15.11.13

A Casa da Rata do CICA - I

2013_204



Após a publicação aqui, no passado dia 5 de Outubro de uma mensagem sobre o C I C A - o quartel da rua D. Manuel II, o Onofre Varela escreveu-me duas linhas a falar do quartel onde ele tinha feito a recruta.
Em conversa posterior, esta semana, e a meu pedido, prometeu enviar-me para publicação aqui em ante-estreia, o texto onde conta a sua passagem pela "Casa da Rata" do dito quartel.

Hoje é publicada a primeira parte, as outras duas serão publicadas nos próximos dias.

O livro "ÚCUA, 1966" aguarda um editor. Nesta obra o Onofre conta a sua experiência militar e participação na campanha de Angola. 

Varela amigo, obrigado pela tua participação activa neste blogue. 


Na Casa-da-Rata do CICA e suas consequências



A vida militar que me esperava na década de 1960, era feita
surrealidades que me espantavam. O respeito devido à hierarquia não
precisa de ser sublinhado com posições ridículas, subservientes e
redutoras da personalidade que cada um tem e deve esforçar-se por
manter. Eu respeitava o meu pai, reconhecia-lhe autoridade e
obedecia-lhe, e no entanto falava-lhe com à vontade. E aqueles
espantalhos de galões que me comandavam não eram mais do que o meu
pai. Por acaso até eram menos… na minha bitola de importâncias!…
O surrealismo militar demonstrou-se um certo dia em que me preparava
para tomar a refeição do almoço.
Depois de formar na parada e marchar até ao refeitório, entrei em fila
indiana e ocupei um lugar na mesa que me coube. As mesas comportavam
dez homens, cinco de cada lado. Em todas elas os faxinas já tinham
colocado os pratos, os talheres, a terrina da sopa e, a seu lado, a
respectiva concha. Aquele que calhasse no lugar em frente da terrina e
virado para a porta, era o chefe de mesa e tinha a tarefa de servir a
sopa aos nove camaradas. Curiosamente, naquela mesa, a concha estava
colocada no lado oposto, precisamente no lugar que eu ocupava.
O ritual da refeição era sempre o mesmo. Depois de chegados à mesa,
esperavamos, em pé, que todas elas estivessem ocupadas. Então,
fazia-se silêncio absoluto, o oficial-de-dia mandava sentar, e dava-se
início à refeição.
Naquele dia, enquanto esperavamos que o refeitório enchesse, o chefe
de mesa pediu-me que lhe chegasse a concha que estava mal colocada, a
fim de a colocar no seu devido lugar, junto à terrina. Peguei nela e
estiquei o braço para lha dar. Nesse momento uma gigantesca manápula
caiu-me sobre o fundo da nuca, quase me desiquilibrando e partindo o
pescoço! Foi o sargento-de-dia, um homem de tronco forte, de cabelo
ruivo e cara vermelha, quem me brindou com aquele descomunal cachaço,
enquanto me gritava:
— Ninguém mandou servir a sopa.
— Mas eu não estou a servir a sopa. — Respondi.
— Cala-te ou levas mais. — Foi a prepotente resposta, de olhos
arregalados e com perdigotos de saliva a sairem-lhe da boca
escancarada sobre o meu rosto, despejando-me nas narinas um mau hálito
insuportável.
Tomei a refeição em silêncio pensando naquilo. Tinha acabado de
receber um castigo do rol dos piores que podem ser aplicados:
corporal! Foi uma agressão física perfeitamente gratuíta o que o
sargento ruivo me fez, por “estar a servir a sopa”, uma transgressão
que eu não tinha cometido! Era mais uma surrealidade das várias que a
tropa tinha para gastar comigo. Então reagi do mesmo modo surreal, e
pensei: se fui castigado por uma irregularidade que não cometi, vou
ter de a cometer para que o castigo recebido tenha cabimento!
Provavelmente na vida militar é assim… castiga-se por avanço e
prevarica-se depois!
Quando saí do refeitório já tinha idealizado a minha acção.
Encaminhei-me para a porta, e, na vitrina onde se colocavam as ordens
de serviço, verifiquei o dia em que tinha tarefas distribuidas. Era no
sábado seguinte, dentro de quatro dias. Pelas 17 horas deveria formar
na parada, com “arreios”, capacete e arma, para entrar de reforço à
segurança do quartel e fazer dois turnos de sentinela. Inteirado, já
não voltei a trás. Passei pelo guarda da porta-de-armas que esboçou um
qualquer gesto, pois ninguém deveria saír do quartel sem autorização
escrita apresentada ao sentinela ali de serviço. Não lhe respondi nem
o olhei.  Avancei decidido para a rua, e ele nada fez…
Fui para casa gozar quatro dias de licença auto-concedida!


No sábado entrei no quartel às 16 horas e dirigi-me à arrecadação do
material de guerra para requisitar os necessários apetrechos militares
para cumprir o serviço que me estava escalado. À hora marcada desci à
parada. Com todos os elementos da segurança em formatura, chegou o
sargento-de-dia transportando debaixo do braço a tabela do reforço.
Formou os soldados, deu as ordens de comando e fez a chamada.
O sargento de serviço tinha um nome curioso (e também surreal) para um
militar de carreira. Chamava-se Ginja. Nunca encontrei apelido igual!
Era um homem já entrado na idade, talvez andasse na casa dos 60 anos.
Magro e pequeno, tinha o cabelo grisalho e exercia a função de chefe
de secretaria. Era ele quem tratava de todas as papeladas eventuais
que um soldado precisasse, e todos nós lhe davamos imenso trabalho com
as necessárias requisições de dispensas para gozarmos os
fins-de-semana.
O sargento Ginja elevou a tabela à altura dos olhos, gritou os números
dos soldados formados, e estes respondiam, enérgicamente, com a
palavra “pronto”.
A certa altura gritou o meu número.
— 191.
— Pronto. — Respondi.
Desde que saí do quartel, na terça-feira, até àquela hora, tinha
faltado a 16 chamadas. Era natural que o sargento já tivesse decorado
o número daquele soldado, provavelmente já considerado desertor.
Arregalou os olhos ao ouvir responder, e repetiu:
— 191?!…
— Pronto. — Respondi mais alto, por me parecer que o sargento não
ouviu à primeira.
Chegou-se a mim e fitou-me:
— Tu és o 191?
— Sou sim, senhor.
— E por onde tens andado?
— Estive em casa.
Ele continuava com aqueles olhos de espantado, que eu até me espantei!
— Em casa?!… E quem te mandou para casa?
— Ninguém. Não preciso que me mandem para casa. Sei onde moro e vou
para casa quando quero.
Era estranho como aquele pequenito de cabelo grisalho, face de pele
macilenta e encarquilhada, conseguia estar tanto tempo sem pestanejar!
Os olhos não se lhe secavam… são mesmo estranhos e surreais, estes
militares!…
— Sabes que estás à pega?
— Imagino que sim.
— E não te importas?
— Eu não, senhor.
Ele continuava admirado e de olho arregalado. Espantoso!…
— Estás a brincar com a tropa?
— Não. A tropa é que está a brincar comigo.
A convicção das minhas respostas deve tê-lo convencido a acabar com
aquele interrogatório perfeitamente desnecessário, e acabou. Completou
a chamada e apresentou aqueles militares ao sargento-da-guarda.
Naquela noite fui visitado no posto de sentinela pelo oficial-de-dia,
um aspirante a oficial miliciano, de pele escandalosamente branca,
alto e magro como um cordel. Ele recebera a participação do sargento
Ginja dando conta da minha ausência prolongada, e foi até mim para me
dar “bons conselhos”, disse ele. E começou surrealisticamente
(inevitável!). Disse-me que que eu estava “no início da minha
carreira” e era uma pena manchá-la com uma punição. Fiquei pasmado!
Aquele tira-linhas fardado estaria convencido de que a vida militar
era a minha carreira?! Estes militares são mesmo estranhos!… Não lhe
disse as razões da minha ausência. Isso era coisa minha. Aliás, não o
contei a ninguém durante muito tempo, vindo a fazê-lo tardiamente, na
roda de alguns amigos e já na vida civil.


Dias depois saía na ordem de serviço a condenação que me foi aplicada:
quatro dias de prisão disciplinar. E era referido o dia em que, pelas
10 horas, ao render da parada, deveria apresentar-me ao oficial-de-dia
para dar entrada na prisão do quartel.
Por aquela altura tinha-se iniciado o alcatroamento da parada até
então em terra batida. O trabalho era executado pelos militares da
unidade, e eu fazia parte da brigada de trabalhadores. As tarefas eram
diversas, e aqueles que hoje abriam a parada a pá e picareta, amanhã
acarretavam terra e pedras, e depois partiam cascalho. Embora pareça
irónico, a prisão libertou-me desses trabalhos forçados!
(Curiosamente, na caderneta militar, nas páginas reservadas ao Registo
Criminal e Disciplinar, consta que infringi o Nº 7 do Artº 4º do RDM,
e que aquela pena me foi imposta “por se permitir ausentar sem licença
do seu aquartelamento desde as 22H00 do dia 16 de Julho, até às 20H00
do dia imediato”… o que não é verdadeiro! Eu ausentei-me quatro dias!
Fico sem saber se não fizeram as chamadas nos outros dias, não dando
pela minha falta [o que me parece improvável], ou [o que julgo mais
viável] o comandante decidiu-se por me encurtar a pena manipulando a
infracção. Esta segunda hipótese tem alguma viabilidade depois de
conhecer o comandante, o Tenente-coronel Correia Dinis, que era
reconhecido por todos pela fraternal relação que mantinha com os seus
homens, e por isso era referido pela soldadesca como “pai-do-soldado”.
Não sei se a minha real ausência poderia ser considerada deserção, e
se o comandante decidiu poupar-me a pena correspondente. Nunca o
saberei).




(FIM DA PARTE 1)
Onofre Varela

A segunda parte deste texto continua nesta página.

 


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4 comentários:

Carlos Santos disse...

Grande Onofre Varela!!!

Teo Dias disse...

Carlos Santos, como esta história do nosso comum amigo Varela é longa existem mais episódios para além deste.
Obrigado pela sua visita e pelo seu comentário.

Manoel Pinto disse...

Valente Onofre Varela !!!

Teo Dias disse...

Manoel Pinto, espero que também tenha lido https://ruasdoporto.blogspot.pt/2013/11/a-casa-da-rata-do-cica-ii.html e o último episódio: https://ruasdoporto.blogspot.pt/2013/11/a-casa-da-rata-do-cica-iii.html .

Posteriormente à publicação aqui deste texto o Onofre Varela brindou-nos com um livro onde conta o seu serviço militar em Angola.

Vou ter que acrescentar um link para os episódios finais.