29.7.08

Os sítios onde viviam os fidalgos


"Alberto Pimentel, que na sua volumosa e multifacetada obra nos legou das mais belas páginas sobre o Porto, escrevendo sobre os fidalgos que, no ano de 1863, ainda viviam na cidade dizia que "eram pouco numerosos" e que, por essa razão, também "eram poucos os palácios antigos e que esses poucos ficavam "distanciados uns dos outros" como que isolados apresentando "um ar triste de solidão aristocrática porque os seus ilustres habitantes viviam realmente solitários a dois passos de distância de uma sociedade que não era precisamente da sua raça nem da sua categoria…"

Ora esses palácios, os que lograram chegar até aos nossos dias, que há coisa de século e meio, se encontravam "a dois passos de distância" de uma sociedade que não pertencia à dos seus ocupantes, estão hoje perfeitamente integrados no seio do tecido urbano da cidade, mas mais solitários do que nunca porque já não albergam as famílias dos seus titulares e, na maioria dos casos, nem sequer lhes pertencem.

Mais em muitos casos, o cidadão comum dos nossos dias já nem sequer os identifica como tendo sido a morada da velha aristocracia portuense.

Lembremos, por exemplo, o palacete que foi, primeiro dos viscondes de Balsemão e, depois, do visconde da Trindade, na Praça de Carlos Alberto onde está instalada a Direcção Municipal de Cultura. Foi uma das mais importantes casas nobres da cidade. No tempo dos primeiros titulares estes franqueavam as portas da sua volumosa biblioteca a quem quisesse ler ou estudar.

O palacete que mais distante ficava do velho burgo, era o dos Brandões, na Torre da Marca, agora propriedade da diocese e a que anda ligada a curiosa lendo do Pedro Sé, o tal "que já teve e agora não tem…"

Em 1877 os Cunhas e Portocarreros, do Marco de Canavezes, ainda viviam no seu imponente palácio da Bandeirinha, agora propriedade de uma ordem religiosa feminina. Pertencia a esta família o tenente coronel do Regimento de Infantaria 6, João da Cunha Araújo Portocarrero, que, nas vésperas da segunda invasão francesa, uma multidão enfurecida assassinou, junto ao Padrão das Almas, actual Largo do Padrão, por suspeita de que fosse afrancesado.

Ao serviço dos Correios, na Praça da Batalha, continua a Casa dos Guedes, da Quinta da Aveleda, em Penafiel, em cujo jardim foi enterrado, junto a uma palmeira, o braço direito do Sá da Bandeira depois de ter sido ferido, durante o Cerco do Porto, no Alto da Bandeira, em Vila Nova de Gaia. Neste palacete realizaram-se os mais famosos bailes que houve no Porto nos finais do século XIX.

Conta-se numa crónica da época que a luz dos candelabros que iluminavam as salas, escorria pelas vidraças das amplas janelas para a rua iluminando os homens e animais que junto das caleches aguardavam os seus amos no meio da neblina húmida que inundava a praça…

E, olhando hoje para o edifício onde funciona a Junta de Freguesia do Bonfim, alguém saberá que foi das mais sumptuosas moradias da cidade? Pertenceu à influente e rica família portuense dos Cirnes e tinha anexa uma vasta propriedade que se estendia até à quinta de repouso do bispo onde depois foi construído o Cemitério do Prado do Repouso.

Muito curiosa é a história do Visconde de Pereira Machado que viveu no seu solar da Rua Formosa, esquina com a Rua da Alegria que serve agora de sede a uma associação filantrópica. O titular chamava-se Guilherme Augusto Machado Pereira e foi feito visconde em 15 de Dezembro de 1868. Na carta de mercê em que foi agraciado com aquele título, em vez de Machado Pereira escreveram Pereira Machado e foi com esta designação que passou a usar o título. Por causa disso denominavam-no "visconde às avessas…" Os bailes que nos finais do século XIX se realizaram nos salões deste palacete contaram, muitas vezes, com a presença da duquesa de Palmela e do duque de Saldanha.

Muitas mais famílias tiveram residências de maior ou menor aparato na cidade do Porto. Das mais antigas foram os Sás, a que pertenceu o célebre Sá das Galés. A sua casa, ainda hoje conhecida pelo Paço da Marquesa, ainda existe, muito alterada, claro, à entrada da Rua de Cima de Vila, ao lado esquerdo para quem entra da Rua Chã. Diz A. de Magalhães Basto que "tinha o luxo de uma verdadeira casa do Renascimento".

João Rodrigues de Sá, titular da casa, morreu em 1575 com 115 anos de idade e, quase até ao fim da vida" escreveram algures "praticou equitação". Um seu biógrafo acrescentou mais este pormenor "… com mais de cem anos domava cavalos por mais ferozes que fossem…"

Os sítios onde viviam os fidalgos da cidade

Ao lado, dentro da exiguidade de espaço disponível, referem-se alguns palácios que a antiga fidalguia tinha no Porto e que ainda estão de pé mas agora com aproveitamento diverso daquele para que foram construídos. Muitos houve no entanto que desapareceram, sem apelo nem agravo, por efeitos apenas de um urbanismo desenfreado. Foi o caso do solar dos Correias Montenegros (depois condes de Castelo de Paiva) que ficava na calçada de Vandoma, à Sé. O espaço hoje ocupado pela Rua de Álvares Cabral pertenceu outrora à famosa quinta dos Pamplonas, mais tarde condes de Resende. Possuía os mais belos jardins do Porto e os seus proprietários, aos domingos e dias santificados, abriam os portões da sua quinta ao povo que todos desfrutassem da beleza dos seus jardins. Muito alterados subsistem os palacetes dos Leites Pereiras, em S. João Novo; dos Pachecos Pereiras, em Belomonte; do conde de Azevedo, nos antigos Carvalhos do Monte, actual Largo do Primeiro de Dezembro; dos Noronhas, na Prelada; e dos viscondes de Veiros nas Águas Férreas."

Germano Silva
in Jornal de Notícias


Nota: Lamento que os arquivos do Jornal de Notícias já não estejam disponíveis na internet, depois da reformulação do "site". Por este motivo as ligações para aquele jornal deixaram de funcionar.



1 comentário:

José Azevedo disse...

Os fidalgos também iam aos hoteis do Porto...