o marechal recuperava o seu antigo esplendor. A revolução do Minho, promovida pela emboscada de 6 de Outubro, rebentara com energia, organizara no Porto a Junta que dirigiu a revolução e o conde das Antas, à frente das tropas liberais, marchou sobre Lisboa parando sobre Santarém, onde destacou para Alcobaça e Caldas uma divisão comandada pelo conde de Bonfim. Saldanha, deixando o ministério para assumir o comando das tropas cartistas, ocupou o Cartaxo, e vendo a imprudência do conde das Antas, marchou sobre Bonfim que seguia para Torres Vedras, onde foi obrigado a capitular depois da batalha de Torres Vedras, em 22 de Dezembro de 1846, e que é uma das mais brilhantes da carreira militar de Saldanha. Bonfim teve de se entregar com toda a divisão, Antas viu-se obrigado a retirar sobre o Porto, seguindo-o Saldanha que ocupou a posição de Oliveira de Azeméis, isolando assim o Porto do sul do País, sem que a junta ousasse mandá-lo atacar até que a intervenção estrangeira pôs termo à luta civil, pela convenção de Gramido assinada em Junho de 1847. Saldanha havia sido agraciado com o título de duque, por decreto de 4 de Novembro de 1846 fora elevado ao pariato e nomeado mordomo-mor da rainha.

A 18 de Dezembro de 1848 formou se um ministério, presidido por Saldanha, presidência que conservou até 29 de Junho de 1849, em que a rainha, julgando ser tempo de acabar com aquele ministério que considerava de transição, chamou de novo Costa Cabral, já então conde de Tomar, aos conselhos da coroa. Saldanha feriu-se profundamente com esta resolução da rainha, e começou a fazer uma oposição furiosa ao novo governo. 0 conde de Tomar, procedendo com a sua habitual energia, aconselhou a rainha a que o demitisse do cargo de mordomo-mor da Casa Real. Ferido também no seu amor próprio, o marechal pediu a demissão de todos os seus cargos de comissões, e saiu a campo, publicando em 1850 o Requerimento e correspondencia do duque de Saldanha com o ministro da guerra, por occasião de ser demittido do officio de Mordomo mór da Casa Real. A publicação deste folheto deu em resultado levantar-se uma viva discussão na imprensa, e imprimiram-se avulsos vários opúsculos e panfletos, nos quais a questão foi diversamente avaliada, saindo anónimos a maior parte deles. Sentia-se bem que o conde de Tomar jogara uma carta arriscada, e que Saldanha não deixaria de tirar a desforra. Esta desforra não demorou muito. 0 marechal resolveu, portanto, vingar-se, e a corresponder aos votos do país, fatigado da administração enérgica mas áspera do conde de Tomar. A 7 de Abril de 1851 saiu de Sintra com uns oficiais do seu estado-maior, partiu para Mafra, na intenção de revoltar o regimento de infantaria n.º 7, mas apenas alguns soldados tomaram o seu partido. Reuniram-se-lhe apenas alguns batalhões de caçadores n.º 1, que estava em Setúbal o n.º 5, que estava em Leiria. 0 marechal julgou perdida a insurreição, porque todos, ou quase todos os coronéis eram cabralistas, e haviam fugido com os regimentos ao marechal, como fizeram os comandantes do n.º 9 e do n.º 14 de infantaria e o n.º 4 de cavalaria. Entrara Saldanha já em Espanha, e achava-se em Lobios na Galiza, quando cartas de José Estevão e de outros homens notáveis do partido progressista o chamaram a Portugal, onde triunfava o seu movimento, exactamente quando ele o supunha perdido. A guarnição do Porto insurgira se a seu favor, e um dos coronéis que tinham tentado opor-se à revolta, foi morto. Saldanha entrava triunfante no Porto, onde ia reunir-se-lhe dentro em pouco tempo quase toda a divisão que, debaixo do comando d'el‑rei D. Fernando, saíra de Lisboa para se lhe opor. Em Lisboa entrava pouco depois, a 13 de Maio, o marechal, e a sua entrada foi festejada com delirantes ovações, iluminações, vendo-se pelas ruas filarmónicas tocando um hino composto em sua honra. Pouco fora preciso para Saldanha recuperara popularidade, que por um instante lhe resfriara um pouco. 0 marechal com as suas tropas passou em continência em frente do palácio das Necessidades, mais como afronta à rainha, do que como um acto de submissão. 0 conde de Tomar fugiu para o estrangeiro, el-rei D. Fernando entregou-lhe o bastão do comando em chefe do exército, e a rainha teve também de o aclamar, quando o povo o saudava como a um triunfador. Saldanha, tomando posse do governo em ditadura, promulgou grande número de leis. Este movimento ficou conhecido na história pela Regeneração. Saldanha tinha a seu lado no ministério Rodrigo da Fonseca Magalhães, e chamou ao poder um jovem deputado de um imenso futuro, e que veio a ser mais tarde uma sumidade politica, Fontes Pereira de Melo. Durante cinco anos, dirigiu esta administração regeneradora que pôs termo definitivo às lutas políticas, fez passar o Acto Adicional à Carta Constitucional, fez entrar o país no caminho do desenvolvimento material; assegurando o pagamento pontualíssimo dos funcionários, e tratando seriamente da viação publica.

Em 1856 cedia Saldanha o poder ao ministério progressista histórico, voltando a ocupar-se principalmente na carreira diplomática. Pouco tempo depois entregava-se também a uma especialidade muito inesperada, à especialidade médica. Fazia-se em Portugal o advogado da homeopatia, publicando em 1858 o seguinte folheto: Estado da medicina em 1858; opusculo, dividido em cinco partes, dedicado a el-rei o sr. D. Pedro V, e offerecido aos homens de consciencia e superiores, que entre nós ensinam ou praticam a nobre e liberal profissão da medicina. Este folheto promoveu resposta do Dr. Bernardino António Gomes, travando-se entre o ilustre marechal e o bem conhecido médico uma discussão veemente. Já em 1845, estando embaixador em Viena de Áustria, publicara um livro intitulado: Concordancia das sciencias naturaes, e principalmente da geologia com o Genesis fundada sobre as opiniões dos santos padres e dos mais distinctos theologos; extrahida de um trabalho do marechal marquez de Saldanha sobre a philosophia de Schelling. Atribui-se-lhe também um outro folheto: Curtissima exposição de alguns factos, Lisboa, 1847; este opúsculo, concernente à explicação do movimento político do 6 de Outubro de 1846, saiu sem o nome do autor. Publicou depois um Additamento á «Curtissima exposição de alguns factos», tendo a data de 3 de Setembro de 1847, e por assinatura Um portuguez. Nos 14 anos que decorreram de 1856 a 1870 conservou-se Saldanha constantemente afastado do poder. Ministro em Roma, em Paris, ou em Londres, representava com grande esplendor o seu país e era em toda a parte um dos vultos mais notáveis do corpo diplomático. Por mais duma vez o nome do duque de Saldanha foi indigitado para a presidência do conselho, mas, ou porque ele se recusasse, ou porque as circunstancias politicas mudassem e não tornassem necessário o seu chamamento, é certo que sempre continuou a exercer as suas missões diplomáticas, até que em 1869, tendo vindo a Lisboa, e julgando-se desconsiderado pelo ministério progressista presidido pelo duque de Loulé, resolveu fazer sentir ao governo que, apesar dos seus 80 anos, ainda conservava o antigo prestigio no exército e a verdura da mocidade. Deu ouvidos ás incitações do conde de Peniche e do grupo de revolucionários que acompanhava este fidalgo, e à frente do batalhão de caçadores n.º 5 e do regimento de infantaria n.º 7, proclamou a queda do ministério. Só a guarda municipal, alguma artilharia e um esquadrão de lanceiros deixou de unir-se aos revoltosos. Saldanha dirigiu-se com a força que angariara, ao palácio da Ajuda na noite de 19 de Maio de 1870, onde uma bateria do 3 de artilharia lhe faz fogo, que é correspondido pelos caçadores revoltados, mas a resistência durou poucos minutos e os artilheiros rendem-se, ficando apenas mortos uns 5 e igual. número de feridos. Várias balas de caçadores esmigalharam as vidraças do paço, e lhe furaram os estuques. 0 ministério quer conservar-se a todo o transe, não lhe importando que para isso corra jorros de sangue. 0 rei D. Luís estava aterrado; não queria guerra, não queria derramar sangue, e estava por tudo quanto Saldanha quisesse. Mandou chamar o duque de Loulé para lavrar o decreto da demissão dos ministros, mas o duque recusa-se terminantemente a referendar tal decreto, mas vendo por fim que o rei se obstinava em não querer guerra, cedeu, e foi reunir-se aos seus colegas para envidarem todos os meios de sufocarem a revolta. Finalmente o rei assinou o decreto da demissão do ministério, e Saldanha ficou senhor da situação, e como ditador formou em 25 de Maio um ministério, em que entravam D. António da Costa, marquês de Angeja (conde de Peniche), D. Luís da Câmara Leme, José Dias Ferreira e conde de Magalhães, ficando Saldanha com a presidência e as pastas da guerra e dos estrangeiros. Promulgou uma série de reformas mas, em 29 de Agosto do mesmo ano de 1870, um outro golpe de estado promoveu a queda do ministério, retirando-se de novo Saldanha como ministro para Londres, onde veio a falecer com 86 anos de idade.

0 duque de Saldanha havia enviuvado em 13 de Agosto de 1855, e passou a segundas núpcias, em Londres, sendo já octogenário, com D. Carlota Isabel Maria Smith, irmã do conde da Carnota, John Smith Athelstane, já viúva do Dr. Edward Binns. Possuía as seguintes honras: grã-cruz das ordens de Cristo, da Torre e Espada, de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, de S. Tiago, e de S. João de Jerusalém; das seguintes ordens estrangeiras: S. Fernando, Isabel a Católica e Carlos lII de Espanha; da Legião de Honra, de França; de S. Gregório Magno e da Pio IX, de Roma, de Ernesto Pio, de Saxe-Coburgo; de Leopoldo, da Áustria; do Leão, dos Países Baixos; de S. Maurício e S. Lazaro, de Itália; de Leopoldo, da Bélgica; de Alberto, o Valoroso, de Saxónia; do Salvador, da Grécia; da Águia Branca, da Rússia; cavaleiro da ordem do Tosão de Ouro, de Espanha, da Santíssima Anunciada, de Itália; condecorado com as medalhas do Buçaco, de S. Sebastião e de Nive; de 6 batalhas da Guerra Peninsular, da Estrela de Montevideu, etc.; sócio emérito e vice-presidente da Academia Real das Ciências, membro da Sociedade Geológica de França, da Academia das Ciências e Belas Letras de Anvers, da Sociedade Estatística de França, e de muitas outras associações cientificas e literárias da Europa. Por decreto de 30 de Outubro de 1862, foi agraciado com as honras de patente. 0 seu brasão é o mesmo, que já se publicou e se descreveu, no 1.º vol. do Portugal, pág. 56, no artigo dedicado a seu filho, o conde de Almoster.

Saldanha foi também um escritor muito considerado. Entre as obras que deixou, citaremos as seguintes: um folheto Algumas ideias sobre a Fé; sem designação do lugar da impressão, mas tem no fim a data de Lisboa, 17 de Maio de 1857; Discursos do presidente de ministros, duque de Saldanha, proferidos nas sessões de 14 e 15 de fevereiro na camara dos dignos pares, por occasião das accusuções feitas pela opposição, Porto, 1848. Achando se em 1864 embaixador em Roma, assistiu a uma sessão da Academia dos Quirites, celebrada no palácio do príncipe de Alfieri, em 21 de Abril, e recitou na presença de vários cardeais, prelados e outras personagens distintas, a dissertação que para esse fim escrevera: Il natale di Roma. Em 1865, voltando aos seus estudos médicos, publicou: Duas palavras sobre a homeopathia como preservativo e curativo da Choleramorbus. Escreveu mais: Carta sobre o casamento civil, dirigida ao ex.mo presidente do conselho de ministros, Lisboa, 1865; A Verdade, Lisboa, 1863 constava de 4 capítulos: 1 ° Expectação universal; 2.° A antiguidade não realisou o ideal da perfeição humana; 3.° Jesus Christo, Deus e homem verdadeiro; 4.º Algumas ideias sobre a Fé; teve 2.ª edição em 1869; Carta ao sr. Latino Coelho acerca da razão que o impediu de assistir à inauguração da estátua de D. Pedro IV no Porto, com a exposição dos serviços que na mesma cidade prestou durante o cerco e depois, até ao fim da luta civil de 1839; saiu no Jornal do Commercio, de 26 de Outubro de 1866; Necessidade de associação catholica, Londres, 1871; A Voz da Natureza, etc., publicou o 1.º vol. em Londres, 1879; o 2. vol. saiu em 1876, no mesmo ano da morte do marechal; segundo o autor, a obra devia ter 3 vol., mas parece que o 3.º se não chegou a publicar. Em 1869 publicou em varies jornais de Lisboa (Diario Popular, Jornal do Commercio, e Diario de Noticias), cartas para explicar o seu procedimento politico, e que são documentos preciosos para a historia dos preliminares da revolta de 19 de Maio de 1870. 0 duque de Saldanha tem artigos biográficos no Dictionnaire des contemporains, de Vapereau; no Dictionnaire générale de biographie et d'histoire, de Dézobry et Bachelet; na Nouvelle biographie générale, tomo XLIII; Historia do marechal Saldanha, por D. António da Costa de Sousa de Macedo; O Marechal Saldanha, romance histórico, de César da Silva, publicado pela casa editora João Romano Torres & C.ª. 0 escultor Alberto Nunes executou em 1880 o busto em mármore do marechal Saldanha, trabalho de muito valor artístico, que foi destinado para a Câmara dos Pares.

Transcrito por Manuel Amaral

Artigo publicado no Dicionário Histórico