Nasci no Porto. Desde muito jovem percorri ruas e lugares. Frequentei pessoas e acontecimentos. Afastei-me da cidade. Voltei ao lugar onde vi a Luz. Com o passar do Tempo libertei-me de um certo bairrismo. A cidade não é minha, mas eu sou desta terra.
15.11.08
14.11.08
PRÉDIO DE GAVETO
Fotografia publicada no FLICKR
Muita gente procura neste blogue o "prédio de gaveto" do arquitecto Viana de Lima.
Hoje divulgo mais um cantinho da arquitectura portuense - encontra-se mesmo ali no gaveto da antiga Cancela Velha e da rua Rodrigues Sampaio. O projecto data de 1955.
Hoje divulgo mais um cantinho da arquitectura portuense - encontra-se mesmo ali no gaveto da antiga Cancela Velha e da rua Rodrigues Sampaio. O projecto data de 1955.
13.11.08
JUNTA DE FREGUESIA DE PARANHOS
Fotografia localizada aqui
História da Freguesia de Paranhos
Paranhos é a maior freguesia da cidade do Porto e a terceira maior do país. De Paranhos de outros tempos à actualidade
Origem
Paranhos… Esta nomenclatura é a forma evoluída do primeiro vocábulo: Paramio. O actual nome surge pela primeira vez em documento datado do ano de 1689.
Antes da fundação do Condado Portucalense a freguesia de Paranhos já existia, sendo habitada por mouros ou árabes que se mantiveram nesta região até ao século X.
No ano de 1123 é realizada uma doação do padroado da Igreja de Paranhos ao Bispo do Porto, D. Hugo por parte de D. Elvira Trutesindes e por parte de Pio Mendes. Do padroado doado fazia parte um grande número de casais e quintas.
Em 1341, no século XIV, D. Afonso IV confirma à mitra do Porto o Couto de Paranhos, passando a jurisdição do Couto a pertencer ao Bispo do Porto, na altura, D. Vasco Martins. Por esta altura cerca de dois terços da freguesia pertencia aos senhores do cabido da Sé.
Registos Paroquiais
Foi no ano de 1587 que se realizaram os primeiros assentos de baptismos, casamentos e óbitos.
O primeiro baptismo com assento realizou-se em 29 de Novembro de 1587 com o nome de André. O primeiro assento de casamento aconteceu em 25 de Junho de 1588 entre Thomas Annes e Catarina Annes e o primeiro assento de óbito foi feito a 20 de Novembro do mesmo ano, com o funeral de João da aldeia de Lamas.
No século XIX, o ano em que se registaram mais baptismos (678), foi o de 1926. O ano com mais casamentos foi o de 1947 com 194 uniões e 1905 foi o ano em que se registaram mais óbitos, um total de 420.
Paranhos e o Cerco do Porto
Paranhos teve uma importância crucial na vitória dos liberais sobre os absolutistas aquando do cerco dos miguelistas à cidade. A Quinta do Covelo, também denominada da Bela Vista, foi um ponto estratégico, uma vez que dela se podia ter uma vista de boa parte da cidade. Por esse motivo, as tropas miguelistas instalaram nesta Quinta uma bateria de canhões.
A nove de Abril desse mesmo ano, os liberais conseguem infiltrar-se na Quinta, tendo atacado os soldados absolutistas e tomado conta do reduto do Covelo. Esta foi sem dúvida uma importante vitória nesta luta que só terminou em 1834 com a vitória dos liberais.
Crescimento da Freguesia
Esta freguesia foi crescendo e desenvolvendo-se, aliás como a maior parte das freguesias, em torno da sua igreja. A igreja de Paranhos foi edificada por lavradores abastados no século X, em torno da qual foram nascendo casais e quintas, como estas continuaram a crescer, deram origem a lugares, entre eles Regado, Agueto, Couto, Igreja, Lamas, Tronco, Carvalhido, e Vale, estes já existiam em 1689. Em 1758 já existiam mais lugares, entre os quais, Amial, Bouça, Cruz da Regateira, Antas, Travessa, Azenha e Cabo. Existiam ainda os lugares de Casal, Fonte, Paranhos, Telheiro, Estrada, Monte Velho, Eira, Padrão, Pereira, Tojo, Aval, Cortes, Regueiras e Asprela.
Com base no Catálogo dos Bispos do Porto de D. Rodrigo da Cunha, sabemos que em 1623, Paranhos contava apenas com 246 habitantes. No ano de 1687, existiam em Paranhos 466 habitantes. Em 1758, segundo dados cedidos pelo pároco, o Reverendo João Carneiro da Silva havia nesta freguesia 806 habitantes.
Em 1766, Paranhos contava com 946 habitantes e em1801, há escritos que dão conta de 1541 habitantes na freguesia.
Desde o ano de 1837 que a freguesia de Paranhos foi integrada na cidade do Porto, tendo pertencido até esta data à antiga Terra da Maia.
Criação da Junta de Freguesia
Por decreto de 18-7-1835, foi criada nesta freguesia de Paranhos uma Junta de Freguesia que, até 1910 se chamou Junta de Paróquia, cuja sessão inaugural aconteceu em 1836.
Até 1851 a Junta esteve instalada na "Casa da Fábrica" da Igreja Paroquial. Depois desta data, mudou-se para a sacristia devido à "Casa da Fábrica" ameaçar ruir.
"Em Janeiro de 1882, mudava para a casa do Vice-Presidente, Gaspar Lucas d'Almeida, da Rua de Costa Cabral, 251; passados dois anos e até 1886, mudou para o N.º 227 da mesma rua.
Neste ano de 1886, é feita nova mudança para o edifício da escola do sexo masculino, à Rua do Vale Formoso, onde se conservou até ao fim do ano de 1889, e em Janeiro de 1890, finalmente, fixa-se a Junta de Paróquia no seu edifício privativo, à Rua da Lealdade (actual Rua de Álvaro de Castelões)..."
Para além da Junta de Paróquia instalaram-se no edifício, a Regedoria, o Posto de Registo Civil, um Posto Médico e duas escolas oficiais.
Actividades Económicas
Em finais do século XIX, já se denota em Paranhos um crescimento que embora lento, vai marcando a diferença, face às outras freguesias caracteristicamente rurais. Foram-se formando duas ruas bastante compridas que espelhavam a atracção da população, sendo elas a chamada Rua da Rainha, actual Antero de Quental e Vale Formoso e a Rua de Costa Cabral. Os lugares do Covelo e Campo Lindo, forma também integrados na cidade.
No início do século XX, apenas oito das doze freguesias que faziam parte do concelho eram de cariz urbano. Foz, Lordelo, Paranhos e Campanha eram ainda freguesias marcadamente rurais, apesar de em Paranhos existirem já algumas artérias onde as lojas comerciais proliferavam, como a Rua de Costa Cabral, Álvaro de Castelões, Vale Formoso, São Dinis e Amial. Podemos mesmo afirmar, que apesar da agricultura ser a actividade à qual a maioria dos paranhenses se dedicava, havendo casas de lavoura que criavam gado bovino que era exportado para Inglaterra, até meados do século passado existiram bastantes fábricas nesta freguesia, fábricas de tecidos, fósforos, curtumes, louça de ferro, etc.
Um dos factores que teve um peso bastante considerável para o crescimento e desenvolvimento de Paranhos, foi sem dúvida o retorno de muitas pessoas que tinham em tempos emigrado para o Brasil. Quando regressaram à sua terra de origem, construíram casas, implementaram lojas e fábricas, atraindo assim a população.
Também em finais do século XIX, mais precisamente no ano de 1883, Paranhos ganha um hospital, que se deve ao benemérito Conde de Ferreira, que no seu testamento solicita a edificação de um hospital para alienados.
Os Transportes
É no ano de 1873 que é estabelecido o primeiro serviço público de transportes para Paranhos da Carris. Este serviço era feito por tracção animal, com os denominados “carros americanos”, puxados por uma ou duas parelhas de mulas. Na época eram feitos dois trajectos, um que ía do Bolhão à Praça da Aguardente, e outro da Praça de D. Pedro ao Largo do Campo Lindo.
Dez anos mais tarde, a Carris deixa de ter o exclusivo do serviço de transporte, pois surge uma outra empresa com sede na Rua de São Dinis, a Empresa Portuense de Carros Ripert. Esta empresa marca pela diferença, pois em vez de mulas, tem a puxar os carros bonitos cavalos e começou a fazer serviços para a vizinha São Mamede de Infesta.
Estes carros de tracção animal começaram a ser substituídos por veículos de tracção eléctrica a partir de 1895. Em 1899 experimentou-se a nova linha eléctrica cujo percurso era da Praça de D. Pedro até à Praça do Marquês de Pombal e que levou treze minutos a ser concluído.
Corria o ano de 1948 quando os Serviços de Transportes Colectivos do Porto realizam o seu primeiro serviço.
A Iluminação
É na última década do século XIX, mais propriamente em 1891, que Paranhos começa a ter iluminação pública.
Numa primeira fase, apenas da Rua de Álvaro Castelões onde se situava o edifício da Junta até à Igreja Paroquial havia iluminação. A iluminação chegou à Rua da Igreja no ano seguinte. Em 1897 foi a vez da rua do Cemitério e já no século XX as ruas de Delfim Maia, Arca de Água e as restantes artérias até ao ano de 1912.
Só na segunda década do século XX começou a substituição da iluminação a gás pela iluminação eléctrica.
As Ruas
Até finais do século XIX, as ruas e caminhos de Paranhos eram estreitas e de difícil trânsito, e só a partir de 1912 é que se começam a verificar verdadeiros melhoramentos nos arruamentos e nas vias de comunicação de Paranhos com as freguesias envolventes. Neste ano é rasgada a Rua de Delfim Maia, a Viela do Relógio transformada em Rua, a Rua de Costa e Almeida sofre reparações e a Rua do Lindo Vale é alargada. Este foi o início de muitos melhoramentos e inovação em termos das vias de comunicação. Nos anos 30 dos século XX, nasce a Rua do Bolama, no local onde anteriormente existia a Viela do Covelo, a Rua Augusto Lessa data igualmente desta década.
Saliente-se que a primeira via de comunicação que atravessou esta terra era uma via romana que data do ano 160. Em 1258, é rasgada outra via, a via veteris que ía do rio Douro, passava por Lordelo, Cedofeita, Custóias, Pedras Rubras e ía em direcção à ponte do Rio Ave. No século XVI, é aberta uma nova estrada até Viana do Castelo, era a estrada “Nove Irmãos”.
As águas de Paranhos
Esta é uma Freguesia que possui apenas alguns regatos de pequena dimensão utilizados outrora pelos lavradores para regarem os seus terrenos de cultivo, pois esta, no século XIX e inícios do século XX era essencialmente uma terra de cariz rural.
Paranhos é sim, uma Freguesia conhecida pelas suas sete nascentes, com água de excelente qualidade, como as águas de Arca D’Água, utilizadas para abastecer toda a cidade do Porto, desde finais do século XVI. Da famosa Arca D’Água, partiam três nascentes da Arca Nova e quatro da Arca Velha.
Dada a elevada qualidade da água, os moradores da cidade ofereceram mil cruzados para a ajuda da construção do aqueduto, e o caudal da água ia até à actual Praça de Carlos Alberto e terminava à Porta do Olival, actual zona da Cordoaria.
Desde inícios de 1903, pela altura da celebração de S. Miguel, realizava-se neste local, o Largo de Arca D’Água, a “Feira de S. Miguel”, famosa por ter uma duração de um a dois meses e pelas inúmeras “barraquinhas de comes e bebes” que aí se podiam encontrar.
Foi no ano de 1920 que Arca D’Água foi transformada em jardim, mas, não sem antes, ter sido palco de um famoso duelo em 1865, entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão, pela polémica literária conhecida por “Questão Coimbrã”.
Ainda em 1950 Paranhos fornecia água a fontes, fontanários e bebedouros públicos, que permitiram à população abastecer-se de água antes da existência do abastecimento domiciliário.
Até 1945 quem pretendesse entrar na cidade via-se obrigado a pagar o imposto indirecto municipal, servindo a estrada da Circunvalação de marco fronteiriço para o efeito.
Na década de 50 do século XX, é inaugurado no lugar da Asprela o Hospital Geral de São João, outrora designado por Hospital Escolar da Cidade, por nele estar instalada a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Como o número de habitantes foi crescendo incessantemente, a freguesia foi-se transformando em termos paisagísticos. Muitos dos campos existentes, foram dando lugar à construção de edifícios, não só habitacionais, mas também institucionais. É portanto, no século XX, que começa a nascer uma freguesia de cariz urbano, com a pavimentação de ruas e caminhos, aproximação da freguesia ao centro da cidade através do melhoramento das vias, o que se traduziu numa maior mobilidade da população.
Paranhos é a maior freguesia da cidade do Porto e a terceira maior do país. De Paranhos de outros tempos à actualidade
Origem
Paranhos… Esta nomenclatura é a forma evoluída do primeiro vocábulo: Paramio. O actual nome surge pela primeira vez em documento datado do ano de 1689.
Antes da fundação do Condado Portucalense a freguesia de Paranhos já existia, sendo habitada por mouros ou árabes que se mantiveram nesta região até ao século X.
No ano de 1123 é realizada uma doação do padroado da Igreja de Paranhos ao Bispo do Porto, D. Hugo por parte de D. Elvira Trutesindes e por parte de Pio Mendes. Do padroado doado fazia parte um grande número de casais e quintas.
Em 1341, no século XIV, D. Afonso IV confirma à mitra do Porto o Couto de Paranhos, passando a jurisdição do Couto a pertencer ao Bispo do Porto, na altura, D. Vasco Martins. Por esta altura cerca de dois terços da freguesia pertencia aos senhores do cabido da Sé.
Registos Paroquiais
Foi no ano de 1587 que se realizaram os primeiros assentos de baptismos, casamentos e óbitos.
O primeiro baptismo com assento realizou-se em 29 de Novembro de 1587 com o nome de André. O primeiro assento de casamento aconteceu em 25 de Junho de 1588 entre Thomas Annes e Catarina Annes e o primeiro assento de óbito foi feito a 20 de Novembro do mesmo ano, com o funeral de João da aldeia de Lamas.
No século XIX, o ano em que se registaram mais baptismos (678), foi o de 1926. O ano com mais casamentos foi o de 1947 com 194 uniões e 1905 foi o ano em que se registaram mais óbitos, um total de 420.
Paranhos e o Cerco do Porto
Paranhos teve uma importância crucial na vitória dos liberais sobre os absolutistas aquando do cerco dos miguelistas à cidade. A Quinta do Covelo, também denominada da Bela Vista, foi um ponto estratégico, uma vez que dela se podia ter uma vista de boa parte da cidade. Por esse motivo, as tropas miguelistas instalaram nesta Quinta uma bateria de canhões.
A nove de Abril desse mesmo ano, os liberais conseguem infiltrar-se na Quinta, tendo atacado os soldados absolutistas e tomado conta do reduto do Covelo. Esta foi sem dúvida uma importante vitória nesta luta que só terminou em 1834 com a vitória dos liberais.
Crescimento da Freguesia
Esta freguesia foi crescendo e desenvolvendo-se, aliás como a maior parte das freguesias, em torno da sua igreja. A igreja de Paranhos foi edificada por lavradores abastados no século X, em torno da qual foram nascendo casais e quintas, como estas continuaram a crescer, deram origem a lugares, entre eles Regado, Agueto, Couto, Igreja, Lamas, Tronco, Carvalhido, e Vale, estes já existiam em 1689. Em 1758 já existiam mais lugares, entre os quais, Amial, Bouça, Cruz da Regateira, Antas, Travessa, Azenha e Cabo. Existiam ainda os lugares de Casal, Fonte, Paranhos, Telheiro, Estrada, Monte Velho, Eira, Padrão, Pereira, Tojo, Aval, Cortes, Regueiras e Asprela.
Com base no Catálogo dos Bispos do Porto de D. Rodrigo da Cunha, sabemos que em 1623, Paranhos contava apenas com 246 habitantes. No ano de 1687, existiam em Paranhos 466 habitantes. Em 1758, segundo dados cedidos pelo pároco, o Reverendo João Carneiro da Silva havia nesta freguesia 806 habitantes.
Em 1766, Paranhos contava com 946 habitantes e em1801, há escritos que dão conta de 1541 habitantes na freguesia.
Desde o ano de 1837 que a freguesia de Paranhos foi integrada na cidade do Porto, tendo pertencido até esta data à antiga Terra da Maia.
Criação da Junta de Freguesia
Por decreto de 18-7-1835, foi criada nesta freguesia de Paranhos uma Junta de Freguesia que, até 1910 se chamou Junta de Paróquia, cuja sessão inaugural aconteceu em 1836.
Até 1851 a Junta esteve instalada na "Casa da Fábrica" da Igreja Paroquial. Depois desta data, mudou-se para a sacristia devido à "Casa da Fábrica" ameaçar ruir.
"Em Janeiro de 1882, mudava para a casa do Vice-Presidente, Gaspar Lucas d'Almeida, da Rua de Costa Cabral, 251; passados dois anos e até 1886, mudou para o N.º 227 da mesma rua.
Neste ano de 1886, é feita nova mudança para o edifício da escola do sexo masculino, à Rua do Vale Formoso, onde se conservou até ao fim do ano de 1889, e em Janeiro de 1890, finalmente, fixa-se a Junta de Paróquia no seu edifício privativo, à Rua da Lealdade (actual Rua de Álvaro de Castelões)..."
Para além da Junta de Paróquia instalaram-se no edifício, a Regedoria, o Posto de Registo Civil, um Posto Médico e duas escolas oficiais.
Actividades Económicas
Em finais do século XIX, já se denota em Paranhos um crescimento que embora lento, vai marcando a diferença, face às outras freguesias caracteristicamente rurais. Foram-se formando duas ruas bastante compridas que espelhavam a atracção da população, sendo elas a chamada Rua da Rainha, actual Antero de Quental e Vale Formoso e a Rua de Costa Cabral. Os lugares do Covelo e Campo Lindo, forma também integrados na cidade.
No início do século XX, apenas oito das doze freguesias que faziam parte do concelho eram de cariz urbano. Foz, Lordelo, Paranhos e Campanha eram ainda freguesias marcadamente rurais, apesar de em Paranhos existirem já algumas artérias onde as lojas comerciais proliferavam, como a Rua de Costa Cabral, Álvaro de Castelões, Vale Formoso, São Dinis e Amial. Podemos mesmo afirmar, que apesar da agricultura ser a actividade à qual a maioria dos paranhenses se dedicava, havendo casas de lavoura que criavam gado bovino que era exportado para Inglaterra, até meados do século passado existiram bastantes fábricas nesta freguesia, fábricas de tecidos, fósforos, curtumes, louça de ferro, etc.
Um dos factores que teve um peso bastante considerável para o crescimento e desenvolvimento de Paranhos, foi sem dúvida o retorno de muitas pessoas que tinham em tempos emigrado para o Brasil. Quando regressaram à sua terra de origem, construíram casas, implementaram lojas e fábricas, atraindo assim a população.
Também em finais do século XIX, mais precisamente no ano de 1883, Paranhos ganha um hospital, que se deve ao benemérito Conde de Ferreira, que no seu testamento solicita a edificação de um hospital para alienados.
Os Transportes
É no ano de 1873 que é estabelecido o primeiro serviço público de transportes para Paranhos da Carris. Este serviço era feito por tracção animal, com os denominados “carros americanos”, puxados por uma ou duas parelhas de mulas. Na época eram feitos dois trajectos, um que ía do Bolhão à Praça da Aguardente, e outro da Praça de D. Pedro ao Largo do Campo Lindo.
Dez anos mais tarde, a Carris deixa de ter o exclusivo do serviço de transporte, pois surge uma outra empresa com sede na Rua de São Dinis, a Empresa Portuense de Carros Ripert. Esta empresa marca pela diferença, pois em vez de mulas, tem a puxar os carros bonitos cavalos e começou a fazer serviços para a vizinha São Mamede de Infesta.
Estes carros de tracção animal começaram a ser substituídos por veículos de tracção eléctrica a partir de 1895. Em 1899 experimentou-se a nova linha eléctrica cujo percurso era da Praça de D. Pedro até à Praça do Marquês de Pombal e que levou treze minutos a ser concluído.
Corria o ano de 1948 quando os Serviços de Transportes Colectivos do Porto realizam o seu primeiro serviço.
A Iluminação
É na última década do século XIX, mais propriamente em 1891, que Paranhos começa a ter iluminação pública.
Numa primeira fase, apenas da Rua de Álvaro Castelões onde se situava o edifício da Junta até à Igreja Paroquial havia iluminação. A iluminação chegou à Rua da Igreja no ano seguinte. Em 1897 foi a vez da rua do Cemitério e já no século XX as ruas de Delfim Maia, Arca de Água e as restantes artérias até ao ano de 1912.
Só na segunda década do século XX começou a substituição da iluminação a gás pela iluminação eléctrica.
As Ruas
Até finais do século XIX, as ruas e caminhos de Paranhos eram estreitas e de difícil trânsito, e só a partir de 1912 é que se começam a verificar verdadeiros melhoramentos nos arruamentos e nas vias de comunicação de Paranhos com as freguesias envolventes. Neste ano é rasgada a Rua de Delfim Maia, a Viela do Relógio transformada em Rua, a Rua de Costa e Almeida sofre reparações e a Rua do Lindo Vale é alargada. Este foi o início de muitos melhoramentos e inovação em termos das vias de comunicação. Nos anos 30 dos século XX, nasce a Rua do Bolama, no local onde anteriormente existia a Viela do Covelo, a Rua Augusto Lessa data igualmente desta década.
Saliente-se que a primeira via de comunicação que atravessou esta terra era uma via romana que data do ano 160. Em 1258, é rasgada outra via, a via veteris que ía do rio Douro, passava por Lordelo, Cedofeita, Custóias, Pedras Rubras e ía em direcção à ponte do Rio Ave. No século XVI, é aberta uma nova estrada até Viana do Castelo, era a estrada “Nove Irmãos”.
As águas de Paranhos
Esta é uma Freguesia que possui apenas alguns regatos de pequena dimensão utilizados outrora pelos lavradores para regarem os seus terrenos de cultivo, pois esta, no século XIX e inícios do século XX era essencialmente uma terra de cariz rural.
Paranhos é sim, uma Freguesia conhecida pelas suas sete nascentes, com água de excelente qualidade, como as águas de Arca D’Água, utilizadas para abastecer toda a cidade do Porto, desde finais do século XVI. Da famosa Arca D’Água, partiam três nascentes da Arca Nova e quatro da Arca Velha.
Dada a elevada qualidade da água, os moradores da cidade ofereceram mil cruzados para a ajuda da construção do aqueduto, e o caudal da água ia até à actual Praça de Carlos Alberto e terminava à Porta do Olival, actual zona da Cordoaria.
Desde inícios de 1903, pela altura da celebração de S. Miguel, realizava-se neste local, o Largo de Arca D’Água, a “Feira de S. Miguel”, famosa por ter uma duração de um a dois meses e pelas inúmeras “barraquinhas de comes e bebes” que aí se podiam encontrar.
Foi no ano de 1920 que Arca D’Água foi transformada em jardim, mas, não sem antes, ter sido palco de um famoso duelo em 1865, entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão, pela polémica literária conhecida por “Questão Coimbrã”.
Ainda em 1950 Paranhos fornecia água a fontes, fontanários e bebedouros públicos, que permitiram à população abastecer-se de água antes da existência do abastecimento domiciliário.
Até 1945 quem pretendesse entrar na cidade via-se obrigado a pagar o imposto indirecto municipal, servindo a estrada da Circunvalação de marco fronteiriço para o efeito.
Na década de 50 do século XX, é inaugurado no lugar da Asprela o Hospital Geral de São João, outrora designado por Hospital Escolar da Cidade, por nele estar instalada a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Como o número de habitantes foi crescendo incessantemente, a freguesia foi-se transformando em termos paisagísticos. Muitos dos campos existentes, foram dando lugar à construção de edifícios, não só habitacionais, mas também institucionais. É portanto, no século XX, que começa a nascer uma freguesia de cariz urbano, com a pavimentação de ruas e caminhos, aproximação da freguesia ao centro da cidade através do melhoramento das vias, o que se traduziu numa maior mobilidade da população.
Publicado na página da Junta de Freguesia de Paranhos
Rua VITORINO DAMÁSIO
Fotografia publicada e localizada no Flickr
Sabe quem foi Vitorino Damásio?
«José Vitorino Damásio (Santa Maria da Feira, 2 de Novembro de 1807 - Lisboa, 19 de Outubro de 1875) foi engenheiro, professor da Academia Politécnica do Porto, director do Instituto Industrial de Lisboa e fundador da Associação Industrial Portuense, hoje Associação Empresarial de Portugal, em Portugal.
Nascido na, então, Vila da Feira, José Vitorino Damásio formou-se como bacharel na Universidade de Coimbra em Filosofia e Matemática.
Durante as Guerras Liberais, combateu contra D. Miguel, chegando a general de brigada e sendo condecorado com a Torre e Espada pelo seu comportamento durante o Cerco do Porto.
Foi lente da Academia Politécnica do Porto e engenheiro-director das Obras Públicas do distrito, onde, entre outras obras, se encarregou da construção da estrada do Alto da Bandeira aos Carvalhos, empregando ali o sistema de cilindragem concebido pelo engenheiro francês Antoine-Rémy Polonceau, que era desconhecido em Portugal.
Vitorino Damásio fundou, com Faria Guimarães, a Fundição do Bolhão, introduzindo a indústria do fabrico da louça de ferro fundido esmaltada e estanhada a banho. Em Lisboa foi reitor do Instituto Industrial, antepassado do actual Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, director da Companhia das Águas, empresa que veio dar origem à EPAL, e director-geral dos Telégrafos, actual CTT.
Em 1849, Vitorino Damásio encabeçou um movimento que levou à criação da Associação Industrial Portuense, hoje Associação Empresarial de Portugal, da qual foi, mais tarde, o seu terceiro presidente.»
Pode ver mais sobre Vitorino Damásio no Dicionário Histórico.
No número 120 desta rua situa-se a "Casa Aristides Ribeiro" cujo projecto é da autoria de Viana de Lima.
«José Vitorino Damásio (Santa Maria da Feira, 2 de Novembro de 1807 - Lisboa, 19 de Outubro de 1875) foi engenheiro, professor da Academia Politécnica do Porto, director do Instituto Industrial de Lisboa e fundador da Associação Industrial Portuense, hoje Associação Empresarial de Portugal, em Portugal.
Nascido na, então, Vila da Feira, José Vitorino Damásio formou-se como bacharel na Universidade de Coimbra em Filosofia e Matemática.
Durante as Guerras Liberais, combateu contra D. Miguel, chegando a general de brigada e sendo condecorado com a Torre e Espada pelo seu comportamento durante o Cerco do Porto.
Foi lente da Academia Politécnica do Porto e engenheiro-director das Obras Públicas do distrito, onde, entre outras obras, se encarregou da construção da estrada do Alto da Bandeira aos Carvalhos, empregando ali o sistema de cilindragem concebido pelo engenheiro francês Antoine-Rémy Polonceau, que era desconhecido em Portugal.
Vitorino Damásio fundou, com Faria Guimarães, a Fundição do Bolhão, introduzindo a indústria do fabrico da louça de ferro fundido esmaltada e estanhada a banho. Em Lisboa foi reitor do Instituto Industrial, antepassado do actual Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, director da Companhia das Águas, empresa que veio dar origem à EPAL, e director-geral dos Telégrafos, actual CTT.
Em 1849, Vitorino Damásio encabeçou um movimento que levou à criação da Associação Industrial Portuense, hoje Associação Empresarial de Portugal, da qual foi, mais tarde, o seu terceiro presidente.»
Artigo publicado na Wikipédia
Pode ver mais sobre Vitorino Damásio no Dicionário Histórico.
No número 120 desta rua situa-se a "Casa Aristides Ribeiro" cujo projecto é da autoria de Viana de Lima.
12.11.08
Colónia Dr. MANUEL LARANJEIRA
Fotografia publicada e localizada no Flickr
Sobre Manuel Laranjeira:
«Duas notas prévias: uma para dizer que, conforme prometido, cá estou para deixar umas palavras mais que justas sobre o homem; uma outra para referir que as linhas que se seguem são, quase todas (”tomos” 1 e 2), extractos do livro “A Génese de Espinho - Histórias e Postais”, da autoria de Carlos Morais Gaio. A guitarra a quem tem unhas…
O nascimento
Às 20h do dia 17 de Agosto de 1877, uma sexta-feira, nascia no lugar da Vergada, freguesia de São Martinho de Mozelos, concelho da Feira, Manuel (Fernandes) Laranjeira.
Em Espinho
Aos 22 anos, fixou residência em Espinho numa casa com o n.º 275 da Rua Bandeira Coelho (actual Rua 19). “Padecia de sífilis e preparava-se para formalizar a sua inscrição na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Iria destacar-se como um vulto influente da cultura portuguesa e marcaria a primeira década do século, já que Espinho lhe serviu de palco para a produção intelectual e para a participação cívica.”
O homem e a obra
“Considerado como o autor que melhor encarnou a obsessão no naturalismo em encontrar a verdade sobre a sociedade portuguesa, concebida como uma entidade dotada das características psicológicas dos seus habitantes, publicava, em 1902, a peça ‘Amanhã (prólogo dramático)’, via representado, em 1905, o seu manuscrito ‘Às Feras’ e concluía, em 1907, a licenciatura com uma tese intitulada ‘A Doença da Santidade (ensaio psico-patológico sobre o misticismo de forma religiosa)’. Na sua vasta colaboração em jornais e revistas, defendia a ideia de que os suicídios célebres (Soares dos Reis, Antero de Quental, Camilo Castelo Branco) reflectiam o mal-estar colectivo, julgando necessário que alguém fosse capaz de escrever a verdade sobre Portugal.”
As tertúlias
“Numa época em que a neurose e o esgotamento se popularizavam, Laranjeira abusava do café e do tabaco, tinha insónias prolongadas e passava noites a escrever, depois das boémias e das tertúlias. Frequentador habitual do Café Chinês, rodeava-se de um grupo fiel, onde pontificavam, entre outros, o artista Amadeo de Souza-Cardozo (que frequentava a praia [de Espinho]) e um grupo de jovens influentes no meio local (…)”
“A Génese de Espinho - Histórias e Postais”
Carlos Morais Gaio
Campo das Letras, Porto, Dezembro de 1999
(págs. 381 a 392, Capítulo VI - Uma vila à Beira-mar, Os Anos de Laranjeira)
A causa
Manuel Laranjeira sentia-se um “D. Quixote de braços cruzados” perante a “força cruel da realidade, defendia ser preciso uma ‘mentira vital’ para se acreditar nalguma coisa. A causa republicana levou-o a participar, empenhadamente, na luta contra a monarquia, pelo que reagiu euforicamente à implantação da República.”
O político
“Em 1911, desdobrou-se em iniciativas, fez uma conferência, no Teatro Aliança, sobre as invasões do mar e as obras de defesa da costa [espinhense], lutou pela criação da comarca, como forma de consumar a independência face à Vila da Feira, escreveu (…) artigos sobre o assunto (…) e foi nomeado presidente da Comissão Administrativa Municipal [de Espinho], cargo que desempenhou durante poucos meses (entre Agosto e Outubro), por razões de saúde.”
A morte
O poeta, médico, escritor, filósofo & tudo suicidou-se no dia 22 de Fevereiro de 1912, aos 34 anos. No jornal “Rumo” de 30/06/1949, Roberto Fernandes escrevia assim, a propósito do fim de Laranjeira: “Uma tarde, avizinhando-se a noite, retirei-me da cabeceira da sua cama para regressar a casa. Tinham decorrido uns vinte minutos, se tanto, quando estava a jantar e alguém veio dizer-me que Manuel Laranjeira se suicidara, disparando um tiro de revólver na cabeça. Abandonei a refeição e corri apressadamente a sua casa. Quando entrei no seu quarto, onde antes conversara com ele, verifiquei a realidade da má notícia. Um fio de sangue, manchando o travesseiro, corria dum ferimento do lado direito da cabeça, um pouco abaixo da orelha. O seu corpo, reduzido a quase um esqueleto nos últimos dias em que guardava o leito, sumia-se sob as roupas, depois de morto, apenas se divisando a sua cabeça de farta cabeleira, a boca aberta como se ainda pudesse dizer a todos: “Irreverente como sempre fui, até me ri da Morte porque me antecipei a ela…”
Nota: Orlando da Silva publicou em 1992, numa edição de autor, uma interessante fotobiografia intitulada “Manuel Laranjeira: Vivências e Imagens de uma Época (1887-1912)”. Imprescindível para quem quiser conhecer ao pormenor a vida do poeta, com reproduções de documentos e fotografias de Laranjeira e das pessoas e dos sítios que nele habitavam.»
«Duas notas prévias: uma para dizer que, conforme prometido, cá estou para deixar umas palavras mais que justas sobre o homem; uma outra para referir que as linhas que se seguem são, quase todas (”tomos” 1 e 2), extractos do livro “A Génese de Espinho - Histórias e Postais”, da autoria de Carlos Morais Gaio. A guitarra a quem tem unhas…
O nascimento
Às 20h do dia 17 de Agosto de 1877, uma sexta-feira, nascia no lugar da Vergada, freguesia de São Martinho de Mozelos, concelho da Feira, Manuel (Fernandes) Laranjeira.
Em Espinho
Aos 22 anos, fixou residência em Espinho numa casa com o n.º 275 da Rua Bandeira Coelho (actual Rua 19). “Padecia de sífilis e preparava-se para formalizar a sua inscrição na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Iria destacar-se como um vulto influente da cultura portuguesa e marcaria a primeira década do século, já que Espinho lhe serviu de palco para a produção intelectual e para a participação cívica.”
O homem e a obra
“Considerado como o autor que melhor encarnou a obsessão no naturalismo em encontrar a verdade sobre a sociedade portuguesa, concebida como uma entidade dotada das características psicológicas dos seus habitantes, publicava, em 1902, a peça ‘Amanhã (prólogo dramático)’, via representado, em 1905, o seu manuscrito ‘Às Feras’ e concluía, em 1907, a licenciatura com uma tese intitulada ‘A Doença da Santidade (ensaio psico-patológico sobre o misticismo de forma religiosa)’. Na sua vasta colaboração em jornais e revistas, defendia a ideia de que os suicídios célebres (Soares dos Reis, Antero de Quental, Camilo Castelo Branco) reflectiam o mal-estar colectivo, julgando necessário que alguém fosse capaz de escrever a verdade sobre Portugal.”
As tertúlias
“Numa época em que a neurose e o esgotamento se popularizavam, Laranjeira abusava do café e do tabaco, tinha insónias prolongadas e passava noites a escrever, depois das boémias e das tertúlias. Frequentador habitual do Café Chinês, rodeava-se de um grupo fiel, onde pontificavam, entre outros, o artista Amadeo de Souza-Cardozo (que frequentava a praia [de Espinho]) e um grupo de jovens influentes no meio local (…)”
“A Génese de Espinho - Histórias e Postais”
Carlos Morais Gaio
Campo das Letras, Porto, Dezembro de 1999
(págs. 381 a 392, Capítulo VI - Uma vila à Beira-mar, Os Anos de Laranjeira)
A causa
Manuel Laranjeira sentia-se um “D. Quixote de braços cruzados” perante a “força cruel da realidade, defendia ser preciso uma ‘mentira vital’ para se acreditar nalguma coisa. A causa republicana levou-o a participar, empenhadamente, na luta contra a monarquia, pelo que reagiu euforicamente à implantação da República.”
O político
“Em 1911, desdobrou-se em iniciativas, fez uma conferência, no Teatro Aliança, sobre as invasões do mar e as obras de defesa da costa [espinhense], lutou pela criação da comarca, como forma de consumar a independência face à Vila da Feira, escreveu (…) artigos sobre o assunto (…) e foi nomeado presidente da Comissão Administrativa Municipal [de Espinho], cargo que desempenhou durante poucos meses (entre Agosto e Outubro), por razões de saúde.”
A morte
O poeta, médico, escritor, filósofo & tudo suicidou-se no dia 22 de Fevereiro de 1912, aos 34 anos. No jornal “Rumo” de 30/06/1949, Roberto Fernandes escrevia assim, a propósito do fim de Laranjeira: “Uma tarde, avizinhando-se a noite, retirei-me da cabeceira da sua cama para regressar a casa. Tinham decorrido uns vinte minutos, se tanto, quando estava a jantar e alguém veio dizer-me que Manuel Laranjeira se suicidara, disparando um tiro de revólver na cabeça. Abandonei a refeição e corri apressadamente a sua casa. Quando entrei no seu quarto, onde antes conversara com ele, verifiquei a realidade da má notícia. Um fio de sangue, manchando o travesseiro, corria dum ferimento do lado direito da cabeça, um pouco abaixo da orelha. O seu corpo, reduzido a quase um esqueleto nos últimos dias em que guardava o leito, sumia-se sob as roupas, depois de morto, apenas se divisando a sua cabeça de farta cabeleira, a boca aberta como se ainda pudesse dizer a todos: “Irreverente como sempre fui, até me ri da Morte porque me antecipei a ela…”
Nota: Orlando da Silva publicou em 1992, numa edição de autor, uma interessante fotobiografia intitulada “Manuel Laranjeira: Vivências e Imagens de uma Época (1887-1912)”. Imprescindível para quem quiser conhecer ao pormenor a vida do poeta, com reproduções de documentos e fotografias de Laranjeira e das pessoas e dos sítios que nele habitavam.»
Publicado no Boblog

Sobre a Colónia Dr. Manuel Laranjeira existe um documento publicado pela Associação Portuguesa de Sociologia que trata do alojamento social no Porto, com especial referência aos primeiros bairros sociais da cidade, que pode ver aqui.
10.11.08
A RUA
A rua é dos elementos mais importantes na Urbanística, como espaço canal de estruturação do processo de desenvolvimento da cidade, pois é ao longo dela que se vão ordenando as construções e fixando os sistemas de vida e, por ela, no subsolo e no solo, circulam as redes de infra-estruturas e os sistemas viários de circulação de transportes e mercadorias, para além da mobilidade pedonal ao longo dos respectivos passeios. Daí a importância deste vaso capilar do corpo urbano chamado cidade e o seu papel estruturante, funcionando em rede e criando múltiplos interstícios por onde passa o sangue revitalizador de toda a vida urbana. Sem ruas não havia cidades e sem cidades não haveria aquilo a que chamamos e de que fazemos parte, vida colectiva e estrutura societária. Toda a gente sabe isto e, mesmo que nem sempre dê atenção ao facto, tem gravado no seu sistema genético a imagem da rua e das suas funcionalidades.
A rua de que quero falar hoje é esta, mas associada a uma função que os últimos tempos lhe estão a devolver, com os riscos e vantagens daí derivados A rua política, espaço canal de extravasamento da contestação e do protesto, ingrediente complementar de afirmação da vontade democrática, no âmbito da regulamentação específica que pauta o "direito à manifestação". Há os que discordam do processo de utilização da rua para tais fins e até se incomodam com isso, mas, mesmo para esses, convém que seja dada atenção aos "sinais" vindos da rua, porque ela deve ser sempre entendida como "espaço de liberdade", se quisermos valorizar a magnífica obra de Vieira da Silva, a pintora, na sua interpretação artística libertária de homenagem ao 25 de Abril.
A rua tem andado agitada e nervosa, ultimamente, e já fica a dúvida, para alguns, de saber distinguir quem promove e movimenta esse clima que dela tem vindo a tomar conta, com espontânea independência consideram muitos, com a mistura do picante ingrediente partidário consideram os mais "escaldados" e a quem "o calo" destas coisas já viciou na apreciação ou lhes confere maior frieza de análise. Por certo, uns e outros terão razão, daí que o importante a reter é o facto, que, em si, sobreleva o modo porque e como ocorre.
É indubitável que a "rua política" está a adquirir uma nova dimensão, já não são só os experimentados e habituais utilizadores que descem até ela e com os clássicos comportamentos, mas há um novo panorama que se oferece aos olhos de quem está atento e não pode deixar de medir as consequências desta nova aragem.
A rua, como espaço de afirmação e procura de notoriedade grupal, está a mudar, a ser expressão de novos processos de agitação e agrupamento das pessoas, diria que, de novas fórmulas de intervenção e afirmação da cidadania. Mesmo sem escanotear que, por detrás disto, estejam tiques corporativos difíceis de debelar numa sociedade tradicionalmente corporativa, os sinais e os processos, e os meios técnicos de inter-comunicabilidade entre as pessoas, estão a desenhar um novo cenário de utilização da rua, que não substitui a democracia quando ela está, ou devia estar, consolidada, mas serve para lhe fazer chegar os tais "sinais" de insatisfação e desejo de correcção que os eleitos não podem deixar de levar em conta.
Do ponto de vista da cidadania não pode esperar-se, nem desejar-se, que o poder se transforme a partir da rua, numa sociedade democrática com regras aceites, mas a vitalidade de uma democracia também passa pela capacidade de reacção e de afirmação de indignação, perante medidas ou comportamentos do poder que não levam em conta a necessária exigência dialogante com os cidadãos, estruturados em organismos associativos ou de classe. Democracia pressupõe isso mesmo, diálogo e negociação, teimosamente, dolorosamente, até aos limites, se possível.
Os governos não devem nem podem funcionar e decidir face ao clima ou estado de humor da rua, mas não podem fechar as janelas dos gabinetes dos decisores ao ruído que dela provém.
Em nome da valorização social e cívica deste "espaço canal" da vida colectiva e em favor da maturidade democrática de um sistema que contém, no mesmo plano, representantes eleitos e agentes legítimos dessa representatividade electiva.
A rua, uma vez mais, está viva e é essencial ao funcionamento da cidade livre e democrática.
A rua de que quero falar hoje é esta, mas associada a uma função que os últimos tempos lhe estão a devolver, com os riscos e vantagens daí derivados A rua política, espaço canal de extravasamento da contestação e do protesto, ingrediente complementar de afirmação da vontade democrática, no âmbito da regulamentação específica que pauta o "direito à manifestação". Há os que discordam do processo de utilização da rua para tais fins e até se incomodam com isso, mas, mesmo para esses, convém que seja dada atenção aos "sinais" vindos da rua, porque ela deve ser sempre entendida como "espaço de liberdade", se quisermos valorizar a magnífica obra de Vieira da Silva, a pintora, na sua interpretação artística libertária de homenagem ao 25 de Abril.
A rua tem andado agitada e nervosa, ultimamente, e já fica a dúvida, para alguns, de saber distinguir quem promove e movimenta esse clima que dela tem vindo a tomar conta, com espontânea independência consideram muitos, com a mistura do picante ingrediente partidário consideram os mais "escaldados" e a quem "o calo" destas coisas já viciou na apreciação ou lhes confere maior frieza de análise. Por certo, uns e outros terão razão, daí que o importante a reter é o facto, que, em si, sobreleva o modo porque e como ocorre.
É indubitável que a "rua política" está a adquirir uma nova dimensão, já não são só os experimentados e habituais utilizadores que descem até ela e com os clássicos comportamentos, mas há um novo panorama que se oferece aos olhos de quem está atento e não pode deixar de medir as consequências desta nova aragem.
A rua, como espaço de afirmação e procura de notoriedade grupal, está a mudar, a ser expressão de novos processos de agitação e agrupamento das pessoas, diria que, de novas fórmulas de intervenção e afirmação da cidadania. Mesmo sem escanotear que, por detrás disto, estejam tiques corporativos difíceis de debelar numa sociedade tradicionalmente corporativa, os sinais e os processos, e os meios técnicos de inter-comunicabilidade entre as pessoas, estão a desenhar um novo cenário de utilização da rua, que não substitui a democracia quando ela está, ou devia estar, consolidada, mas serve para lhe fazer chegar os tais "sinais" de insatisfação e desejo de correcção que os eleitos não podem deixar de levar em conta.
Do ponto de vista da cidadania não pode esperar-se, nem desejar-se, que o poder se transforme a partir da rua, numa sociedade democrática com regras aceites, mas a vitalidade de uma democracia também passa pela capacidade de reacção e de afirmação de indignação, perante medidas ou comportamentos do poder que não levam em conta a necessária exigência dialogante com os cidadãos, estruturados em organismos associativos ou de classe. Democracia pressupõe isso mesmo, diálogo e negociação, teimosamente, dolorosamente, até aos limites, se possível.
Os governos não devem nem podem funcionar e decidir face ao clima ou estado de humor da rua, mas não podem fechar as janelas dos gabinetes dos decisores ao ruído que dela provém.
Em nome da valorização social e cívica deste "espaço canal" da vida colectiva e em favor da maturidade democrática de um sistema que contém, no mesmo plano, representantes eleitos e agentes legítimos dessa representatividade electiva.
A rua, uma vez mais, está viva e é essencial ao funcionamento da cidade livre e democrática.
Gomes Fernandes
(Arquitecto, professor da Universidade Lusófona - Porto)
(Arquitecto, professor da Universidade Lusófona - Porto)
Publicado no Jornal de Notícias
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