30.1.09

Rua dos AÇORES

060109

29.1.09

Rua Escritor NUNO DE BRAGANÇA

050109

Fotografia publicada e localizada no Flickr


Sobre Nuno Bragança

(1929-1985)

Publicou um livro decisivo para a nossa modernidade literária, A Noite e o Riso, 1969, que alia a experiência surrealista a certas tendências do «nouveau roman» francês, desenvolvendo uma experiência pessoal de educação e boémia.

Notabilizou-se como romancista (Square Tolstoi, 1981) e como contista (Estação, póstumo), tematizando a inquietação humana através da deambulação urbana, política, militante e erótica, e insistindo na componente social da desarticulação íntima dos valores e dos sentimentos.


"Estou sentado num dancing e tenho a mão. Ainda em volta de uma bebida de pressão de ar.

Às vezes, acontece num sítio destes e em hora assim que o pecado original se derreteu num shaker, acabando-se a mortalidade infantil e a Polícia. Sinto essa harmonia. Por cima dos ombros cansados, como um xaile da leveza dum suspiro de gato. Pelas luzes das mesas e fumo nos olhos trotam as mais certeiras notas de piano."

A Noite e o Riso (excerto)

No número 105 desta rua existe a chamada casa "Engenheiro Nunes de Sousa". O projecto foi iniciado em 1989 pelo arquitecto Manuel Botelho e a construção ficou terminada em 1994.
 

28.1.09

Cafés do Porto - A Brasileira

Nos meus arquivos de artigos de jornais encontrei este publicado há meses no Jornal de Notícias.

Sou de uma geração que ainda conheceu os últimos suspiros dos grandes cafés da cidade, em que os cafés eram uma razão de serem de certos percursos da cidade. Cafés sem televisão, cafés onde regularmente as pessoas se encontravam, onde se tratavam de negócios e comércios, onde se estudava ou onde se namorava.

«A notícia de que "A Brasileira" corre o risco de desaparecer, a concretizar-se, será mais uma machadada no já tão depauperado património histórico do Porto. Não é possível dissociar a história do antigo café da baixa portuense, da vida cultural, cívica e política da própria cidade, dos últimos cem anos. Adriano Teles, antigo farmacêutico da Rua do Bonjardim que, em Minas Gerais, no Brasil, para onde emigrou nos finais do XIX, se dedicou ao negócio do café, fundou "A Brasileira" em 1903, no regresso ao Porto, com o objectivo de criar e difundir uma marca própria de café. O acto inaugural do novo estabelecimento constituiu um acontecimento social sem precedentes na cidade. Foi de tal modo elevado o número de pessoas presentes que, contam as notícias da época, houve necessidade de requisitar dois polícias para regularem o trânsito que se tornara caótico. Logo após a inauguração, e durante 13 anos consecutivos, com o intuito de difundir a nova marca, foi servido gratuitamente café à chávena aos balcões de "A Brasileira". A pouco e pouco o novo estabelecimento foi-se impondo no mercado ao mesmo tempo que as sua s salas se ia transformando em ponto de encontro de tertúlias culturais - das mais animadas da baixa portuense. O edifício actual é dos anos 30. Foi desenhado pelo arquitecto Januário Godinho e decorado com esculturas de Henrique Moreira, espelhos franceses de Max Igram e decorações de alabastros de Vimioso. Inaugurou-se em Março de 1938. Com o titulo de "A Brasileira", a firma proprietária do café publicou, desde praticamente o início e até aos anos 40, um quinzenário. Nas décadas de 50 e 60 era um lugar onde se reunia a nata dos literatos, jornalistas, políticos e gente do Teatro. Com uma curiosidade os homens da Esquerda sentavam-se ao lado direito; e os da Direita ocupavam as mesas dispostas no lado esquerdo. Que pena que um local com tanta história possa vir a desaparecer»

15.1.09

Actualização



O mau tempo, esta chuva e este frio têm tido uma má influência sobre o decorrer harmónico deste blogue.

A gripe e a recuperação dos excessos das festas também.

Tanto paleio só para vos anunciar que actualizei a Rua Clemente Menéres e que ainda estou vivo. As fotos do Porto é que vão escasseando.


Onde é?

Um leitor deste blog mandou-me um email com um apelo mais do que urgente.

Possuía uma aguarela sobre o Porto e gostaria de identificar o local.

Como eu sou bom rapaz, como eu penso que estas coisas de blogar e de internitar são para serem inter-activas, deixo-vos a pergunta. Quem encontrar a resposta pode deixar um comentário - mais cedo ou mais tarde ele será publicado.

31.12.08

Feliz 2009


ano novo feliz!

O sítio onde se vendia o pão de trigo da terra

As padeiras vinham de Valongo encarrapitadas em burros e com enormes canastras no dorso do animal


Os velhos alfarrábios ensinam-nos que o planalto onde, nos nossos dias, se localiza a Praça da Batalha era, ainda nos séculos XVI e XVII, constituído por várias propriedades e campos de cultivo. Num desses campos, o de Lamelas, costumava parar a célebre procissão do Corpus Christi em que "os hortelãos e lavradores da freguesia de Santo Ildefonso" participavam, em lugar do honra.

No planalto a Ocidente, ou seja, no lado oposto, os terrenos compreendidos entre a antiga Porta do Olival e as praças hoje denominadas de Carlos Alberto e de Gomes Fernandes eram áridos e secos. Quer dizer: num lado havia bucolismo, hortas verdejantes, jardins floridos; no outro crescia o vime, um ou outro carvalho e oliveiras à sombra das quais trabalhavam os cordoeiros. A cordoaria do bispo começou a funcionar por aquelas bandas já no século XIV.

Curiosamente, é no lado Oriental que ainda hoje encontramos, na toponímia local, resquícios desse longínquo passado: Rua das Oliveiras e Largo do Moinho de Vento, são dois exemplos. Há um documento do século XVII, referente a "umas estalagens nos Ferradores" (actual Praça de Carlos Alberto) que mencionam um "Caminho do Moinho de Vento" que não deve ser outro senão aquele que, em 1647 (ano a que se refere o referido documento) partia "…do terreiro e ermida da Graça para a estrada de Santo Ovidio", hoje Rua dos Mártires da Liberdade. O antiquíssimo caminho do Moinho de Vento correspondia, como o leitor facilmente adivinhou, à Rua de Sá Noronha dos nossos dias.

Dentro do contexto urbanístico deste planalto, o Campo da Via Sacra, como era denominada a actual Praça de Guilherme Gomes Fernandes, era um dos mais concorridos logradouros destes sítios. Tinha aquela designação porque era ali que se situava a última estação de uma Via Sacra. Por isso, também era conhecido por Calvário Velho para se distinguir do novo que ficava na actual Rua do Dr. Barbosa de Castro, à Cordoaria. Devido à proximidade com o extinto convento das Carmelitas de S. José e Santa Teresa, este espaço também teve a designação de Largo e Praça de Santa Teresa. E foi exactamente aqui que se realizou a célebre feira do pão a que alude um leitor em amável carta que me dirigiu, perguntando quando começou esse mercado e em que ano terminou.

A tradição, no Porto, da venda de pão em feiras é muito antiga e não se sabe bem quando começou. Mas sabe-se, por exemplo, que já a 14 de Março de 1584 era publicado um acórdão municipal, se assim se lhe pode chamar, em que se determinava que "as medideiras da feira do Pão, messão em gamellas fora das casas no meio da praça, quando não chover, sob pena de multa…" Esta lei, se assim pode dizer-se, que obrigava as "medideiras" a trabalhar na praça e que tinha por finalidade impedir roubos ou outras falcatruas, ainda estava em uso quando, nos meados do século XIX, ainda se fazia a feira do pão no antigo Largo de Santa Teresa e a da farinha, na Praça dos Voluntários da Rainha, actual Praça de Gomes Teixeira. No ano seguinte (1585), foi publicada nova legislação, desta vez contra "as pessoas que misturarem o pão trigo de fora com o da terra e que quem vender hum não possa vender o outro…"

Nos meados do século XIX, a feira do pão funcionava no espaço da actual Praça de Guilherme Gomes Fernandes que, segundo relatos da época, mantinha a configuração geométrica de um triângulo mas que se assemelhava mais a um adro de igreja do que a um logradouro público.

As barracas onde se vendia o pão estavam dispostas ao centro do amplo terreiro e, embora o mercado fosse mais concorrido às terças-feiras e sábados, por causa de outras feiras que se realizavam na cidade, havia quem ali viesse todos os dias vender o célebre pão da terra confeccionado com farinha que era moída nos moinhos a água da região de Valongo. Esta era, efectivamente, a terra do pão. Era de lá que vinham as padeiras, encarrapitadas em burros com duas enormes canastras sobre o dorso do animal cheias do saboroso pão da terra. O produto mais procurado eram os célebres "pães de Valongo" que pesavam cerca de meio quilo e eram vendidos, nos finais do século XIX, a 75 reis cada um. Mas a variedade era imensa e para todos os gostos. Vendiam-se também, e em abundância, o nosso muito conhecido "pão molete", regueifas, tosta (doce e azeda) boroa, pão podre, pão coado, biscoitos de várias qualidades e feitios como os de argola, que eram muito procurados por moços e moças dos arrabaldes.

O rápido desenvolvimento urbanístico da cidade e, em especial, do chamado Bairro das Carmelitas ditou o fim da pitoresca feira do pão. Nos começos do século XX, os abarracamentos começaram a ser demolidos e as ladinas padeiras de Valongo instalaram-se na ala sul do Mercado de Anjo, entretanto também já desaparecido. Coisas da vida de uma cidade...


Germano Silva

Publicado no
Jornal de Notícias