30.10.06

Rua da PONTE NOVA

foto de Francisco Oliveira

A Rua da Ponte Nova rasgava-se desde a zona central da Rua da Bainharia (sensivelmente a meio do seu percurso), passando o Rio da Vila (na ponte que lhe dava o nome) e subindo pelo morro fronteiro á Sé, a caminho da Porta do Olival. A Rua da Ponte Nova seria grandemente prejudicada com a abertura da Rua Mouzinho da Silveira, que com os seus 19 metros de largura veio retirar coesão e unidade a esta artéria. Regista Sousa Reis que "Para communicar a rua do Bainharia, com a das Flores edificou se huma ponte de pedra, para atravessar o rio da Villa, d'ahi que vem o nome a esta rua."

Na realidade, o nome desta rua teve origem na existência dessa Ponte, que assegurava a comunicação entre a Rua da Banharia (e portanto o velho burgo episcopal) e o lado oposto do Rio da Vila (com a Rua de Stª. Catarina das Flores e, prosseguindo no mesmo eixo da Rua da Ponte Nova, com a Rua de Ferraz,para se alcançar a Rua da Vitória). No entanto, é possível que antes dessa ponte (que significativamente chamam de novo), existisse uma outra, talvez em madeira, bem mais antiga, que definiu esse eixo de circulação. Efectivamente, a Ponte Nova, a de pedra, foi apenas construída nos inícios da segunda metade do Século XVI, em 1556-58. Ora, antes dessa data já existia aí uma ponte, que poderíamos designar de velha, e que servia, embora deficientemente, as necessidades de circulação. E a rua onde essa ponte se localizava era conhecida como a travessa da Fonte dos Ferreiros. Sublinhemos, primeiro, que a Rua da Bainharia era, inicialmente, designada por Rua de Fferrays ou seja, das ferrarias, aspecto que ajuda a enquadrar melhor essa designação toponímica. A Fonte dos Ferreiros não pode deixar de estar ligada a essa actividade que se desenrolava na vizinha Rua de Fferrays. Ora, um documento de 1532 revela que a Rua de Stª. Catarina das Flores foi aberta em parte através do Campo dos Ferreiros. E, em 1551, uma carta régia refere que "em essa cidade está uma travessa que se chama a Fonte dos Ferreiros, por onde há pouco serventia por ser muito estreita e fragosa,sendo muito necessária para serventia de duas ruas principais da cidade, a saber: a rua das Flores e a rua da Bainharia, e para muito parte da cidade, e que seria grande enobrecimento dela abrir-se na dita travessa rua pública".

Essa viela estreita, que servia mal os propósitos dos portuenses que se queriam deslocar para as bandas do Olival, seria a actual Rua da Ponte Nova, que teria sido alargada a partir dos meados do séc. XVI. No entanto, importa sublinhar que, se a queixa de 1551 diz que tinha pouca serventia por ser estreita e fragosa, e que era muito necessária para as Ruas das Flores e da Bainharia, isso é um sintoma claro de que já ali existia uma passagem, possivelmente uma ponte de madeira, também ela estreita. Não se compreenderia o lamento de1551 se não existisse já uma comunicação entre ambas as margens do Rio da Vila.

Como a designação de Rua da Ponte Nova ocorre já em 1564 é de supôr que essa ponte de pedra tenha sido erguida entre 1551 e 1564. E, efectivamente,podemos com segurança precisar que a construção dessa Ponte deve ter tido lugar pouco depois de 1556. Na realidade, Horácio Marçal divulgou um documento da Rainha D. Catarina, mulher de D. João III, datado de 7 de Fevereiro de 1556, onde esta determina e autoriza a construção da Ponte Nova: "A Rainha D. Catarina de Áustria autoriza a Câmara do Porto a realizar obras de interesse público, entre elas o de construção da ponte nova que, sobre o rio da vila, viria a ligar a Rua das Flores com (…) a Bainharia". Trata-se de uma Carta Régia prorrogando por mais 2 anos a Imposição do Real de Casa, aplicando-a para as despesas de compra das casas e para a construção da ponte da rua que se rasgava entre a Rua da Bainharia e a Rua das Flores, e que, segundo o diploma estavam avaliadas em 200.000 Reais. Uma outra carta régia, datada de 19 de Setembro de 1558 revela que se andava a fazer a Ponte, então designada "Ponte da Rua das Flores", e que a obra estava a ser custeada pelos rendimentos do cofre da Imposição do Sal.

Segundo Horácio Marçal, "(…) A Ponte Nova , que se mostrava, de um e outro lado, definido por parapeitos de pedra, era formado apenas por um arco de meia volta.(…) Junto da ponte ou do arco, para a banda do poente, encontrava-se uma escadaria de pedra com dois lanços de degraus separados por largo patamar. No fundo do último lanço, via-se um outro arco de menores dimensões e também sobre o rio, pelo qual se passava a um outro lanço de escadas mais pequeno, que punha em comunicação a Rua da Ponte Nova, com a da Biquinha evice-versa. Chamavam a este passadouro, Escadas da Biquinha Na Ponte Nova, o montante existia um moinho." No que respeita ao moinho que refere Marçal, podemos adiantar que existe uma Planta, executada em 20 de Dezembro de 1819, por Luís Ignácio Barros Lima, que mostra a zona da Ponte Nova, com o respectivo moínho, escadas públicas e fonte.

Ainda nas palavras de H. Marçal, "(…) A Rua da Ponte Nova, tinha o seu pavimento, de pedra miúda e de seixos. Passeios laterais, não tinha. Os prédios, apesar da estreiteza da rua, eram todos altos a alguns de boa construção, embora antigos. Novos, havia poucos. Os mais modernos, em meados do século passado, eram os que se erguiam nos dois ângulos da Bainharia, cuja construção data de 1844. Na Rua da Ponte Nova, entroncava (e entronca) a Viela do Anjo que, tortuosamente, corria pela retaguarda das casas da Bainharia até à Rua do Souto. (…) No prédio nº 54 da Rua da Ponte Nova e na época a que nos reportamos, nasceu a 11 de Novembro de 1850 o insigne pintor António Carvalho da Silva Porto. (...) A Rua da Ponte Nova, era bastante comercial. Havia estabelecimentos de mercearia, tabernas, tendas, oficinas de torneiro e, em grande número, os lojas de roupa feita.".

Na realidade, e conforme Horácio Marçal salientou, os prédios da Rua da Ponte Nova que confinam com a Viela do Anjo e com a Rua da Bainharia são obra relativamente recente, do séc. XIX. Os prédios que outrora aí se erguiam ofereciam diversos problemas de conservação, tendo sido reconstruídos. Efectivamente, em 29 de Outubro de 1770 foi levantado um Auto de Vistoria para demolição da casa que fazia esquina da Rua da Ponte Nova com a Rua da Bainharia, a fim de se alargar a Rua da Ponte Nova e se poder melhorar as condições de trânsito. Em 9 de Julho de 1845 foi feita escritura camarária do alinhamento da Rua da Ponte Nova e parte da Rua da Bainharia, no sítio do cunhal Norte destas duas artérias, tendo para isso sido necessário derrubar uma casa que tinha frente para ambas as ruas. E, em 7 de Janeiro de 1846 seria vendido o terreno que sobrou do alinhamento da Rua da Ponte Nova a Manuel da Monta e a sua mulher; Margarida Rosa, declarando-se que o referido terreno confinava a Nascente com outra propriedade a Poente com a Rua da Ponta Nova, a Sul com a Rua da Bainharia e a Norte com outra propriedade particular. O processo para a construção desta casa dera entrada algum tempo antes na Câmara, tendo sido aprovado em 3 de Dezembro de 1846. No Livro de Plantas de Casas Nº 9, fl. 138, encontramos o desenho do alçado da casa que Manuel da Monta (ou Mouta) pretendia construir na esquina entre a Rua da Bainharia e a Rua da Ponte Nova .

Desde sempre, a Rua da Ponte Nova apresentou escadas junto da Viela do Anjo, e não muito longe da Bainharia, por forma a vencer o desnível abrupto que se registava nessa zona. Efectivamente, há uma planta executada em 1821 que documenta a existência ancestral desses degraus - a "Planta mandada fazer em acto de Vistoria para milhoramento das Escadas da Rua da Ponte Nova, por Luís Ignácio de Barros Limo, 1821".

Henrique Duarte e Sousa Reis ainda teve oportunidade de nos deixar uma descrição dessa velha ponte quinhentista, no seu manuscrito redigido em 1866, escassos dez anos antes da destruição da Ponte Nova. Nas suas palavras, "Debaixo da ponte de pedra, chamado Ponte Nova, está huma Arca também de pedra muito bem trabalhada, e que he o receptaculo de huma porção d'agoa saloba (sic), que cahe em huma antiquissima fonte situado quozi a par dessa mesma Arca: esta agoa tiverão a sempre por milagroza para as molestias d'olhos, e da sua bica veio o nome a esta rua, que he toda ou quazi toda cortada pelo rio da Villa.". A fonte a que se refere Sousa Reis encontra-se já documentada em 1669, em diploma que revela que "por baixo da dita rua está uma fonte, tem meio manilha de água muito fria e a sua arca é muito antiga e feita de cantaria, tem por dentro duas rosas e serafins".

A Ponte Nova, que lhe deu o nome, foi destruída com a criação da Rua Mouzinho da Silveira em 1875, quando deixou de ser necessária para transpor o Rio da Vila.

Com a criação da Rua Mouzinho da Silveira seriam irremediavelmente alteradas as construções da Rua da Ponte Nova. E, efectivamente, como já referimos, no troço desta rua que cabe analisar neste Projecto as casas devem ser atribuídas ao último quartel do Séc. XIX.



Sobre ANTÓNIO CARVALHO DA SILVA PORTO:

ANTÓNIO CARVALHO DA SILVA PORTO, nasceu no Porto a 11 de Novembro de 1850 (na Rua da Ponte Nova) e faleceu em Lisboa a 1 de Junho de 1893. Pintor. Acrescentou o apelido Porto por ser natural desta cidade. Em 1865 (15 anos) matriculou-se na Academia Portuense de Belas-Artes. Portugal atravessava crise aguda no campo do pensamento. Reinava D. Luís, e as única evoluções tentadas ou preparadas, no tempo, eram mais de natureza espiritual que política ou social. No mesmo ano em que Silva Porto se matriculou na Academia Portuense de Belas-Artes, Antero de Quental frequentava a Universidade de Coimbra e escrevia um panfleto em nome da sua geração que deu impulso à famosíssima "Questão Coimbrã" que agitou a nossa estagnada vida mental. Depois do curso na Academia Portuense de Belas-Artes, caldeado nas chamas do vulcão de aspirações mil que fez na segunda metade do século XIX o mais luminoso da História da Arte e da Literatura portuguesas, Silva Porto quis empreender longínquos voos, seguindo, após concurso, para Paris em 1873, onde, como pensionista do Estado, recebeu, na Rua Bonaparte, os ensinamentos de Cabanel. À noite frequentava o curso de Yron, sendo também discípulo dos paisagistas Daubigny, Grosseiller e Bauverie. Acompanhado por Marques de Oliveira, Silva Porto frequentou a «velha» Montmartre, relacionou-se, criou fama e nas tertúlias de arte o nome António Porto, como o conheciam, era lembrado e a sua personalidade discutida. Não se cansou em Paris, mas dominaram-no outras aspirações. Seguiu para Roma (1879) a completar a educação artística, no convívio de colegas como Placência, Comerre, Pelousse e outros que o estimavam e tinham em muito apreço o seu comprovado valor. E fez-se romeiro de imprevistos, visitando toda a Itália, a Bélgica, a Holanda e a Espanha. Concorreu a «Salons», amealhou triunfos, ganhou prémios e conquistou honrarias. Em 1879 regressou a Portugal. Coincidindo o seu regresso com a morte de Tomás da anunciação, professor da aula de paisagem da Academia de Belas-Artes de Lisboa, foi nomeado professor interino, e em 1883 passou à efectividade regendo o curso geral de desenho e paisagem. Em 1881 expôs alguns quadros em Madrid, por ocasião do centenário de Calderon, sendo-lhe conferido, como honraria excepcional, o hábito da Ordem de Carlos III. Mestre indiscutível do naturalismo português, viu reunir-se à sua volta, no mesmo ano, o «Grupo do Leão», de que foi chefe e fundador com ANTÓNIO RAMALHO e JOÃO VAZ e ao qual se juntaram muitos outros, pintores, escritores e jornalistas. Em 1882 à exposição do «Grupo do Leão» levou Silva Porto 21 telas; trinta telas à exposição de 1893, etc. Em 1887 e 1889 realizaram-se as últimas exposições do «Grupo do Leão», e nesta dava nas vistas o trabalho de Silva Porto «A volta para a arribana». Neste último ano também concorreu à Exposição Industrial de Lisboa, conquistando a Medalha de Ouro. Dissolvido o «Grupo do Leão», formou-se o «Grémio Artístico», de que Silva Porto foi o primeiro presidente. O Grémio inaugurou as suas exposições em 1891, sendo o Mestre representado por elevado número de quadros, com relêvo para «A porta da venda», «O Moínho do Gregório» e «Guardando o gado». Na segunda exposição, a maior parte dos seus quadros foi inspirada pelas margens do rio Lima, como o magnífico «Barca de Passagem em Serreleis», e o «Lugar do Prado». Na exposicão do Grémio artístico de 1892, foi-lhe atribuída a 1ª Medalha. Na exposição de 1893 (a última a que concorreu), Silva Porto foi mais do que nunca o grande Mestre. Os expressivos quadros «Conduzindo o Rebanho» e «Ceifeiras», fecharam, gloriosamente, o ciclo do seu trabalho.

2 comentários:

Felicidade Ferreira disse...

Estou muito interessada em saber da existência de moinhos na cidade do, principalmente nos inícios do século XIX, mais precisamente durante o período do cerco do Porto.
Nas minhas pesquisas vi esta preciosa referência no seu texto:
"No que respeita ao moinho que refere Marçal, podemos adiantar que existe uma Planta, executada em 20 de Dezembro de 1819, por Luís Ignácio Barros Lima, que mostra a zona da Ponte Nova, com o respectivo moínho, escadas públicas e fonte". No entanto já verifiquei a planta, mas não vi moinho nenhum. Estarei enganada?
Peço desculpa mas é um tema que me interessa em particular.
Cumprimentos
Felicidade Ferreira

Teo Dias disse...

Felicidade Ferreira,

O texto publicado não é meu. Na altura em que o copiei deixei como referência que era tirado da página da Área Metropolitana do Porto. O problema com determinadas páginas é que ou vão sendo apagadas totalmente ou então há textos que desaparecem.
Lamento não a poder ajudar sobre este assunto, mas talvez haja alguma literatura editada sobre ele.
Coragem na continuação da sua pesquisa.
Votos de Feliz Ano Novo.