21.11.07

Leituras

Por vezes gosto de publicar alguns textos já aparecidos na internet que têm algo a ver com as ruas da cidade onde vivo e que alimenta as fotos deste blogue. O texto de hoje tem a ver com o Largo de S. João Novo.
Cuidem-se os leitores e amigos do blogue que também consigo ler no papel. Mais tarde, talvez venha a publicar alguma prosa recolhida. Hoje deixo um texto de Hélder Pacheco que amanhã lançará mais um livro.

"Um certo museu


Noticiaram os jornais que, finalmente, o problema do Museu de S. João Novo ia ter solução, com a aquisição do edifício e a reactivação daquela instituição. E também que o Museu de Arte Popular, de Lisboa, seria extinto. Espantei-me. Quanto à segunda questão, os lisboetas que se havenham com ela, e esbracejem (ou não) como entenderem. A primeira, sim, interessa-me. E muito.

A situação do antigo Museu de Etnografia e História do Douro Litoral é não apenas um escândalo, mas uma indignidade cívica. E só num país que perdeu o sentido do verdadeiro progresso - que também passa pela existência de bons museus, onde se faça a instrução do público -, o que lhe sucedeu poderia acontecer. Se quiserem, só num país que perdeu o decoro uma herança como a consubstanciada no espólio daquele museu poderia ser menosprezada.

O Museu de S. João Novo foi fundado em 1940, sob o impulso do dr. Pedro Vitorino, quando a Junta da Província do Douro Litoral alugou aos descendentes do "opulento capitalista" Pedro da Costa Lima o belo palacete setecentista daquele largo. A partir daí, graças a personalidades como Augusto César Pires de Lima, Armando de Matos, Bertino Daciano, Eugênio da Cunha e Freitas, Fernando de Castro Pires de Lima e outros, o Museu recolheu uma notável colecção de objectos, equipamentos e documentos representativos das artes e ofícios, actividades do quotidiano e manifestações festivas - além de peças arqueológicas, litúrgicas e do que podemos definir, abreviando, por elementos do folclore - do chamado Douro Litoral (com relevância para a própria cidade do Porto).

Segundo os critérios (ou, como agora se diz, o paradigma) da época, o programa museográfico da instituição seria estabelecido a partir da distribuição das colecções por salas correspondentes às diferentes temáticas. Havia, assim, as salas dos teares, linho, trajo, mobiliário, brinquedos, rendas e bordados, habitação, jogos e cangas, barcos, medicina popular, religiões, arraial, e amor popular, reunindo milhares de peças da maior qualidade e algumas (estou a lembrar-me dos jugos e cangas) de valor hoje incalculável pela raridade. Além disso, o Museu publicou, ao longo dos anos 50, a revista "Douro Litoral", a que sucedeu, entre 1963 e 66, a "Revista de Etnografia", arquivos incomparáveis de uma escola portuense de etnografia e fontes preciosas para o conhecimento do país (e não só, pois nelas colaboraram investigadores de outros países). E, além do resto, os espaços pertencentes ao Palacete-Museu de S. João Novo guardam dos melhores panos conservados da Muralha (dita) Fernandina da cidade.

Tudo se encontrava exposto, arrumado, explicado, com critérios ultrapassados, é certo, mas, sobre isso, ponto final, parágrafo (o Museu do Quai Branly, recentemente inaugurado em Paris, reuniu as colecções oriundas do antigo Museu do Homem, recolhidas no período colonial puro e duro segundo a visão eurocentista de "artes primitivas" mais do que enterrada. Tal facto não impediu a adequação daquele fantástico repositório de objectos, rebaptizados segundo o conceito de "artes primeiras", ao mais moderno museu europeu). E, com a direcção do arquitecto Fernando Lanhas, o Museu de S. João Novo ganharia novos atributos no campo da história da evolução do Homem no Universo e da adequação de algumas colecções a perspectivas museológicas dirigidas para uma vocação didáctico-pedagógica.

No início dos anos 90, o Museu foi encerrado devido às precárias condições do edifício e aos riscos de deterioração dos objectos. E o problema não mais teve solução. Correram rumores da sua extinção, da dispersão das colecções ou da transferência para outro concelho. Desmantelou-se a rica biblioteca , armazenaram-se peças num local da cidade (em condições tão más quanto as do edifício). Dizem-me que a colecção de brinquedos já saiu do burgo.

Quinze anos depois, mantém-se o lento assassinato de uma instituição organizada com tanta dedicação por um punhado de homens devotados a uma causa que os burocratas-funcionários da cultura nem categoria têm para entender, quanto mais respeitar. O Museu de S. João Novo poderia constituir, com um programa moderno e novo fôlego, um pólo activo de conhecimento das tradições da cidade e sua região, um recurso educativo de primeiro plano, um motor dinâmico da regeneração do burgo. É possível, em pleno século XXI, na Euro pa, pensar-se que desenvolvimento, competitividade, produtividade, modernidade e outros tops não são, antes do mais, questões culturais num quadro civilizacional? E quanto tempo mais teremos de continuar a suportar vergonhas - que desmentem a civilização - como o desprezo e o abandono votado ao nosso Museu (que foi) de Etnografia e História?"

Publicado no Jornal de Notícias



20.11.07

Rua das ÁGUAS FÉRREAS




Fotografia publicada e localizada no Flickr

Deve o seu nome à quinta das Águas Férreas. A quinta de Santo António da Boavista, chamada das Águas Férreas por ter uma fonte desta água junto aos seus muros...(Toponímia Portuense de Eugénio Andrea da Cunha e Freitas)


Já foi rua Oliveira Martins. Tem o actual nome desde 1950.

Rua ANTÓNIO GRANJO



Foto publicada e localizada aqui

"António Joaquim Granjo, nasceu em Chaves a 27 de Dezembro de 1881 foi um advogado e político português.

Republicano na sua juventude, era um membro do Assembleia Nacional Constituinte, eleito em 28 de Maio de 1911. Lutou durante a participação portuguesa na primeira guerra mundial, e escreveu um livro sobre suas experiências.

Depois do assassinato do presidente Sidónio Pais, António Granjo insurgiu-se contra a Monarquia do Norte em 1919e a tentativa de da instauração de um regime Real. Foi presidente da câmara municipal de Chaves de Fevereiro a julho de 1919. Eleito no mesmo ano para a câmara dos deputados, pelo partido republicano evolucionista e mais tarde fundador do movimento sucessor, o partido republicano liberal.

Ministro da justiça durante o governo do coligação de Domingos Leite Pereira, serviu o país como o primeiro ministro por dois breves mandatos, de 19 de julho a 20 de Novembro de 1920, num governo liberal. Foi nomeado novamente primeiro ministro, para substituir Tomé de Barros Queiroz, a 30 de agosto de 1921.

António Granjo foi cruelmente assassinado na noite de 20 para 21 de Outubro de 1921, conhecida por “noite sangrenta”, na sequência da revolução de cariz radical iniciada a dia 19, que o levou a pedir a demissão do cargo de primeiro ministro que então desempenhava.

Os seus assassinos foram marinheiros e soldados da GNR integrantes do movimento revolucionário em curso comandados pelo Cabo Olímpio, o “dente de ouro”. António Granjo foi levado de casa de Cunha Leal, afecto ao Partido Democrático, onde tinha tentado obter protecção, e levado para o Arsenal da Marinha. À sua chegada foi ferido com dois tiros no pescoço, tendo sido tratado na enfermaria e recolhido a um quarto. Um grupo de revolucionários entrou no quarto onde se encontrava gravemente ferido crivando-o de balas. Depois disso um corneteiro da GNR ainda lhe cravou um sabre no ventre.

Na sequência desta revolução vale recordar que na “noite sangrenta” foram também assassinados outros republicanos do 5 de Outubro, entre os quais os revolucionários Machado Santos e José Carlos da Maia. Em comum entre todos os assassinados o terem sido opositores da corrente radical que dominou a I República portuguesa, com a excepção de poucos e breves interregnos."

texto publicado na wikipédia:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Joaquim_Granjo

19.11.07

Rua Dr. ANTÓNIO LUIS GOMES


trindade

Fotografia publicada e localizada aqui



Tem o nome actual desde 1975. Anteriormente teve o nome de rua António Sardinha.


Antes das obras de abertura da Avenida dos Aliados e da construção do actual edifício da Câmara Municipal - antes de 1916, portanto - era muito diferente a topografia existente no local. Não é fácil historiar o emaranhado urbano então denominado Sítio do Laranjal. Diremos apenas que da Cancelha Velha até ao Praça da Trindade corria uma viela denominada do Cisne, corrupção de Cirne, apelido dos proprietários de uma das vizinhas quintas do Laranjal - do Laranjal de Cima. « Viela do Sirnes », se lhe chama num registo paroquial de Santo Ildefonso, de 1799: Travessa do Cirne em 1811, Largo do Cirne, em 1814, Viela do Cirne, no Guia Histórico de 1864. Foi esta Viela do Cirne, « que vai da Cancela Velha ter ao cimo da Rua do Laranjal, à esquina do Palácio Ferreirinha, na Praça da Trindade », teatro de um horroroso crime que Pinho Leal relata pormenorizadamente no seu « Portugal Antigo e Moderno ». Ficou conhecido pelo crime do homem salgado por a vítima ter sido encontrada, em 13 de Março de 1825, dentro de um grande barril, cheio de sal - crime que fez a maior sensação na cidade. Surgiu, mais tarde, no lugar desta Viela do Cirne, uma curta artéria que se chamou primeiro, segundo cremos, Rua de Adriano Machado ( já tinha este nome em 1895 ) e, depois de concluído o edifício da Câmara e urbanizados os terrenos adjacentes, Rua de António Sardinha, vigoroso jornalista e escritor de grandes méritos, um dos fundadores do integralismo Lusitano... (Toponímia Portuense de Andrea da Cunha e Feitas)


Breve nota biográfica de António Luiz Gomes:
O Dr. António Luís Gomes - (Porto n, 23/09/1863 - f. 28/08/1961). Formou-se na Universidade de Coimbra em 1890, e militando sempre no partido Républicano fez parte do Governo Provisório, em 1910. No ano seguinte foi para o Brasil como nosso Embaixador. Por largos anos exerceu o cargo de provedor da Misericórdia do Porto (até 1944); reitor da Universidade de Coimbra de 1921 a 1924, deputado da Nação em 1909 e depois em várias legislaturas. Presidiu ao 1º Congresso Republicano de Aveiro (1957). Pai de Ruy Luiz Gomes.

Largo da LAPA

lapa

Foto publicada e localizada aqui
Portão do Cemitério da Lapa


Sobre o Largo da Lapa:

Parece que, por medos do século XVIII, no Monte de Germalde, ou de Santo Ovídio, então arrabalde da cidade, havia uma fonte, sob a invocação de nossa Senhora da Lapa, a que alguns vizinhos prestavam culto. Em Dezembro de 1754 chegou ao Porto o Pde. Ângelo de Siqueira, missionário brasileiro cónego da Sé de S. Paulo, grande devoto e propagador da veneração da Mãe de Deus sob aquela invocação. E segundo refere a tradição entrou na cidade sob violentíssimo temporal, que teria amainado graças aos seus sermões de apostolado. E assim se afervorou o culto de Nossa Senhora da Lapa, promovendo o Padre Ângelo, com o auxilio de clero, nobreza e povo a construção de um seminário e de uma capela no local onde existia a fonte - para o que obteve licença da Mitra e em 29 de Dezembro desse mesmo ano de 1754 a cedência pela Câmara de um terreno no lugar do Padrão Velho de Santo Ovídio... (Toponímia Portuense de Andrea da Cunha e Freitas)

Sobre o Cemitério da Lapa:

Em 1833, o Cerco do Porto gerou uma situação extremamente difícil de salubridade na cidade e favoreceu o surgimento duma epidemia muito mortífera: o cholera morbus. Esta rapidamente lotou os locais de enterramento, facto agravado pelos soldados que iam morrendo nas investidas dos Miguelistas. Perante este cenário, foi necessário recorrer ao chão de algumas igrejas que nem sequer estavam totalmente construídas (como a da Trindade) e aos terrenos anexos de outras, para sepultar tantos cadáveres.

Nesse ano, a Mesa da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa pediu a D. Pedro IV que autorizasse a construção de um cemitério privativo. A Mesa poderia ter em mente um mero terreno anexo temporário para sepulturas. Mas todo o processo de construção do posterior Cemitério da Lapa parece mostrar que, já em 1833, a Irmandade da Lapa pretendia um cemitério "ao moderno". Ou seja, convenientemente murado, enobrecido com portal, com locais próprios para a construção de monumentos, tal como se fazia já há algumas décadas em Paris, cidade modelo para quase tudo na época. Por isso, o Cemitério da Lapa é considerado o cemitério "moderno" mais antigo do Porto, mesmo não sendo público, até porque foi criado antes do decreto de 1835. Contudo, como situação de transição, foi necessário estabelecer um cemitério interino, por detrás da capela-mor da respectiva igreja. O Cemitério da Lapa propriamente dito só foi oficialmente benzido no Verão de 1838, tendo os primeiros monumentos surgido em 1839.
Neste cemitério foram sepultados, entre outras figuras portuenses de vulto, Camilo Castelo Branco e António Augusto Soares dos Passos.


16.11.07

Rua do CAMPO ALEGRE


Esta rua já teve o nome de Rua de Santo Amaro. É assim que se denominava no Roteiro de 1933. Tem o nome actual desde 1949.



Da origem do nome:

A Quinta do Campo Alegre que por fins do século XVIII parece se chamava Quinta Grande, nos primeiros anos da Centúria seguinte pertencia ao francês João Pedro Salambert tendo-lhe sido confiscada pelo Fisco Real e Juízo da Inconfidência em consequência das Invasões francesas...(Toponímia Portuense de Eugénio Andrea da Cunha e Freitas)



Junta de Freguesia de Massarelos



O edifício do nº 390 desta rua, na esquina da rua Gonçalo Sampaio, actualmente ocupado pela companhia de seguros Axa foi projectado pelos arquitectos José Pulido Valente, Nicolau Brandão e Ricardo Figueiredo em 1970, a obra ficou concluída em 1982.

A Residência Universitária no número 1395 desta artéria foi projectada em 1988 pelo arquitecto Noé Diniz e concluída em 2000!   



12.11.07

Rua MIGUEL TORGA

torga

Uma rua sem saída, quase um beco, num sítio longínquo e perdido da cidade, talvez pelo seu "bucolismo" lhe tenha sido dado o nome do poeta que nasceu em S. Martinho de Anta - saloíces de tecnocratas urbanos!

Sobre a obra de Miguel Torga:

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, nasceu em 1907 em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes, e faleceu em 17 de Janeiro de 1995 em Coimbra. Emigrou para o Brasil ainda jovem e, quando regressou em 1925, matriculou-se na Universidade de Coimbra onde se formou em Medicina. Esteve de início literariamente próximo do grupo da Presença, sediado em Coimbra. Por volta de 1930, estava já afastado do grupo, fundando a revista Sinal. Funda pouco depois a revista Manisfesto. Começou a ser conhecido como poeta, tendo mais tarde ganho notoriedade com os seus contos ruralistas e os seus dezasseis volumes de Diário, estes publicados entre 1941-1995. Várias vezes nomeado para o Prémio Nobel da Literatura, tornou-se um dos mais conhecidos autores portugueses do século XX.
Obras:
POESIA: Ansiedade (1928), Rampa (1930), Tributo (1931), Abismo (1932), O outro Livro de Job (1936), Lamentações (1943), Libertação (1944), Odes (1946), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Alguns Poemas Ibéricos (1952), Penas do Purgatório (1954), Orfeu Rebelde (1958), Câmara Ardente (1962), Poemas Ibéricos (1965).
FICÇÃO: Pão Ázimo (1931), A Terceira Voz (1934), A Criação do Mundo (5 volumes, 1937-1938-1939- 1974-1980), Os Bichos (contos, 1940), Contos da Montanha (1941), Rua (1942), O Senhor Ventura (1943), Novos Contos da Montanha (1944), Vindima (romance, 1945), Pedras Lavradas (contos, 1951).
LITERATURA AUTOBIOGRÁFICA: Diário (16 volumes, 1941-1995), Portugal (1950).

Outras páginas sobre o autor:

  • Torga e as vicissitudes de uma experiência de leitura
  • Algumas considerações sobre Portugal de Miguel Torga
  • A metamorfose em Vitorino Nemésio e Miguel Torga
  • Trás-os-Montes: um paraíso perdido e reencontrado por Torga
  • Este Marão que eu sou: uma procura, através da escrita de Miguel Torga, da imagem e da identidade de Portugal

  • Publicado aqui: Projecto Vercial

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    QUANDO TUDO ACONTECEU

    1907: Nasce Adolfo Correia da Rocha em S. Martinho de Anta (distrito de Vila Real). - 1920: Emigra para o Brasil. - 1925: Regressa do Brasil. - 1927: Fundação da "Presença" em que colabora desde o começo. - 1928: Ingressa na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; Ansiedade, primeiro livro, poesia. - 1930: Deixa a "Presença". - 1931: Pão Ázimo, primeiro livro em prosa. - 1933: Formatura em Medicina. - 1934: A Terceira Voz, prosa; passa a usar o pseudónimo Miguel Torga. - 1936: O outro livro de Job, poesia. - 1937: A Criação do Mundo - Os dois primeiros dias. - 1939: Abertura do consultório médico, em Coimbra. - 1940: Os Bichos. - 1941: Primeiro volume do Diário; Contos da Montanha, que será reeditado no Rio de Janeiro; Terra firme, Mar, primeira obra de teatro. - 1944: Novos Contos da Montanha; Libertação (poesia). - 1945: Vindima, o primeiro romance. - 1947: Sinfonia (teatro). - 1950: Cântico do Homem (poesia); Portugal. - 1954: Penas do Purgatório (poesia) - 1958: Orfeu Rebelde, poesia. - 1965: Poemas Ibéricos. - 1981: Último volume de A Criação do Mundo. - 1993: Último volume do Diário (XVI). - 1995: Morre Adolfo Correia da Rocha.

    O HOMEM E AS ORIGENS







    Adolfo Correia da Rocha, que será conhecido por Miguel Torga, nasce em 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho da Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes. Filho de gente do campo, não mais se desliga das origens, da família, do meio rural e da natureza que o circunda. Mesmo quando não referidos, estão sempre presentes o Pai, a Mãe, o professor primário Sr. Botelho, as fragas, as serranias, a magreza da terra, o suor para dela arrancar o pão, os próprios monumentos megalíticos em que a região é pródiga.
    Entra no Seminário, donde sai pouco depois.
    Emigra para o Brasil em 1920. Trabalha na fazenda do tio, é a dureza da "capinagem" do café. O tio apercebe-se das suas qualidades. Paga-lhe ingresso e estudos no liceu de Leopoldina, onde os professores notam as suas capacidades.
    Regressa a Portugal em 1925. Entra da Faculdade de Medicina de Coimbra. Participa moderadamente na boémia coimbrã. Ainda estudante publica os seus primeiros livros. Com ajuda financeira do tio brasileiro conclui a formatura em 1933.
    A família é um dos pontos fulcrais da sua vida. O pai, com quem a comunicação se faz quase sem necessidade de palavras, é um dos fortes esteios da sua ternura, amor e respeito. Cortei o cabelo ao meu pai e fiz-lhe a barba.(...) Foi sempre bonito, o velhote... Recorda os braços do pai pegando pela primeira vez na neta, recém nascida. O mesmo amor em poemas dedicados à mãe. Por sua mulher e filha um afecto profundo, também.
    Uma parcela de arrogância, um certo distanciamento dos homens, timidez comum aos homens vindos dos meios humildes:
    Nem sempre escrevi que sou intransigente, duro, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. (...) Nem sempre admiti que estava irritado com este camarada e aquele amigo. (...) A desgraça é que não me deixam estar só, pensar só, sentir só.
    O desejo de perfeição absoluta e de verdade:
    Que cada frase em vez de um habilidoso disfarce, fosse uma sedução (...) e um acto sem subterfúgios. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades.
    Não dá nada a ninguém, diz-se. Imensas consultas gratuitas como médico, desmentem a atoarda. Não dispõe de recursos folgados, confidencia a alguns amigos. Compreende-se: por motivos políticos, a sua mulher, Profª. Andrée Crabbé Rocha, é proibida de leccionar e, ao longo dos anos iniciais, altos são os custos editoriais do que publica...
    A ideia da morte e da solidão acompanham-no permanentemente. Desde criança mantêm-se presentes no corpo e no espírito. Dos vinte e cinco poemas insertos no último volume do Diário, cerca de metade evocam-nas. Não porque atinja já uma idade relativamente avançada ou sofra de doença incurável. Na casa dos quarenta e até antes, já o envolvem. Não se traduzem em medo, mas no sentido do limite. Criança ainda, uma noite, sozinho, (...) desamparado e perplexo, assiste à morte do avô. O que não será estranho à obsessão.
    No enterro de Afonso Duarte, ao fazer o elogio fúnebre afirma que a morte purifica os sentimentos.
    O homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós.
    Viajante incansável por todo o país e estrangeiro. Visita a China e a Índia já próximo dos oitenta anos. Pareço um doido a correr esta pátria e nem chego a saber por quê tanta peregrinação.
    Os monumentos entusiasmam-no. Os Jerónimos, a Batalha e Alcobaça têm sentido na Alma da nação. Mafra é uma estupidez que justifica uma punição aos reis doiros que fizeram construir o convento. Os monumentos paleolíticos fascinam-no.
    Sou uma encruzilhadas de duas naturezas. De variadíssimas, dirá quem bem o conhece...
    Morre em 17 de Janeiro de 1995. Enterrado em S. Martinho da Anta, junto dos pais e irmã."
    Pode continuar a ler este artigo aqui: "Vidas Lusófonas"