23.5.08

Rua da TRINDADE

32!05!08

Localizada e publicada no Flickr

Fachada da Celestial Ordem Terceira da Santíssima Trindade


"Estava o século XIX ainda a erguer-se dos alicerces quando os Terceiros da Ordem Trinitária decidiram dar maior ênfase a uma das actividades que sempre os ocupou, a assistencial, sem descurar as vertentes evangelizadora e cultural

Assim, no primeiro quartel do século demoliram algumas das casas que ladeavam a rua do lado poente a da igreja, conquistando espaço para a construção do hospital e para a regularização da fachada da igreja.

Com as obras do templo bastante adiantadas, as preocupações da Ordem viraram-se para o hospital, ou seja, para a forma de angariar fundos para a sua construção.

Festas teatrais, denominadas de "benefícios", foram um dos meios utilizados pela Ordem. E a fonte de receitas revelou-se de tal forma proveitosa que, em sinal de gratidão, os artistas teatrais, suas mulheres e filhos foram admitidos como Irmãos da Ordem.

Em 1817 foi organizada uma lotaria (iniciativa repetida em três anos) com 10.000 bilhetes, vendidos a 10$00 cada.

A longa história da construção do Hospital da Trindade está recheada de nomes ilustres e anónimos, sem os quais o Porto não teria um hospital dotado das principais valências e equipado com os mais modernos
equipamentos.

António Francisco Guimarães, por exemplo, um ex-prior e habitual benfeitor da Ordem, custeou as obras de carpinteiro no assoalhamento das salas do hospital.

Apesar de, em 1825, se terem organizado serviços de assistências aos irmãos, com a visita domiciliária de médicos e fornecimento de medicamentos, concluir o hospital era a grande meta da Ordem Terceira da Trindade.

Foi assim que, em 1847, se apelou à rica e generosa gente do Porto radicada no Brasil e a personagens gratas na sociedade da altura.

Um ano depois iniciou-se uma campanha de angariação de novos Irmãos, que se estendeu a Matosinhos, Guimarães e Régua.

Entre muitas personalidades que se distinguiram na tarefa de erguer o Hospital da Trindade, avulta José António de Sousa Basto, prior da Ordem Terceira da Trindade e generoso benemérito que, em 1854, foi titulado Visconde da Trindade.

Ajuda dos pescadores

A Ordem apelou, ainda, à generosidade dos pescadores de Ovar, de Espinho e da Póvoa de Varzim. Aos lavradores das freguesias limítrofes do Porto pediu-se transporte gratuito das pedras e doação de pinheiros das suas bouças. E também foram feitos Irmãos, usufruindo das fartas regalias que a Ordem concedia aos seus membros.

A correspondência foi boa, e para ela também contribuiu o empenho dos respectivos párocos. O de Moreira da Maia, por exemplo, conseguiu o apoio das outras 20 freguesias do concelho.

Em 1852 a Ordem já não pedia para as obras de construção, mas sim para construir um fundo de sustentação do hospital, cuja inauguração estava para breve.

E foi assim que em Fevereiro desse ano, a Mesa e a Junta da Ordem decidiram que o dia mais indicado para a inauguração solene do hospital seria o da Festa da Santíssima Trindade, isto é, a 6 de Junho de 1852.

Foi endereçado um pedido à fábrica de louças da Vista Alegre, que seria de imediato deferido: 60 pequenas jarras de porcelana para ornamento dos 30 lavatórios e 30 mesinhas que deveriam estar junto de outras tantas camas.

D. Maria Luísa de Sousa Basto foi encarregada pelo prior de organizar a comissão de senhoras para a preparação e asseio dos leitos. No final de Março, António Pinto ofereceu 30 cadeiras de pau de óleo.

Enchente

Na data prevista inaugurou-se, enfim, o Hospital da Trindade. As portas estavam franqueadas ao público às 10 horas e rápidamente o establecimento se encheu de uma multidão ávida de conhecer todos os cantos do mais notável hospital da cidade, de tal forma que as portas só voltariam a fechar-se às 22h30, depois de
pelo hospital terem passado muitos milhares de pessoas.

A colorida e pormenorizada descrição da época dá-nos conta dos mínimos detalhes do establecimento hospitalar. Das camas de ferro forjado, às colchas de fustão branco adamascado, passando pelos lençóis e travesseiros com folhos de cassa e uma mesinha e cadeira de pau de óleo nas camas da primeira enfermaria
dos homens,

"Para comemorar o grande dia de abertura do nosso hospital, tinha-se providenciado que nada faltasse para o fausto deste dia memorável nas páginas da nossa História Trinitária: a igreja estava ornada com a maior ostentação e asseio, sobressaindo, nos seis altares laterais, os ricos camarins de veludo carmesim bordados a ouro e o novo pálio de lhama de prata bordado a ouro que, com muita particularidade, atraía todas as atenções, cujas alfaias serviram a primeira vez. O orador, o reverendo abade José Alves Pereira da Fonseca, fez um eloquente discurso; na primeira parte mostrou os seus grandes recursos teológicos e, na segunda, o conhecimento histórico da nossa Ordem, dando a tudo isto realce com poesia e sentimento de dicção", escreveu na época Joaquim Ferreira Monteiro Guimarães.

No entanto, a aprovação de um projecto de regulamento prolongou-se, de tal forma que só no dia 22 de Maio de 1853, quase um ano depois de ter sido inaugurado, é que o Hospital da Trindade admitiu os seus primeiros doentes.

Mas, mais de duas dezenas de anos antes a Ordem já fornecia remédios aos Irmãos, uma prática que ganhou corpo com a inauguração, em Agosto de 1824, de uma farmácia, que vendia medicamentos aos Irmãos e público em geral, na que seria uma das primeiras farmácias sociais do país e que ainda hoje se mantém em funcionamento.

Ampliação

As primitivas instalações do Hospital da Trindade começaram a evidenciar as suas limitações físicas nas primeiras décadas do século passado e, em Julho de 1951, foi decidido avançar com o seu alargamento e investir em equipamento mais sofisticado.

A Ordem comprou os necessários terrenos, transacionou títulos em carteira para fazer face às despesas (que se anteviam enormes) e foi deliberado que a Mesa tivesse poderes de alienar alguns bens imóveis pertencentes à Ordem.

As obras começaram e a nova ala, na parte norte do Hospital da Trindade, foi inaugurada em 1970, com a presença do então presidente da República, Américo Tomás e do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes.

As obras custaram 40 mil contos e não beneficiaram de qualquer apoio oficial.

Até aos finais do século passado, o Hospital apetrechou-se por forma a enfrentar novos desafios. Os serviços da Policlínica foram transferidos, em 1999, para instalações mais adequadas. Na mesma altura entrou em funções o Ambulatório, um novo departamento servido por prestigiados médicos e um corpo de enfermeiras, ao mesmo tempo que se alargou o número de valências.

O espaço da policlínca foi adaptado ao Serviço de Imagiologia, conluído muito recentemente, no que é a cereja em cima do bolo destes primeiros 150 anos de vida do Hospital da Trindade."

Texto publicado no "site" da Ordem da Trindade



2 comentários:

António disse...

Penso que há uma incorrecção no texto: em 1970 o bispo D. António Ferreira Gomes estava exilado no Vaticano e quem chefiava a Diocese era o bispo auxiliar (se bem me lembro, chamava-se Florentino de Andrade e Silva)

(como curiosidade, noto que o actual - em 2014 - secretário de Estado do Ensino Superior, Ferreira Gomes, foi meu professor na UP e é sobrinho do Bispo D. António)

Teo Dias disse...

António (Castilho Dias:

O texto publicado é da responsabilidade da Venerável Ordem!

O escriba recopiador, que eu sou, não tem culpa na transcrição.

O Florentino foi aquele que me crismou, disso não tenho dúvidas.

Mas após consulta na Wiki obtive isto:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Ferreira_Gomes

O que confirma que o dito cujo bispo nosso já estava na cidade. A Ordem não se enganou.

A pertinência do teu comentário levou a pesquisa mais além! Obrigado pela colaboração.