Nasci no Porto. Desde muito jovem percorri ruas e lugares. Frequentei pessoas e acontecimentos. Afastei-me da cidade. Voltei ao lugar onde vi a Luz. Com o passar do Tempo libertei-me de um certo bairrismo. A cidade não é minha, mas eu sou desta terra.
O Professor Luís Inácio Woodhouse nasceu no Porto em 1858, e faleceu em 1927. Descendente de uma ilustre família inglesa por seu pai - Roberto Guilherme Woodhouse Barreto de Lencastre - bacharel formado na Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra, sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa, lente de Matemática na portuense Academia Politécnica (1884), foi, nos dizeres de um seu biógrafo «professor insígne, uma inteligência arguta e um carácter primoroso». Lembremos o perfil do ilustre sábio, traçado por um seu discípulo, o Professor Aníbal Cipião de Carvalho: ao aproximarem-se dele «todos reconheciam a sua superioridade nos mais variados sentidos», e admiravam «o extraordinário equilíbrio das múltiplas aptidões do seu espírito, a extensão da sua cultura, a bondade do seu coração, a inteligência de que era dotado, a ânsia constante de perfeição, a afabilidade de trato e a educação primorosa». A sua extensa bibliografia e outros dados para a sua biografia podem ler-se na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
Sobre Paranhos
Nos inícios do século XX a maioria da população residente na freguesia ainda se dedicava à agricultura, uma vez que os terrenos eram férteis e abundantes em água. Hoje podemos desfrutar da tranquilidade de inúmeros espaços verdes e jardins, um pouco espalhados por toda a freguesia, como a Quinta do Covelo, o Jardim de Arca D’Água, Largo do Campo Lindo, entre outros.
Como o número de habitantes foi crescendo incessantemente, a freguesia foi-se transformando em termos paisagísticos. Muitos dos campos existentes, foram dando lugar à construção de edifícios, não só habitacionais, mas também institucionais. É portanto, no século XX, que começa a nascer uma freguesia de cariz urbano, com a pavimentação de ruas e caminhos, aproximação da freguesia ao centro da cidade através do melhoramento das vias, o que se traduziu numa maior mobilidade da população.
Uma das entidades que perdeu inúmeros terrenos em prol do desenvolvimento urbano foi a Igreja, uma vez que Paranhos foi Couto de bispos desde 1341, ano em que o rei D. Afonso IV a confirmou à Mitra do Porto.
À Igreja, pertenciam terrenos como:
- Quinta do Regado, onde hoje se encontra o Bairro do Regado
- Quinta do Tronco, onde hoje é a Rua do Amial e Rua Nova do Tronco
- Quinta do Paço, onde hoje estão as Ruas Dr. Manuel Laranjeira, Pereira Reis, Assis Vaz, Luís Woodhouse, Pedro Teixeira, Rua do Relógio, entre outras
- Casal do Couto, cujos antigos terrenos hoje são ocupados pelas Ruas do Vale Formoso, Campo Lindo, Luz Soriano e a Praça Nove de Abril (Jardim de Arca D’Água).
O Doutor Francisco de Assis e Sousa Vaz ( n. 1797 - f.1870 ) foi um médico ilustre da cidade e professor na Escola Médico-Cirúrgica.
Sobre este médico, que tratou Carlos Alberto da Sardenha, quando este esteve no Porto, já publiquei algumas notas aqui.
Nota sobre a atribuição de nomes às artérias: Curiosamente deve ser um caso raro no que diz respeito ao facto de se ter ignorado o título a que este professor universitário teria direito.
Acabo de constatar, com alguma alegria e justificada satisfação, naturalmente (é sempre bom saber que ainda há quem se interesse pela história desta cidade), que a maior parte da correspondência, e-mails, mensagens e telefonemas que recebo, por causa destas crónicas portuenses, provêm de gente moça que anda a fazer trabalhos académicos sobre o Porto.
Como é o caso da pergunta que me foi dirigida por um estudante do Secundário e que deu origem à presente crónica. A questão formulada foi a seguinte "… que batalha foi a que destruiu a casa e a capela da Quinta do Covelo ?". Comecemos pela história da propriedade.
No século XVIII, aí por 1720, a quinta, então chamada do Lindo Vale ou da Boa Vista, pertencia a um fidalgo chamado Pais de Andrade. Pela morte deste passou, por herança, para duas filhas que a venderam a um negociante chamado Manuel José do Covelo. A partir daqui fica-se a saber por que é que a quinta se passou a chamar do Covelo. No século XIX há o registo de nova mudança de dono por 1829 ou 1830, a quinta foi vendida, pelos descendentes do Covelo, a Manuel Pereira da Rocha Paranhos e passou a ser conhecida, também, por Quinta do Paranhos. O Manuel José do Covelo foi sepultado num mausoléu de pedra no interior da capela que tinha Santo António como padroeiro. O que resta dessa grande propriedade pertence, hoje, à Câmara do Porto que ali instalou um parque público. A casa e a capela, um belíssimo conjunto da Arquitectura setecentista, foram incendiadas e destruídas, em 16 de Setembro de 1832, na sequência de combates entre liberais e miguelistas, ocorridos durante o Cerco do Porto.
Logo a seguir à entrada no Porto do Exército Liberal, a 9 de Julho de 1832, os miguelistas trataram de montar, a partir do que, então, eram considerados os arrabaldes da cidade, um apertado cerco aos sitiados. Nesse sentido , criaram posições ofensivas em sítios de onde mais facilmente, através das suas peças de artilharia, lhes fosse possível atingir o centro da cidade e, ao mesmo tempo, impedir o reabastecimento das tropas liberais e dos próprios civis.
O alto do Covelo, a que popularmente se chamava "o monte", foi considerado pelas tropas absolutistas como o sítio ideal para montar a artilharia que havia de metralhar o centro do Porto e vigiar as movimentações de civis no sentido de impedir, por exemplo, que os lavradores de Paranhos introduzissem na cidade mantimentos e outros viveres através da estrada da Cruz das Regateiras. E com estes propósitos criaram uma autêntica fortificação na Quinta do Covelo.
Só que os liberais não ficaram quedos. Consta que por iniciativa do próprio D. Pedro IV as tropas constitucionais resolveram, em 16 de Setembro de 1832, desalojar os miguelistas do reduto do Covelo, a fim de ficarem com o controlo daquela zona, de grande importância estratégica para os combates que estavam para vir. Os objectivos dos liberais foram conseguidos. Uma força de "mais de 1400 baionetas", além de terem escorraçado os miguelistas, a quem causaram inúmeras baixas, ainda arrasaram fortificações e destruíram baterias e canhoneiras.
Mas por muito pouco tempo os soldados de D. Pedro lograram manter as posições que haviam conquistado. Os absolutistas contra atacaram, em Março de 1833, e conseguiram, depois de renhidos combates, com enormes perdas para as duas partes, retomar as posições que pouco antes haviam perdido. De imediato iniciaram a construção de "defesas do monte" erguendo ao redor estacadas ou paliçadas com o que pretendiam ocultar os trabalhos de fortificação que andavam a fazer. E os liberais? Que fizeram ?
Voltaram ao ataque. Numa das digressões que diariamente fazia aos locais onde o perigo mais se fazia sentir, D. Pedro passou pela Aguardente (actual Praça do Marquês de Pombal) e apercebeu-se do perigo que constituía para a sua causa o facto de os miguelistas terem retomado o Covelo e providenciou para aquela posição voltasse a ser ocupada pelos liberais. Isso aconteceu a 9 de Abril de 1833. E a delicada e arriscada tarefa foi confiada ao coronel José Joaquim Pacheco que, mais tarde, viria a morrer, em combate, na Areosa. A cidade, agradecida, deu o seu nome à antiga Praça do Mirante que é hoje a Praça do Coronel Pacheco. Uma crónica da época refere esta segunda tomada do Covelo pelos liberais, da seguinte forma "… a 7 de Abril descobriu-se a longa estacada feita pelos miguelistas desde as primeiras casas de Paranhos até às eiras do Covelo. Queriam fortificar-se ali. Não havia tempo a perder. Era preciso desalojá-los. A artilharia dos liberais começou a responder desde as primeiras horas da manhã do dia 9 e durou o fogo até ás seis da tarde. Cruzaram-se os fogos das baterias da Glória (Lapa), do Pico das Medalhas (Monte Pedral), do Sério (alto da Lapa), da Aguardente (Marquês de Pombal) e de S. Brás. Uma força de mil homens saiu fora das linhas parta tomar de assalto o monte do Covelo. Mas no dia seguinte (10 de Abril) os absolutistas voltaram com o intuito de retomarem as posições perdidas e onde os liberais haviam levantado um reduto em menos de oito horas. Estavam lá dentro apenas 200 soldados. Foram atacados por mais de 2000 do inimigo. Foram momentos decisivos. Duzentos homens livres conseguiram pôr em fuga 2000 do inimigo…"
Abílio Adriano de Campos Monteiro (1876-1934) nasceu em Moncorvo, Trás-os-Montes. Formou-se em Medicina. Campos Monteiro notabilizou-se como romancista.
Arquivo da Toponímia
Com a História não se brinca, mais uma vez penso que os dados sobre certas personagens publicados na página da Toponímia são demasiado fantasistas. Contrariamente ao que se afirma na página da toponímia portuense, Campos Monteiro faleceu em S. Mamede de Infesta, não em 1934 mas em Dezembro de 1933, senão vejamos:
"Sexta-feira, 16 de Maio de 2008 Campos Monteiro
Desculpem a insistência no Campos Monteiro, mas com este pequeno texto, de aditamento, relativo à homenagem que lhe foi prestada em Moncorvo, parece-me que dou mais alguns elementos pouco conhecidos para quem um dia queira fazer algum trabalho sobre este escritor transmontano. Rogério Rodrigues
Notícia do Primeiro de Janeiro
Moncorvo homenageia Campos Monteiro
Dez anos após a sua morte, em 1943, Carlos de Passos, amigo de Campos Monteiro prepara e edita uma “Homenagem a Campos Monteiro. Miscelânea de estudos em honra do escritor e do cidadão--1876-1933”. O livro com uma tiragem apenas de 500 exemplares é editado pela Livraria Tavares Martins, Porto, 1943. Além de vários depoimentos, constantes do livro, na generalidade de escritores e jornalistas de direita e extrema-direita, homens do Estado Novo e monárquicos, o in memoriam trás a notícia do Primeiro de Janeiro dando conta da homenagem que lhe foi prestada em Moncorvo, a 21 de Janeiro de 1934, um mês e meio, sensivelmente, após a sua morte em S. Mamede de Infesta. Pelo seu interesse, aqui a publicamos na íntegra, com a devida actualização ortográfica:
“MONCORVO, 22 - Na sala de Leitura do Dr. Campos Monteiro, do Club Recreativo Moncorvense, efectuou-se ontem uma sessão solene de homenagem à memória daquele grande escritor, sendo nesse acto descerrada a fotografia daquele conterrâneo ilustre. Assistência numerosa, onde se encontravam as individualidades de maior categoria social desta vila. Presidiu à sessão o sr. Dr. José de Abreu, digno notário desta comarca e presidente da assembleia geral, secretariado pelos srs. Julião Serra e Alfredo de Sousa, membros da direcção do mesmo Club. O sr. Presidente abriu a sessão e no seu discurso, que foi cheio de frases eloquentes, focou com brilho admirável a grande figura que foi Campos Monteiro. Falou em seguida o representante da Direcção Sr. Julião Serra que em palavras singelas pôs em relevo algumas da obras do grande mestre. Fala depois um novo que promete --o Sr. Telmo da Fonseca --, que num discurso brilhante, cheio de beleza e frases arrebatadoras, enaltece o grande valor moral e intelectual de Campos Monteiro, pedindo no final um minuto de silêncio como homenagem à memória daquela figura que tanto enriqueceu as letras pátrias. Fala a seguir o Snr. Alcino Alves, digno Inspector da Companhia de Ferro, que num esplêndido discurso pôs em relevo o poeta ilustre que foi Campos Monteiro, além de prosador incomparável e médico distinto. O retrato, obra admirável da Fotografia Medina, dessa cidade, estava coberto com a bandeira da Municipalidade de Moncorvo, sendo descoberto pela interessante filhinha do membro da Direcção, Sr. Adriano Fernandes e sobrinha do homenageado, Maria Adelaide da Silva Fernandes. Na biblioteca, em princípio, há 400 volumes, encontrando-se ali representados os maiores escritores, tanto nacionais como estrangeiros, a qual vai ser enriquecida brevemente, com a obra do saudoso morto. Campos Monteiro que tanto amava a terra em que nasceu, merece uma homenagem mais alta e grandiosa. O nome numa rua, é pouco. Uma lápide na casa onde soltou os primeiros vagidos ainda não é o bastante. Campos Monteiro, essa distinta figura da literatura portuguesa, merece uma homenagem maior, muito maior, e que mostre às gerações vindouras esse grande vulto que enriqueceu as letras pátrias, foi o orgulho da terra que lhe serviu de berço. Nota -- Essa homenagem maior está em vias de realização, pois brevemente na sua terra natal se inaugurará o justo monumento comemorativo da nobre figura intelectual que foi o Dr. Campos Monteiro. A iniciativa e a realização do mesmo devem-se a uma comissão de bairristas, formada pelos Exmos Srs: Engenheiro Guilherme de Castro Leandro, Dr. António Joaquim Marrana, Alferes António Augusto Serra, Amadeu Ferreira d’Andrade, Claudino d’Oliveira Pereira e António José Martins”.
Era esta a notícia do “Primeiro de Janeiro”, provavelmente de um correspondente local. Em 1939, da autoria de Sousa Caldas, foi erguida a escultura de Campos Monteiro frente à Câmara Municipal."
A blogosfera tornou-se num espaço de denúncia e de discussão sobre o que corre mal nas cidades. E também sobre o que há a fazer para melhorar.
Paredes desfiguradas, bairros abandonados, jardins que de jardim só têm o nome, pobreza escondida, cidades cinzentas. Estes cenários são comuns em vários pontos do país. E ao vê-los, a vontade de fazer algo para os corrigir aumenta. Até aqui a questão sempre foi "como?".
A Internet trouxe múltiplas possibilidades de contactos e de novas interacções, mas despertou, também, dezenas de pessoas para a capacidade - e facilidade - de inovadoras formas de participação política e denúncia. Os blogues são apenas o mais recente e, talvez, o mais bem sucedido caso. Apesar de não haver uma rede que una os blogues das várias cidades, são espaços cada vez mais activos. Fora das lides partidárias, apesar de as discussões muitas vezes resvalarem para o campo político, o objectivo é ter um papel na renovação e na melhoria das cidades.
Em 2004, a Câmara do Porto inaugurou um fórum de discussão para debater o Plano Director Municipal. O espaço virtual foi uma experiência positiva e quando a autarquia o decidiu encerrar, terminado o debate, os utilizadores ficaram "sem casa", como diz ao JPN Tiago Azevedo Fernandes. Contudo, este membro do fórum decidiu "realojar" quem pretendia discutir problemáticas da cidade: nascia "A Baixa do Porto". Desde 2004, este blogue, que é mais do que um blogue normal, tem sido um espaço de discussão extremamente dinâmica sobre o Porto e sobre a região Norte.
"Com a participação que houve de muita gente qualificada como arquitectos, engenheiros, mas que ia também de pessoas anónimas a figuras públicas, [o "Baixa do Porto"] foi ganhando alguma dimensão e relevo político", diz o fundador, Tiago Azevedo Fernandes, também conhecido pelas iniciais, TAF. "A Baixa do Porto" é um espaço aberto a todos que quiserem participar, bastando para isso enviar um e-mail com o texto para o seu "moderador". "Não é um blogue de autor. É um blogue público, qualquer pessoa pode escrever lá, desde que respeite o tema e me envie um e-mail. O blogue não é meu a não ser no sentido de ser eu o moderador", afirma.
O blogue atingiu tal relevo que chega a receber o contributo ocasional do vereador do Urbanismo da Câmara do Porto, Lino Ferreira, e em tempos também contou com as participações do anterior vereador desse pelouro, Paulo Morais. Aquando da discussão sobre a alameda Nun'Alvares, diz Tiago Azevedo Fernandes, "A Baixa do Porto" foi formalmente convidado pela autarquia para comentar o projecto, a par das ordens dos Engenheiros e dos Arquitectos.
Com uma média de 600 visitas diárias, o blogue tornou-se numa referência de informação e de debate na cidade. "Há muita gente com interesse e com capacidade de intervenção, mas que antes desta era dos blogues pensava 'se calhar sou só eu que penso assim, não vale a pena falar'. As pessoas perceberam que há muita gente, mesmo que não seja a maioria, que pensa da mesma maneira, ou que pelo menos tem ideias compatíveis. Esse papel, a blogosfera veio trazer e é uma novidade. Um artigo no jornal pode ser aceite ou não; no blogue é publicado e acabou", explica o fundador d'"A Baixa do Porto".
De Norte a Sul
Surgiram outros blogues sobre o Porto, de debate ou não, como o "Ruas da minha terra". E noutros pontos do país, este fenómeno também se gerou. Na ponta a Sul do país, "A Defesa de Faro" foi criada em Fevereiro de 2006, com o objectivo "de juntar à distância de um clique todos aqueles que amam profundamente a cidade", diz ao JPN um dos dinamizadores do blogue, Nuno Graça, que admite a inspiração em projectos como "A Baixa do Porto".
Nuno Graça salienta a importância de serem criados novos espaços de participação popular, tomando em conta aquilo que muitos vêem como sendo o crescente afastamento entre as pessoas e os poderes autárquico e central. "O nosso blogue serve só para dar um espaço a pessoas que poderiam escrever em locais de grande visibilidade, mas não tem essa oportunidade, assim como, para dar a conhecer histórias de Faro", explica, por e-mail.
"Uma cidade sem memória, sem história, é um subúrbio condenado ao desaparecimento. Por isso, este blogue é feito por todos e espera todos os dias ter novas histórias para contar. E também espera lhe cheguem ideias construtivas e alguns problemas que não nos cansaremos em denunciar", declara Nuno Graça.
Blogues como voz da população
Os blogues urbanos não são um acontecimento confinado às maiores cidades. Em Santo Tirso foi criado o "Santo Tirso SemVida", num trocadilho feito a partir do slogan "Santo Tirso ConVida". "Santo Tirso encontra-se sob o mesmo governo há varias décadas, fazendo com que a acomodação deste transforme Santo Tirso num concelho estagnado", acusa Alberto Castro, o fundador do blogue, que também aceita colaborações de qualquer pessoa.
O dinamizador deste espaço virtual afirma ao JPN que tem recebido um crescente apoio da população nos temas discutidos no blogue e explica que pretende que o "Santo Tirso SemVida" seja "a voz - politicamente independente - do descontentamento dos vários cidadãos tirsenses que reclamam uma mudança para Santo Tirso". Apesar de reconhecer que há vários participantes que fazem parte da oposição local, Alberto Castro acredita que "a actividade política deverá ser exercida nos locais próprios e não estar excessivamente dependente da utilização das potencialidades da Internet".
"É esta a cidade onde quer viver?"
Também em Lisboa começou a aparecer este tipo de blogues. Em Março deste ano nascia o "Observatório da Baixa", chamando a atenção para o facto de a Baixa voltar "a estar na ordem do dia da agenda dos poderes públicos. Voltam as ideias, as presunções e as tentações. Umas novas, outras velhas. Há mais de 30 anos que assim é." No primeiro post acrescentavam: "cumpre-nos, pois, enquanto alfacinhas, zelar pela Baixa e é isso que faremos".
O fenómeno ampliou-se e teve aquilo que pode ser visto como o seu pico com a fundação do "Lisboa S.O.S.". Com o subtítulo de "É esta a cidade onde quer viver?", os seis autores do blogue não se prolongam em escrita. Preferem a fotografia para mostrar e denunciar a sujidade da cidade, a falta de civismo, a degradação do espaço urbano.
Um dos membros do blogue, que preferem manter o anonimato, afirmou, em entrevista ao JPN, que "'mostrar', através de fotografias, que não mentem" é mais importante "do que 'debater' com argumentos que visam objectivos tantas vezes de outra natureza - essencialmente, política". "E, além disso, mostrar imagens já é uma forma de contribuir para qualquer debate. Com uma vantagem: é a forma mais objectiva possível. Contra fotos não há argumentos".
Por meados do século XVI, quando andava a ser construído o mosteiro de S. Bento da Ave-Maria, de monjas beneditinas, aquela zona da cidade que vai da actual Praça de Almeida Garrett, pelas ruas do Loureiro e Chã, até ao cimo da Rua do Corpo da Guarda, devia ser um dos sítios mais pitorescos e de maior movimento no Porto desses tempos.
Caminho obrigatório dos arredores para o centro nevrálgico da urbe medieval, pela velhinha Porta de Vandoma até ao cimo do Corpo da Guarda, a antiga Cividade (era assim que se denominava toda aquela vasta área) deve ter sido um rumoroso mundo, álacre e guizalhante, no ambiente típico de uma cidade medieval, em que se misturavam judeus e mouros de albarnoz; clérigos de sotaina e frades de hábito, com o formigueiro dos mesteirais e das vendedeiras no alarido dos seus pregões.
Pois foi por essa época (26 de Novembro de 1527) que à Câmara do Porto chegou uma curiosa carta de D. João III.
O monarca, que escreveu de Coimbra, pedia aos edis portuenses que consentissem em que fosse tapada determinada rua ou travessa sob a alegação de que essa artéria "… ia ter ao lugar por onde havia de ir (passar) a cerca do mosteiro novo das monjas…" de S. Bento da Ave-Maria.
O rei justificava a petição com o seguinte argumento que a tal rua ou travessa "… estava num cabeço allto, de que se descobre a mór parte da orta do mosteiro novo das monjas, o que é desonesto por dhai se poderem ver as freiras sempre que elas saiem à dita orta…"
Tratava-se, portanto, de uma questão de privacidade plenamente justificada e que a Câmara atendeu.
Ocorre agora perguntar e que rua ou travessa era essa que o rei pediu para que fosse tapada ?
Vamos por partes o mosteiro de S. Bento da Ave Maria começou a ser construído, em 1518, em terrenos onde antes ficavam as hortas do bispo que ali tinha, também, um faval. Era, por isso, que a actual Praça de Almeida Garrett se chamava, em tempos idos, Praça da Faval. Este faval ocupava o terreno onde hoje está o edifício da estação e gare.
Acrescente-se, a título de informação que, ao tempo a que se reportam os acontecimentos que aqui estamos a evocar, meados do século XVI, a maior zona verde da urbe, intramuros, situava-se, exactamente, na zona contígua à Porta de Carros, atravessando uma vasta área coberta " de pomares, hortas, fontes e sua água..." como se lê num documento de doação.
Voltemos à construção do mosteiro das monjas beneditinas no faval do bispo.
Para que o convento pudesse ser construído, com a respectiva cerca, houve necessidade de encerrar a primitiva Porta de Carros que havia sido aberta, na muralha fernandina, em 1409, "junto à fonte da Teresa", num local que hoje podemos considerar como sendo ao fundo da actual Rua da Madeira, antiga Calçada da Teresa.
Para substituir aquela porta foi aberta, em 1521, uma outra , "…a pouco mais de cem passos para o lado do Oriente…" que ficava mesmo em frente à entrada principal da igreja dos Congregados e ligava, directamente, com a Rua das Flores que também andava a ser aberta por essa altura.
O acesso à primitiva porta de Carros fazia-se por um arruamento que vinha directamente da Rua Chã, de junto do sitio "onde havia uma vistosa fonte que era alimentada com água do manancial de Mijavelhas", e atravessava a parte de cima das hortas do bispo sensivelmente. Seria esta a antiga Rua do Faval ou a desaparecida Viela d a Cividade de que tanto se tem falado ? Nós não temos a certeza mas do que não há dúvidas é que foi esta a artéria que D. João III pediu para que fosse tapada a fim de garantir a privacidade das freiras que andassem na cerca do seu mosteiro.